Antibolsonarismo e liberdade parlamentar são critérios para novo partido, diz Tabata Amaral

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SÃO PAULO — Após obter a autorização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para se desfiliar do PDT sem perder o mandato, a deputada Tabata Amaral deve intensificar as conversas para a troca de legenda. A oposição ao presidente Jair Bolsonaro e liberdade para pautar seus projetos são os dois critérios que ela deve levar em conta na escolha da próxima sigla.

Criada na periferia de São Paulo e formada com uma bolsa de estudos em Harvard, nos Estados Unidos, Tabata Amaral fundou em 2017 o Movimento Acredito, grupo suprapartidário cujo pretensão é promover uma renovação na política brasileira. A notoriedade da ativista levou Ciro Gomes e o PDT a filiá-la. Tabata foi eleita com 264 mil votos em 2018.

Ao GLOBO, Tabata disse estar comprometida com a "construção de uma frente ampla de combate ao projeto autoritário, omisso, negacionista do governo Bolsonaro". As conversas sobre composição de alianças em 2022 vão ser levadas em conta em sua próxima filiação, segundo ela.

— É muito importante para a minha filiação entender onde esse partido vai se posicionar. Eu acredito muito na importância do diálogo para a nossa democracia. Vai ser ainda mais necessário que a gente saiba dialogar, especialmente com quem pensa diferente, para que a gente tenha condições de derrotar o projeto autoritário do Bolsonaro — declara Tabata.

Laços de família

Apesar dos mais de 10 convites informais já recebidos pela deputada, Tabata deve começar a negociar seu destino mais seriamente a partir de agora. Namorada do deputado federal licenciado e prefeito de Recife, João Campos, cuja família tem influência no PSB do estado, ela nega que o laço familiar vai interferir em sua decisão.

— Da mesma forma que venho me posicionando contra essa "fulanização" da política, o que vai me levar o partido A, B, C ou D não são seus filiados, mas, sim, o que esse partido pretende fazer em 2022, se as bandeiras que defendo, inclusive de renovação de práticas, têm espaço dentro desse partido — diz ela.

Uma fonte da cúpula do PSB, no entanto, afirmou ao GLOBO que são "grandes" as chances de a deputada desembarcar no partido, mas que as conversas "ainda estão acontecendo". Rede Sustentabilidade e Cidadania, segundo aliados de Tabata, são dois partidos que têm demonstrado o desejo de tê-la entre seus quadros.

Ao mesmo tempo em que a deputada não precisa de pressa para se filiar, visto que ela precisa estar registrada num partido apenas em 2022 para que possa concorrer à reeleição, ela avalia que ter acesso a uma estrutura partidária facilitaria sua atuação parlamentar.

Isso porque, desde 2019, quando foi suspensa pelo PDT após votar a favor da reforma da Previdência contra a orientação do partido, Tabata está impedida de participar de comissões e perdeu voz dentro do partido. A equipe técnica da legenda que auxilia na formulação de proposições da bancada deixou de atendê-la, por exemplo.

Vitória dos grupos de renovação

Críticos da decisão do TSE que liberou Tabata do PDT com mandato argumentam que a medida enfraquece o sistema partidário ao permitir que acordos vistos como informais se sobreponham a conceitos como o da fidelidade partidária.

A questão gira em torno da carta-compromisso acordada entre PDT e Acredito que fez avançar a negociação para a filiação da ativista. No documento, assinado pelo secretário-geral estadual do PDT de São Paulo, Airton Costa do Amaral, e por Tabata, a legenda se compromete a "respeitar as autonomias política e de funcionamento do Acredito, bem como a identidade do movimento e de seus representantes".

Mariana Lopes, porta-voz nacional do Acredito, discorda e diz que o episódio pode dar uma "sacudida" nos partidos e levá-los a se acostumar e a se organizar para abrir espaço para grupos como o de Tabata.

— O Acredito de maneira alguma quer acabar com os partidos ou implementar partidos clandestinos, como dizem por aí. A gente reconhece e honra os partidos, mas os movimentos cívicos vieram para ficar e devem ser respeitados. Foi uma provocação importante para os partidos. Eles precisam se reinventar — diz Lopes.

Tabata não foi a primeira representante do Acredito a obter essa decisão no TSE. Em abril, o também deputado federal Felipe Rigoni (ES) conseguiu liberação do PSB após passar por situação análoga ao da colega do PDT. Após votar a favor da reforma da Previdência, também contra orientação de seu partido, Rigoni foi suspenso pelo PSB e escanteado das decisões partidárias.

No julgamento de Rigoni, o ministro Luís Roberto Barroso argumentou que a carta-compromisso firmada entre PSB e Acredito tem eficácia jurídica para se sobrepor à decisão da sigla referente à votação da reforma da Previdência. A posição do Acredito a favor da reforma era de conhecimento público, e portanto do PSB, antes da assinatura da carta-compromisso, segundo Barroso.

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