Antiga banca de jornais é transformada em biblioteca comunitária por morador e vira point de leitura em São Gonçalo

De segunda a sexta-feira Bruno Policarpo, de 40 anos, dá expediente no Arsenal de Marinha, no Centro do Rio, onde trabalha com tecnologia militar. Aos sábados ele se transforma numa espécie de bibliotecário informal no Bairro Vermelho, em São Gonçalo, onde mora. Lá, comanda a Jornateca Luis Gama, que funciona numa antiga banca de jornais que virou biblioteca e se transformou no point da leitura do bairro.

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A maioria dos leitores são vizinhos da Jornateca, que fica na esquina das ruas Dr. Jurumenha e Ana Bignon. As pessoas tanto podem tomar o exemplar emprestado — o prazo de devolução é de 15 dias, podendo ser prorrogado por igual período — como ler no próprio local. E, para quem prefere a segunda opção tem mesas e cadeiras, colocadas à sombra de duas amendoeiras e de um pé de ipê.

A viagem na leitura ainda pode ser acompanhada de um café quentinho preparado por Daiane, de 34, esposa de Bruno. O espaço atrai leitores de todas as idades.

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— Gosto muito de ler e era frequentadora assídua dos sebos de Niterói, onde ia buscar livros mais baratos. Agora ficou muito mais fácil para mim. É só atravessar a rua e pegar emprestado — afirmou a dona de casa Mara Regina Sotomayor, de 58, sem se desgrudar de um exemplar do quarto volume de “Despertar de guerra”, de Victoria Aveyard.

Fã da autora britânica de romances policiais, Agatha Christie, de quem já leu quase todos os livros, Mara não abre mão das sugestões de Bruno. Ela mora em frente à Jornateca, que frequenta com a filha, Sophia, de 16, aluna do 1º ano do ensino médio.

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— É uma oportunidade boa para os moradores do bairro, que não contam com opções de lazer e não tem nenhumas biblioteca pública - aponta a adolescente.

A biblioteca foi aberta no fim de agosto do ano passado. A ideia surgiu durante o confinamento. Ao ver que em casa tinha cerca de 60 livros do filho mais velho, de 10 anos, Bruno achou que dava para fazer algo pelas crianças que estavam afastadas das escolas, por conta da pandemia. Foi atrás do dono de uma banca de jornais perto da sua residência, que estava fechada, comprou o espaço e decidiu transformá-la numa biblioteca comunitária.

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— Esse espaço já foi banca de jornais, foi ocupado por um peixeiro e depois por uma vendedora de balas e biscoitos. Agora é uma biblioteca. A ideia surgiu durante pandemia. Vi as crianças sem poder ir para a escola e queria ajudar de alguma forma. Tinha uns livros em casa, vi a banca fechada e achei que era o lugar ideal.. Comecei a organizar ainda em casa durante o período de restrição. A abertura para o público foi em 27 de agosto — conta Bruno que, apesar do sobrenome lembrar um famoso personagem da literatura brasileira (Policarpo Quaresma, de Lima Barreto), admite que nunca foi um grande leitor.

Mesmo assim, se sente feliz em difundir o gosto pela leitura e estima ter investido mais de R$ 7 mil do próprio bolso, no seu projeto, com a compra da banca, reforma e aquisição do acervo inicial. Hoje, o espaço se tornou conhecido e ele não precisa mais se preocupar em comprar livros.

Os exemplares chegam por doação que vem tanto dos vizinhos como de pessoas de estados distantes, como Santas Catarina, Pará, Paraná e Rio Grande do Sul. Alguns exemplares, segundo Bruno, foram doados pelos próprios autores dos livros. Leitores também não se limitam asos moradores do bairro.

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— A gente recebe pedidos de outros locais como Santa Isabel e até do Centro do Rio — afirma Bruno.

O idealizador da Jornateca diz que foi chamado de maluco no começo, por pessoas que não acreditavam na ideia e achavam estranho alguém investir num negócio que não daria retorno financeiro, num momento de crise. Na sua opinião, o mais gratificante é poder dar opção de acesso a leitura a quem antes não tinha nenhuma opção perto de casa. O que msis o estimulou a continuar foi o apoio da família.

— No bairro não tem nenhuma opção de lazer para ocupar as crianças. Com a abertura da Jornateca muita gente começou a frquentar e o local virou um ponto de encontro do bairro — agirmou Daiane.

Os irmãos Sophia e Bernardo Wandermuren, de 12 e 7 anos, respectivamente, engrossam, o público que bate cartão por lá semanalmente.

— Acho uma iniciativa bem bacana. Na minha escola, por exemplo, a biblioteca está fechada faz tempo — disse a menina, aluna do 6º ano do ensino fundamental..

Todo o acervo da Jornateca pode ser consultada pelo Instagram (@jornateca) ou pelo WhatsApp 99321-9077. Para pegar um livro emprestado é só cadastrar um número de telefone com WhatsApp e um endereço e começar a fazer o pedidos. A jornateca abre aos sábados, das 9h às 14h. O sonho de Bruno é encontrar outras pessoas, interessadas em espalhar a iniciativa por outros pontos da cidade.