Antidoping e competição online preocupam levantamento de peso, sem nenhum atleta no mundo classificado para Tóquio

Carol Knoploch
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Rosane Reis, quinta colocada nos Jogos do Rio-2016, no levantamento de peso (55kg), engrossa a lista de quem recorreu aos remédios para dormir por causa da pandemia. A atleta de 33 anos teve depressão e insônia. O último ano não foi fácil para ela, que travou batalha interna sobre seu futuro, em meio às incertezas do calendário internacional e sem apoio financeiro. Seu sonho é encerrar a carreira na Olimpíada de Tóquio. Mas a indefinição dos torneios classificatórios, ora marcados ora cancelados, colocou mais dúvidas e pressão.

Abril e maio serão meses decisivos para a maioria das modalidades olímpicas. As dificuldades são a confirmação das competições e a viabilização das viagens por causa das restrições de circulação impostas pelo coronavírus. O levantamento de peso é uma das mais prejudicadas. A maioria dos torneios válidos para ranking internacional foram adiados e não existe atleta garantido em Tóquio. Há mais de um ano, eles não competem, não fazem teste antidoping e a Federação Internacional de Halterofilismo (IWF) estuda realização de competição on-line para definir quem irá aos Jogos.

— Estava numa briga interna, sem saber se continuava ou parava. Treinando mesmo machucada, para não perder a forma. Entrei na neura de estar no auge, forcei os treinos como se fosse disputar algo amanhã — diz Rosane, que vive apenas com o Bolsa Atleta, cujo pagamento referente ao ano de 2020 ainda não começou. — Não conseguia dormir, só a base de remédio, não queria falar com ninguém, só sabia chorar.

Rosane foi dispensada do Pinheiros em dezembro de 2019, mesma época em que esgotou seus oito anos como atleta da Marinha. Investiu as economias em academia de crossfit, em São Paulo, e não sabe quando poderá receber alunos. Mesmo assim, começou a se sentir fortalecida, após se recuperar de lesão na coxa. Mas, há poucas semanas, seu pai faleceu de embolia pulmonar, no Rio, e ela não pode se despedir.

Rosane, que não compete desde dezembro de 2019, quando foi prata no Sul-americano, na Argentina, e todos os atletas do levantamento de peso não têm certeza como se dará a classificação olímpica. Seria feita em três períodos, em 18 meses. Todos os atletas devem competir pelo menos uma vez no período final de qualificação, que começou em outubro passado, mas não ocorreu um único torneio.

O principal pré-olímpico, da Oceania, que seria disputado em março só acontecerá após a Olimpíada, em agosto, em Nauru. O Europeu, previsto para abril, na Rússia, pode ser a primeira competição da modalidade após 13 meses. Mas, o torneio africano, que seria em abril, já foi transferido para maio, último mês para a classificação olímpica, em Madagascar. Também em abril está marcado o Asiático, no Uzbequistão, e o Pan-Americano, na República Dominicana.

É neste último que sete atletas do Brasil brigarão por pontos para o ranking. Eles terão, ainda, o Sul-americano, em maio, na Colômbia.

O ranking determinará, por cota continental, os classificados, segundo regras como limite de atletas por país (quatro por gênero). Serão sete categorias em Tóquio.

Enrique Montero, presidente da Confederação Brasileira de Levantamento de Peso, disse que não sabe o que acontecerá caso essas competições sejam adiadas. Usar o ranking atual, sem contar o último ano, seria uma alternativa. É que segundo ele, existe resistência no ambiente esportivo para a realização de torneio on-line para cumprir a tabela.

Uma das propostas recebidas pela IWF é combinar um evento ao vivo, na Arábia Saudita, onde está previsto o Mundial Júnior, em maio, com um virtual. Qualquer atleta incapaz de competir em seu continental “ouro” poderia competir ambos, também com status “ouro” (que dá mais pontos).

A opção on-line, no entanto, só estaria aberta aos atletas que se inscreverem nas condições de “localização” para testes antidoping surpresa. Isso obrigará fornecerem informações sobre seu lugar às autoridades antidoping em 1º de abril.

Montero explica que trabalha com a realização do Pan e do Sul-americano.

— Tenho de estar pronto. Gostando ou não, querendo ou não, achando que deve acontecer ou não. A situação é ruim ainda mais para nós por causa da questão sanitária no Brasil — disse o dirigente, que teve dificuldade para reservar voo para Santo Domingo, pois não tem autorização para escala no EUA e Colômbia (via Panamá).

‘Terreno para trapaça’

Para Serafim Veli, de 34 anos, (96kg), bronze no Pan da modalidade em 2018, seria difícil garantir igualdade e segurança em competição on-line. Antidoping, pesagem dos atletas e aferição das anilhas são pontos polêmicos citados por ele.

— Isso é terreno fértil para trapaça — opina o albanês, naturalizado brasileiro. — Além das regras que podem ser burladas, o clima de competição faz diferença. Estar ao lado dos rivais é motivante e leva a melhor desempenho.

Serafim acaba de se recuperar da Covid, teve sintomas leves. Admitiu que o cenário do último ano lhe fez repensar prioridades. Diz que a doença, a crise sanitária, as mortes e o aumento da pobreza são motivos mais do que justos para o cancelamento dos Jogos. Mas se diz pronto para as classificatórias. Essa pode ser sua primeira e última Olimpíada.

— Ninguém vai virar os olhos para a Olimpíada, se empolgar com tantos problemas. Não tem clima — lamentou o atleta, que defendeu o Brasil pela primeira vez 2018. — Depois fui para os Jogos Pan-americanos de Lima, em 2019. E não posso imaginar que não vai ter a mesma Cerimônia de Abertura em Tóquio, cheia, com público, aquela festa... Para mim, a falta de competição me desmotivou e teve vezes que não quis mais continuar.

Serafim afirma que seu sonho é disputar uma Olimpíada e que vai correr atrás. Os obstáculos não são páreo para ele, um sobrevivente. Quando tinha 13 anos, sua família fugiu da guerra civil na Albânia para a Grécia. Não foram poucas as vezes em que ele e suas irmãs sofreram discriminação na escola. Quando se mudou para o Brasil, em 2015, para casar com Aline, mãe de seu filho Bruno, de 3 anos, Serafim encontrou uma nova casa e reencontrou o esporte que ele tinha abandonado, mesmo com sucesso na Europa (chegou a ser o terceiro melhor europeu, pela Albânia).

— No Brasil me sinto em casa. Nunca me trataram mal. Espero realizar o sonho olímpico e conquistar uma medalha para este país que meu deu tudo.