Ao contrário de Crivella, especialistas não acreditam em 'imunidade de rebanho no Rio'; confira

Pedro Zuazo e Letícia Lopes
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Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

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Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

A afirmação do prefeito Marcelo Crivella de que o município do Rio pode ter adquirido a chamada "imunidade de rebanho" foi contestada por especialistas ouvidos pelo EXTRA. A declaração foi dada nesta terça-feira, durante o anúncio da nova fase de flexibilização, batizada de "período conservador". Ao justificar a medida, Crivella alegou que as curvas de contágio têm caído consistentemente.

— Aquela determinação do conselho científico do início da pandemia de manter abertas as atividades essenciais acabou nos dando uma imunidade de rebanho. Não há outra explicação para a consistente queda dos números — disse.

A pneumologista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz Patrícia Canto explica que não há dados disponíveis que corroborem a tese.

— No Rio, não temos um inquérito sorológico que justifique tal afirmação. Seria preciso fazer uma avaliação real de testagem da maior parte da população para constatar se já existe positividade de uma parcela significativa. Sem esses dados, não temos como avaliar se houve imunidade de rebanho. Mas não me parece que seja o caso do Rio — avalia.

O sanitarista e professor da Uerj Mario Roberto Dal Poz classifica como leviana a declaração de Crivella sobre a imunidade da população:

— A afirmação está completamente fora de esquadro. Sinto falta de uma mensagem de promoção da saúde pública clara e transparente por parte da prefeitura. Em vez disso, o que vimos é a validação de atividades que, por falta de controle, já estavam liberadas na prática.

Integrante do comitê científico da prefeitura, o médico Flávio Sá Ribeiro reconhece que não é possível comprovar a imunidade de rebanho na cidade, mas defende a posição do prefeito:

— Embora seja difícil de provar, acho que a imunidade de rebanho pode ser colocada como uma possibilidade. Sabemos que nas comunidades o distanciamento social não foi respeitado, e também não houve paralisação das indústrias e do comércio essencial. Esses fatores podem ter ajudado o Rio a adquirir a imunidade.

Para a pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcolmo, a prefeitura liberou atividade sobre as quais já havia perdido o controle de fiscalização.

— Na verdade, essas medidas são completamente artificiais, uma vez que a prefeitura jamais conseguiu ter a fiscalização adequada quando havia orientação de que as praias não fossem frequentadas. Temos visto as praias cheias, sem nenhum tipo de fiscalização. Da mesma maneira ocorre com a liberação de bares e festas que em comunidades de grande densidade jamais deixaram de ser realizadas — diz.

Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia no Rio, Tiania Vergara chama atenção para os riscos existentes na liberação das pistas de dança e o self-service nos restaurantes.

— No self-service, todos pegam com a mão nos mesmos talheres, sem a higienização adequada. E a pista de dança também é um local de risco, pois todo exercício aeróbico provoca o aumento da produção de secreções — afirma, ressaltando que pode haver aumento do número de casos: — Não teremos a segunda onda porque não tivemos nem o término da primeira, ainda. A preocupação é que o número de casos agora pode aumentar ainda mais.

Em 24 horas, o Estado do Rio registrou 15 mortes e 1.781 novos casos de coronavírus, passando a somar 313.089 infectados e 20.651 vidas perdidas desde o início da pandemia, em março. A média móvel de mortes indica tendência de queda no contágio pelo segundo dia. A capital acumula 12.148 mortes e 119.826 casos confirmados.

Após Crivella anunciar a liberação das atividades, a secretária municipal de Saúde, Beatriz Bush, informou que o Hospital de Campanha do Riocentro vai ser desativado. A desmobilização da unidade deve acontecer até o próximo mês. Segundo a prefeitura, o centro de atendimento, que tem 500 leitos (de UTI e enfermaria), está com cem vagas ocupadas.

— Hoje temos absoluta segurança ao dizer que temos leitos para todos e estamos preparados para o que quer que aconteça. Vamos, nos próximos dias, reorganizar o Hospital Ronaldo Gazolla não só para que reassuma sua função de unidade de retaguarda cirúrgica da cidade, mas para ampliar, se necessário, seus leitos de UTI — promete a secretária.

No período conservador, seguem liberadas rodas de samba em ambientes abertos ou fechados, bem como eventos nas quadras das agremiações carnavalescas, que devem disponibilizar mesas e cadeiras numeradas.

A prática diária de esportes coletivos em quadras, praias e lagoas também está autorizada. Pontos turísticos poderão receber mais pessoas, com distanciamento menor. O limite da capacidade anterior, de 50%, passa a ser de dois terços, e a distância entre os visitantes cai de quatro para três metros quadrados.

A nova fase também autoriza a volta às aulas na rede municipal, cerca de um mês após a reabertura das escolas particulares. Nas unidades da prefeitura, a retomada vai ocorrer de forma voluntária, começando pelas turmas de 9º ano. Antes disso, os diretores de cada instituição vão se reunir com pais e professores para definir se foram cumpridos os requisitos necessários para garantir a segurança de alunos e funcionários.

As reuniões devem acontecer ainda esta semana, e a volta às aulas está prevista para a próxima segunda-feira em cerca de 350 escolas, quase 26% do total da rede municipal, que contabiliza 1.540 unidades. A situação deve ser reavaliada a cada 15 dias. Nesse prazo, ainda deverão retornar ao ensino presencial as turmas de 8º ano.

— Uma das coisas que fez com que a rede não voltasse foi justamente a pesquisa com os pais. A maioria não queria. Mas hoje não tem mais justificativa para manter os alunos afastados — afirma Beatriz Bush.