Reunião da Anvisa que aprovou vacinas é resposta didática ao negacionismo

Matheus Pichonelli
·2 minuto de leitura
Nurse Monica Calazans, 54, celebrates next to Brazil's Sao Paulo state governor Joao Doria, after receiving the Sinovac's coronavirus disease (COVID-19) vaccine, after Brazil health regulator Anvisa approved its emergency use at Hospital das Clinicas in Sao Paulo, Brazil January 17, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
A enfermeira Monica Calazans, 54, se tornou a primeira brasileira imunizada pela coronavac. Amanda Perobelli/Reuters

Por mais que soe estranha a transmissão ao vivo, com ares de espetáculo, de uma decisão técnica, a reunião da Anvisa que liberou o uso emergencial das vacinas da Oxford e a Coronavac no país serviu como episódio didático de uma novela, até aqui, dominada por desavenças políticas, desconfiança e desinformação.

Última etapa antes do início da imunização, a aprovação da agência nacional de vigilância sanitária foi o programa de domingo para uma multidão que só agora, dez meses após o início da pandemia, vê uma luz num túnel escurecido por sandices e negacionismos de toda ordem.

Relatora do pedido de aprovação das vacinas, Meiruze Freitas foi quem deu a melhor resposta para quem passou os últimos meses alimentando e sendo alimentado por teorias da conspiração de inspiração xenobófica, incutida na expressão "vacina chinesa" --aprovada hoje, a Coronavac foi desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

"Guiada pela ciência e pelos dados, a equipe concluiu que os benefícios conhecidos e potenciais dessas vacinas superam seus riscos. Os servidores vêm trabalhando com dedicação integral e senso de urgência", disse Meiruze Freitas.

Em seu pronunciamento, ela lembrou que, até o momento, "não contamos com alternativa terapêutica aprovada para prevenir ou tratar a doença causada pelo novo coronavírus". Era uma resposta ao mantra governista segundo o qual as mortes por coronavírus no país, que já se aproximam de 210 mil, teriam sido evitadas caso fosse adotado tratamento precoce --seja lá o que isso significa.

Leia também:

"Compete a cada um de nós, instituições públicas e privadas, sociedade civil e organizada, cidadão, cada um na sua esfera de atuação tomarmos todas as medidas ao nosso alcance para no menor tempo possível diminuir o impacto sobre a vida do nosso país”, disse a relatora, justificando seu voto.

A repercussão no Twitter foi imediata. "Viva a ciência", "Viva o SUS" e "Vem Vacina" tomaram a dianteira na rede social favorita de Jair Bolsonaro, o negacionista-mor da pandemia. Seus apoiadores até tentaram, como resposta, sacar do coldre a hashtag #tratamentoprecocesalvavidas. Ficaram falando sozinhos.

Minutos após a aprovação, a enfermeira Monica Calazans, 54, que há dez meses está na linha de frente de um hospital em São Paulo, se tornou a primeira brasileira imunizada. João Doria (PSDB), como se usasse ainda o slogan “acelera”, que marcou sua campanha, estava ao seu lado, com uma camisa escura, bandeira do Brasil ao centro, e recado de que a vacina do Butantan, o instituto paulista, é a vacina do Brasil.

Cenas assim tendem a ser repetidas e repetidas nos próximos capítulos, estes com finais mais alegres, e menos macabros, do que os anteriores.

O capítulo deste domingo, com a votação às claras da Anvisa, para quem quisesse assistir, foi antes de tudo uma resposta sorora, ao vivo e em cores, ao negacionismo que aprofundou fissuras e alargou a tragédia do coronavírus no país.