Antonio Fagundes fala do sucesso de ‘O Rei do Gado’ e da vida on-line, apesar das reservas quanto às redes sociais

Eram 15h em ponto quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, a voz inconfundível de Antonio Fagundes confirmava o compromisso marcado na véspera para a entrevista naquele horário. Quem o conhece não estranha: a agenda apertada nunca impediu que o ator, hoje com 73 anos, fosse disciplinado. Talvez tenha sido isso, inclusive, que proporcionou tantos projetos memoráveis em suas seis décadas de carreira.

Entre os papéis icônicos na TV está Bruno Mezenga, protagonista de “O Rei do Gado” (1996), em reprise atualmente no “Vale a pena ver de novo”, da Globo — na novela, ele também fez Antônio Mezenga, avô do personagem principal da história.

— Eu acho que todo trabalho popular, que as pessoas curtem, acaba sendo um divisor de águas. E foi o que aconteceu com “O Rei do Gado”. Eu tinha acabado de fazer “Renascer” (1993), que foi uma novela deslumbrante também do Benedito Ruy Barbosa, e eu confesso que achei que seria difícil duplicar esse talento. Mas o Benedito mostrou que ele não tem fim, que o trabalho dele realmente tinha uma consistência extraordinária, e “O Rei do Gado” provou isso — elogia o ator, que, sobre a dobradinha na trama, lembra: — A gente não teve muito tempo de preparação. Ficamos imersos no interior de São Paulo uns dois ou três meses. Acabada a primeira fase, teve um intervalo de quatro a cinco dias para começar a segunda.

Mas Fagundes nunca se resumiu à telinha:

— Sempre tem coisas interessantes para se fazer em todas as áreas, né?

Novos projetos

No momento, o artista está dando o curso on-line “O ator e o seu universo criativo” (“Uma troca de experiências que pode ser interessante para qualquer pessoa”, diz ele) e está filmando o longa “Deus ainda é brasileiro”, de Cacá Diegues, no qual vive o Todo-Poderoso. Trata-se de uma continuação da produção lançada em 2003, com cenas rodadas em Alagoas. Em janeiro, mais novidade: ele estreia no Rio a peça “Baixa terapia”, que já teve 350 mil espectadores. Além disso, é cotado para uma série (por ora, só diz que é “no streaming”) e está no ar com a minissérie “Independência”, na TV Cultura.

No tempinho que sobra, ele se exercita, de três a quatro vezes na semana. E lê, vorazmente, uma paixão que começou na infância e hoje é compartilhada com 1,3 milhão de seguidores no Instagram, apesar de ele se definir como um “analfabyte”:

— Confesso que tenho uma certa resistência (com as redes sociais). Me aflige um pouco a facilidade e a superficialidade com que às vezes alguns problemas muito sérios são tratados. É muita opinião e pouco conhecimento.

Posicionamentos

Conectado ou não, Fagundes inspira memes. Recentemente, um de seus papéis mais famosos, o Atílio de “Por amor” (1997), ressurgiu numa brincadeira no Twitter: internautas disseram que o personagem seria a causa dos posicionamentos políticos pró-Bolsonaro de Regina Duarte e Cássia Kis, com quem ele contracenou na novela. Sobre as recentes polêmicas desta colega, no ar atualmente como a Cidália de “Travessia” e vista em manifestações antidemocráticas, o ator diz:

— Eu me lembro sempre de uma frase maravilhosa do Voltaire: “Posso não concordar com nenhuma de vossas palavras, mas defenderei até a morte o vosso direito de pronunciá-las”. Ela tem o direito de se posicionar. Naturalmente, ao fazer isso, vai arcar com as posições que tomou.

O raciocínio é o mesmo ao falar das manifestações de caminhoneiros pelas estradas do país. Fagundes deu vida a um com Pedro, que, ao lado de Bino (Stenio Garcia), enfrentava todo tipo de cilada em “Carga pesada”, série exibida entre 1979 e 1981 e depois ressuscitada entre 2003 e 2007.

— Vamos respeitar a opinião dessas pessoas desde que elas cumpram a lei. E cumprir a lei é não obstruir estrada, né? Todo mundo tem o direito de se manifestar, deve-se exercer esse direito, mas sem impedir os outros de exercer os seus — opina.

Fagundes deixa o tom contemporizador ao falar de cultura no Brasil. Segundo ele, “parar o desmanche já é um avanço”:

— Nos últimos anos, houve um desmonte de todas as instituições sérias do país. Em todas as grandes nações do mundo a cultura está à frente de tudo.

Combate ao machismo e à homofobia

O tom amistoso volta quando ele fala de seu filho caçula, o também ator Bruno Fagundes, de 33 anos.

— Ele já saiu do ninho, alçou voo — diz o veterano, orgulhoso, pai também de outros três.

No ar como o controlador e machista Renan de “Cara e coragem”, Bruno recebeu críticas nas redes sociais por posar de maquiagem na última semana, e rebateu: “Que chatice essa história de coisa de menino e de menina”. O pai acrescenta:

— Grande parte da população brasileira foi criada debaixo desse machismo, desse preconceito com sombras de homofobia. Nós temos que combater isso, e tem que começar prestando atenção. É um exercício de cada minuto da sua vida.

Discreto no âmbito pessoal, o marido da atriz Alexandra Martins acaba indiretamente instigando a curiosidade dos fãs sobre todo tipo de assunto. Enquanto as buscas no Google sobre outras celebridades tendem a girar em torno de namoro, casamento ou trabalho, digitar o nome dele no site é se deparar com a pergunta: “Qual a religião de Antonio Fagundes?”.

— Não tenho. Mas li um livro interessante há uns meses que fala sobre deísmo (corrente que acredita na criação do universo por uma inteligência superior). É um tipo de espiritualidade que entendo — diz Fagundes, que encerra com uma citação ao livro “A era da razão”, de Thomas Paine: — Ele diz algo como: o que você deve fazer está escrito no universo. É bonito, né?