Ao assumir ser gay, Eduardo Leite faz de vida privada uma não-arma para rivais

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Ao assumir que é homossexual em entrevista a Pedro Bial, como antecipou Patrícia Kogut no GLOBO, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), tornou sua vida privada uma não-arma para ser explorada por adversários no jogo sujo das disputas políticas, algo bem anterior à era de fake news e de robôs espalhando fofocas pela internet.

Não há mais como dizer que Leite esconde algo de seus eleitores. E quem se arriscar a atacá-lo em panfletos apócrifos, fofocas de cabos eleitorais contratados, piadinhas de internet, se for identificado (o que não é nada impossível), não será apenas chamado de homofóbico. Vai criar uma dúvida no eleitor, não importe a postura que este tenha sobre a homossexualidade: alguém que usa esse expediente para ganhar o poder vai ser capaz de qual baixeza quando for exercê-lo?

Eduardo Leite assumiu o governo de um estado marcado por divisões políticas prolongadas e finanças arruinadas. Conseguiu construir um apoio na Assembleia estável o suficiente para tentar pôr ordem no caixa do estado. Tem algo a mostrar, portanto, a quem reconhece que dinheiro é curto tanto para o próprio bolso quanto para os cofres públicos, está farto de ver a política se tornar uma cacofonia de brigas, chiliques e polarizações, e quer apenas tentar viver sua própria vida sem ter um grande risco de ser vítima de crimes, doenças e falhas em serviços que acredita que o governo deveria providenciar.

Assim, o governador gaúcho continua, em tese, a ser um nome que pode ser discutido para uma eventual candidatura à Presidência, e pode até ter se fortalecido como um contraponto ao presidente Jair Bolsonaro. Se os caciques do PSDB e os operadores políticos em busca de uma terceira via temem que a revelação de ontem o faça ser rejeitado, seria bom ver como o senador Fabiano Contarato foi eleito pela Rede no Espírito Santo em 2018.

A homossexualidade de Contarato nunca foi escondida nem propagandeada. Ele foi eleito na esteira da onda de combate à corrupção que entusiasmou eleitores em todo o país depois da Lava-Jato, e ser gay foi um "não-assunto" na campanha (há eleitores que se sentiram traídos pelas críticas que o senador passou a fazer ao governo Bolsonaro e ao ex-ministro Sergio Moro, quando foram reveladas as conversas roubadas de integrantes da Lava-Jato, mas o impacto político disso só deverá ser conhecido daqui a seis anos, quando termina o mandato).

Contarato, aliás, nasceu em Nova Venécia, município do interior do Espírito Santo que já teve Moa como presidente da Câmara. Falecido em 2017, Moa Selia foi uma transexual eleita três vezes vereadora, em uma cidade que não consta como um exemplo notável de engajamento pelos direitos dos gays. E pelo PR, partido que na época era chefiado no estado por Magno Malta, o ex-senador evangélico que fez campanha para Bolsonaro. Quem votou em Moa simplesmente achou que ela era apta para trabalhar bem para a cidade. E para Malta, o que importava era que Moa tinha o que todo político quer: voto.

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