Ao buscar novos clientes para seu petróleo, Rússia prejudica Irã e Venezuela

Enquanto a Rússia tenta achar novos compradores para seu petróleo para enfrentar sanções ainda mais pesadas do Ocidente, ela está avançando sobre as fatias de mercado controladas por dois de seus aliados — Irã e Venezuela — e dando início a uma guerra de preços que pode prejudicar todos eles.

Oferta e demanda: Petróleo cai mais de 7% e fica abaixo de US$ 100 com risco de recessão global. Veja previsões para 2023

Obstáculos: Compra de diesel russo planejada por Bolsonaro pode trocar uma crise pela outra, dizem especialistas

A competição pelas vendas para a Ásia já forçou Venezuela e Irã a aumentarem seus descontos sobre o preço do petróleo para tentarem se manter em um dos poucos mercados que ainda compram o seu produto, que está sob sanções, de acordo com analistas e investidores.

E apesar de Irã e Venezuela afirmarem publicamente que vão permanecer perto de Moscou, especialistas afirmam que, se a batalha do petróleo se intensificar, ela vai elevar as tensões com o Kremlin, mesmo com seu líder, Vladimir Putin, trabalhando para fortalecer as alianças. Na terça, seu governo anunciou que fará uma rara visita ao exterior, na semana passada, para a capital do Irã, Teerã.

Dinheiro em caixa: Superávit no balanço de pagamentos russo bate recorde por exportações de energia

A competição iniciada pela pela invasão russa da Ucrânia parece estar empurrando a Venezuela na direção do Ocidente, após anos de relações congeladas por causa dos abusos eleitorais e humanos cometidos pelo líder autoritário do país. O último produtor de petróleo americano ali, a Chevron, está em negociações com o governo venezuelano, de acordo com um executivo do setor e um funcionário de Caracas.

Qualquer acordo para colocar mais petróleo venezuelano no mercado vai ajudar os EUA, que estão cada vez mais desesperados para reduzir o preço do barril e limitar os danos causados às economias ocidentais pela guerra e pelas sanções impostas ao petróleo russo. As consequências econômicas estão diminuindo o apoio à Ucrânia em sua batalha contra o país vizinho.

— A guerra mostra que os países têm interesses, não inimigos ou amigos — disse Francisco Monaldi, especialista em política do petróleo na Venezuela na Universidade Rice.

Sem diálogo: Divergências sobre invasão russa na Ucrânia dominam encontro de chanceleres do G20

A alta nos preços de energia deu aos combustíveis fósseis um destaque que eles só desfrutaram nos anos 1970, amplificando o efeito das políticas do Kremlin para além dos campos de batalha, no momento em que muitos líderes mundiais esperavam começar a transição energética para enfrentar as mudanças climáticas.

Daniel Yergin, um especialista no setor de energia e autor de “The New Map: Energy, Climate and the Clash of Nations” (“O novo mapa: energia, clima e o choque das nações”), disse que a crise energética está devastando os últimos vestígios da economia pós-Guerra Fria, abrindo uma era de nova competições entre as potências em um mundo cada vez mais fragmentadas.

— O petróleo e o gás natural se tornaram centrais no surgimento desse novo embate — afirmou.

Arma do Kremlin

O ressurgimento do petróleo e do gás — e o fato de que boa parte da oferta global vem da Rússia — tem sido a arma mais poderosa de Putin contra o Ocidente, dando a ele uma importância geopolítica bem maior do que a sua posição como a 11ª economia do mundo.

Não parecia que seria assim no começo da guerra, quando os EUA começaram a reunir aliados para punir a Rússia, levando à promessa europeia de um embargo ao petróleo. A esperança era de que, ao cortar a Rússia do mercado, o país não teria recursos para manter a ofensiva.

Ao invés disso, o preço disparou, chegando aos maiores patamares desde 2008. A renda obtida com as exportações aumentaram, e continuam a alimentar sua máquina de guerra.

Em alta: Apesar de boicote ocidental, Rússia ganha mais com petróleo hoje do que antes da guerra

Conforme a Rússia começou a perder seus mercados no Ocidente, China e Índia concordaram em comprar mais petróleo, com desconto, apesar dos pedidos iniciais dos EUA para que não o fizessem.

O governo de Joe Biden está agora tentando mais uma vez atacar as ferramentas russas. Apesar das relações frias, o presidente viaja esta semana para a Arábia Saudita, o país do Golfo Pérsico que o Ocidente quer que produza mais petróleo, de forma a reduzir o preço do barril. Também foi proposto um plano para limitar o preço do petróleo russo.

Por enquanto, a Rússia saiu vitoriosa dessa batalha com o Ocidente. Mas isso poderá ter um preço geopolítico elevado se Irã e Venezuela sentirem os impactos econômicos. Os dois países são aliados de longa data da Rússia, um dos poucos países a oferecer ajuda econômica quando o mundo lhes virou as costas.

Segredo oficial

As estatísticas relacionadas ao petróleo de Irã e Venezuela são tratadas como um segredo oficial, então é difícil dizer se estão arrecadando mesmo, ou se a perda de mercado está sendo compensada pelos preços mais altos de venda. Mas o volume de exportações iranianas está caindo, de acordo com um analista e um investidor, evitando que o país consiga colher os benefícios da alta nos preços de energia.

Os descontos oferecidos pela estatal do petróleo PDVSA para refinarias chinesas atingiram seus maiores níveis desde a invasão da Ucrânia, segundo especialistas do setor de energia do país e executivos. Um barril do principal tipo de petróleo da Venezuela, conhecido como Merey, hoje é vendido na Ásia por US$ 45 a menos do que o do tipo Brent, usado como padrão para estabelecer os preços internacionais, e que hoje é cotado a cerca de US$ 100.

Acordo selado: Reunião entre Rússia e Ucrânia dá 'passo crítico' para desbloqueio da exportação de grãos, diz ONU

Antes da guerra, o desconto era metade do que é hoje, segundo um executivo do setor petrolífero venezuelano, que pediu para não ser identificado.

Para piorar, desde o começo da guerra as empresas russas pararam de pagar à PDVSA pelo petróleo que vendem para a empresa na Ásia, eliminando uma fonte crucial de renda, afirma o executivo, que está a par do arranjo. No ano passado, o esquema rendeu a Caracas US$ 1,5 bilhão, representando um quarto de todos os ganhos estatais com petróleo.

— A Rússia sob sanções está tendo dificuldade para se mostrar um aliado confiável para a Venezuela — afirmou Risa Grais-Targow, analista de América Latina para a empresa de consultoria de risco Eurasia Group. — A relação econômica que esteve viva por algum tempo está se fragilizando.

O Irã enfrenta problemas parecidos, afirma Sara Vakhshouri, especialista em petróleo na consultoria SBV Energy International, voltada ao Oriente Médio.

Sob sanções: França pede que Irã e Venezuela voltem ao mercado de petróleo para conter preços

Ela disse que o governo chinês priorizou as importações russas em parte porque tem laços estratégicos mais próximos com seu vizinho ao norte.

Nos dois primeiros meses do ano lunar iraniano, que começou no final de março, o país arrecadou apenas 37% do projetado para o período, de acordo com os números do Centro Supremo de Auditoria do Irã.

Um negociante de petróleo, que falou em condição de anonimato, disse que a competição russa reduziu as exportações para a China em mais de um terço, em comparação com os níveis anteriores à guerra.

Ele afirmou que as vendas para a Ásia caíram para algo em torno de 700 mil barris diários, metade do previsto no orçamento anual do país.

— O Irã se encontra em uma grande desvantagem política e econômica no ambiente pós-guerra na Ucrânia — disse Alireza Haghighi, um analista político.

Apesar da crescente competição econômica, Irã e Venezuela dão demonstrações de solidariedade pública a Putin. Em frequentes encontros pessoais desde o início da guerra, integrantes do Kremlin e de Caracas e Teerã se comprometeram a intensificar os laços para superar as sanções americanas.

Paradoxalmente, os preços da energia podem mover os interesses de Irã e Venezuela em direção ao Ocidente.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos