Antidepressivo reduz riscos de hospitalização por Covid-19 em 32%, aponta estudo

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RIO — Um antidepressivo comum diminuiu em 32% as chances de hospitalização por Covid-19 em pacientes de alto risco que iniciaram o tratamento nos primeiros dias do diagnóstico. A descoberta faz parte de um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e canadenses publicado nesta quarta-feira na revista científica The Lancet.

O medicamento utilizado no estudo foi a fluvoxamina, normalmente utilizada para tratamento de depressão, ansiedade e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). O estudo, que teve início em janeiro deste ano, é o maior já realizado que analisa a capacidade do remédio em reduzir a hospitalização por Covid-19, e foi feito em parceria com autoridades locais de saúde pública de 11 cidades brasileiras.

Cerca de 1.500 pacientes considerados de risco — como aqueles com comorbidades ou imunossuprimidos —, com mais de 18 anos e que estavam nos primeiros dias da doença participaram da pesquisa. Eles foram divididos em dois grupos, um que recebeu a fluvoxamina e o outro para o qual foi administrado um placebo.

A dosagem aplicada foi de 100 miligramas duas vezes ao dia em 741 pacientes que participaram do primeiro grupo durante o período de dez dias. Todos os pacientes foram observados por mais 28 dias. Enquanto no primeiro grupo, que recebeu o medicamento, 79 pessoas (10,6%) precisaram de cuidados médicos intensivos, esse número foi de 119 pacientes (15,7%) entre os 756 que receberam placebo. Comparativamente, os resultados mostram uma redução relativa de 32% nos riscos de hospitalização.

O foco da pesquisa foi a diminuição da necessidade de cuidados médicos intensivos, mas os responsáveis pelo estudo ressaltaram, em uma análise secundária, que entre os participantes que receberam pelo menos 80% da dosagem da fluvoxamina, ou seja, aqueles que fizeram o tratamento praticamente completo, apenas uma morte foi constatada. Já entre os que receberam placebo, 12 óbitos foram registrados.

Antidepressivos e Covid-19

Segundo os cientistas, a segurança, a tolerabilidade, a facilidade de uso, o baixo custo e a ampla disponibilidade da fluvoxamina podem influenciar diretrizes nacionais e internacionais sobre tratamento da Covid-19.

No entanto, eles ressaltam que o mecanismo subjacente da fluvoxamina para a doença permanece incerto. As hipóteses que levaram à pesquisa incluem principalmente a ação antiinflamatória do medicamento por meio da ativação de uma proteína que regula a produção de citocinas quando o corpo é exposto a gatilhos inflamatórios, como na infecção pelo SARS-CoV-2, vírus causador da Covid-19.

Outro mecanismo da fluvoxamina que estimulou a sua participação em testes clínicos da Covid-19 é a sua capacidade em permitir que a serotonina fique mais tempo disponível no organismo. Esse aumento da serotonina já foi ligado por cientistas a uma diminuição da resposta inflamatória, como a provocada pelo vírus.

Esse princípio levou diversos pesquisadores a testarem, ainda no fim de 2020, a fluvoxamina e a fluoxetina, dois antidepressivos, no combate à evolução da Covid-19 para formas mais graves. As duas substâncias são amplamente utilizadas hoje como medicamentos para transtornos psicológicos, justamente por aumentar as taxas de serotonina no corpo humano.

Um artigo publicado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) na revista científica European Journal of Pharmacology constatou as possibilidades desses medicamentos antidepressivos em modularem a inflamação da Covid-19.

A pesquisa da USP propôs que esses fármacos fossem utilizados como um tratamento complementar durante a infecção pela doença, e destacou os resultados positivos da fluoxetina em testes in vitro, realizados em laboratório. No entanto, mais estudos eram necessários para comprovar a eficácia dos mecanismos de atuação dos antidepressivos para reduzir a inflamação da Covid-19 na vida real.

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