Antonio Fagundes: ‘É muita opinião e pouco conhecimento’

Eram 15h em ponto quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz inconfundível de Antonio Fagundes confirmava o compromisso marcado na véspera — ele entraria em contato com a repórter naquele horário exato. Quem conhece Fagundes não estranha: a agenda apertada nunca impediu que o ator fosse disciplinado. Talvez tenha sido isso, inclusive, que proporcionou tantos projetos em quase 60 anos de carreira (ele, hoje com 73, começou ainda adolescente em sua primeira peça profissional).

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Reconhecido por papéis icônicos da TV — como o protagonista da novela “O Rei do Gado”, em reprise na TV Globo —, Fagundes nunca se resumiu à telinha:

— Sempre tem coisas interessantes para se fazer em todas as áreas, né?

‘Deus ainda é brasileiro’

No momento, ele está dando o curso on-line “O ator e o seu universo criativo” (“Uma troca de experiências que pode ser interessante para qualquer pessoa”, diz) e comemora antecipadamente a chegada ao Rio da peça “Baixa terapia”, que já teve 350 mil espectadores e estreia no dia 13 de janeiro no Teatro Clara Nunes, na Gávea. Além disso, começou a filmar o longa “Deus ainda é brasileiro”, de Cacá Diegues, é cotado para uma série (só diz que é “no streaming”) e está no ar com a minissérie “Independência”, na TV Cultura.

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No tempinho que sobra, ele se exercita, de três a quatro vezes na semana. E lê, vorazmente, uma paixão que começou na infância, seguiu pelos intervalos nas gravações e hoje é compartilhada com 1,3 milhão de seguidores no Instagram, apesar de ele se autodefinir como um “analfabyte”:

— Não frequento muito as redes sociais, confesso que tenho uma certa resistência. Me aflige um pouco a facilidade e a superficialidade com que às vezes alguns problemas muito sérios são tratados. É muita opinião e pouco conhecimento.

Conectado ou não, Fagundes inspira memes. Recentemente, brincaram no Twitter que o personagem Atílio, da novela “Por amor”, teria sido a causa de protestos políticos pró-Bolsonaro de Regina Duarte e Cássia Kis, atrizes com quem viveu relacionamentos amorosos na novela. Sobre polêmicas recentes envolvendo Cássia, que foi a manifestações antidemocráticas, ele diz:

— Eu me lembro sempre de uma frase maravilhosa do Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma de vossas palavras, mas defenderei até a morte o vosso direito de pronunciá-las”. Ela tem o direito de se posicionar. Naturalmente, ao fazer isso, vai arcar com as posições que tomou.

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O raciocínio é o mesmo quando indagado sobre os caminhoneiros se manifestando pelas estradas do país. Fagundes deu vida a um deles em Pedro, que, ao lado de Bino (Stênio Garcia), enfrentava todo tipo de cilada em “Carga pesada”, série exibida entre 1979 e 1981 e depois revivida entre 2003 e 2007.

— Vamos respeitar a opinião dessas pessoas desde que elas cumpram a lei. E cumprir a lei é não obstruir estrada, né? Todo mundo tem o direito de se manifestar, deve-se exercer esse direito, mas sem impedir os outros de exercer os seus — opina.

Fagundes deixa o tom contemporizador quando o assunto é a cultura no Brasil. Segundo ele, “parar o desmanche já é um avanço”:

— Nos últimos anos, houve um desmonte de todas as instituições sérias do país. Em todas as grandes nações do mundo a cultura está à frente de tudo.

Bruno, o filho galã

O tom amistoso volta quando ele fala de seu filho, também ator, Bruno Fagundes, de 33 anos.

— Ele já saiu do ninho, alçou voo — diz, orgulhoso.

No ar como o controlador e machista Renan na novela das 19h da TV Globo, “Cara e coragem”, Bruno tem uma carreira independente do pai. Há uma semana, recebeu críticas nas redes sociais por posar de maquiagem, e rebateu: “Que chatice essa história de coisa de menino e de menina”.

O pai acrescenta:

— Grande parte da população brasileira foi criada debaixo desse machismo, desse preconceito com sombras de homofobia. Nós temos que combater isso, e tem que começar prestando atenção. É um exercício de cada minuto da sua vida.

Discreto no âmbito pessoal, Fagundes acaba indiretamente instigando a curiosidade dos fãs sobre todo o tipo de assunto. Enquanto as buscas no Google relacionadas a outras celebridades tendem a girar em torno de namoro, casamento ou trabalho, digitar o nome dele no site é se deparar com a pergunta: “Qual a religião de Antonio Fagundes?”.

—Não tenho uma religião. Mas li um livro interessante há uns meses, que fala sobre “deísmo” [corrente baseada na razão que acredita na criação do Universo por uma inteligência superior]. É um tipo de espiritualidade que eu entendo — diz Fagundes, que encerra com citação do livro “A era da razão”, de Thomas Paine. — Ele diz algo como: o que você deve fazer está escrito no Universo. É bonito, né?