Ao lado esquerdo de Cristo: quem são os evangélicos de esquerda do Brasil

(Foto: Getty Images)

Dentro de um universo aproximado de 65 milhões de brasileiros evangélicos, não surpreende a existência - e resistência - daqueles que se identificam como sendo mais progressistas — ou de esquerda — dentro do campo da política. Dos 209 milhões de brasileiros, o Datafolha estima que 31% sejam adeptos de igrejas evangélicas, segundo pesquisa divulgada nesta semana.

O número ainda é inferior ao de católicos no país - que são cerca de 50% -, mas é o segmento que mais apresenta crescimento. Outros 10% não têm religião, seguido de espíritas (3%), adeptos de umbanda, candomblé e outras religiões de matrizes afro-brasileira (2%), outras religiões (2%), ateus (1%) e judaica (0,3%).

A pesquisa também definiu que a cara típica do brasileiro evangélico é feminina e negra, já que as mulheres representam 58% desse naco religioso. O universo evangélico é também mais negro que o católico. Somados, os evangélicos que se declaram pretos ou pardos são 59%.

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As primeiras referências quando pensamos em evangélicos e suas lideranças nos remetem, entre outros, a Edir Macedo e Silas Malafaia, rostos que acostumamos a ver ao lado do atual presidente Jair Bolsonaro. E também não faltam exemplos de políticos de direita e extrema-direita que tiveram os evangélicos como uma de suas bases eleitorais mais fieis e presentes.

“O deputado federal mais votado da história do Brasil, Eduardo Bolsonaro, com quase 2 milhões de votos é evangélico, assim com a deputada federal mais votada da história, Joice Hasselmann, com 1.078.666 votos. A deputada estadual mais votada de todos os tempos - vencendo inclusive os deputados federais mais votados - é a advogada “pró-vida” (que é de família espírita e diz frequentar a igreja católica e os cultos evangélicos), Janaína Paschoal, com 2.060.786 votos. No conjunto, o voto evangélico foi decisivo na eleição presidencial de 2018”, explica o cientista social José Eustáquio Diniz Alves, em seu artigo a respeito da transição religiosa no Brasil.

Contudo, há quem faça a leitura do Evangelho por uma ótica mais progressista. Para o pastor Henrique Vieira, cientista social, historiador e teólogo ligado ao PSOL, a palavra de Jesus Cristo encontra eco na esquerda quando se trata de temas como justiça social, combate à opressão e valorização do ser humano.

“Até mesmo antes de reforçar minha identidade como alguém de esquerda, sou evangélico no sentido de alguém que crê no evangelho, em Jesus como filho de Deus, como salvador e como manifestação máxima do amor de Deus. (...) A opção pela esquerda tem a ver com a opção pela justiça social, pela superação da desigualdade social, de toda e qualquer forma de opressão, de exploração econômica, a valorização da democracia e dos direitos humanos, das liberdades e do respeito à diversidade. Isso que eu identifico como ser de esquerda”, afirma o pastor.

Pastor Henrique Vieira (Foto: Reprodução/Facebook)

O grupo Evangélicos de Esquerda, no Facebook, ostenta em sua foto de perfil os dizeres da campanha “Ele Não”, contra o então candidato Bolsonaro na campanha presidencial de 2018. Idealizador do grupo, o advogado Washington Junior define como “resistência” a presença da esquerda dentro da igreja evangélica.

“Ser evangélico de esquerda é seguir a Cristo, a Deus em primeiro lugar e também lutar por justiça social, distribuição de renda, fim das opressões das maiorias em relação as minorias. Também, nos dias atuais, é ser resistência dentro de uma maioria esmagadora de evangélicos de direita nas igrejas”, explica.

A equipe do Yahoo Notícias conversou com os ambos a respeito de temas e pautas considerados sensíveis à esquerda e que enfrentam rejeição dentro dos evangélicos, além de questionar de que forma a esquerda poderia voltar a dialogar com os adeptos dessa doutrina.

  • ABORTO

Pastor Henrique Vieira: Não se trata de defender o aborto em si, mas entender que a política que criminaliza não reduz o número de abortos e ainda coloca mulheres na clandestinidade, vulnerabilidade e morte. Portanto, a legalização do aborto é para que isso seja tratado na dimensão da assistência, do diálogo, da educação, do acolhimento e do respeito. A política atual que criminaliza simplesmente mata, e meu interesse como cristão é pela vida.

Washington Junior: Acredito que a maior discussão esteja na questão do aborto. Muitos acreditam que a mulher deva ter o direito de interromper a gestação a seu critério, enquanto outros acham que só deva ser interrompido em casos excepcionais como gestação em decorrência de estupro. Não há um consenso sobre o aborto. Nem dá para afirmar qual visão prevalece entre os evangélicos de esquerda.

  • CASAMENTO GAY

Washington Junior: Os evangélicos de esquerda têm uma visão consolidada da separação entre Igreja e Estado. Por isso, há um consenso entre alguns assuntos como a não oposição do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, em relação a outros assuntos, como a proteção de direitos humanos, a igualdade de gênero, promoção de direitos civis e sociais. Por estar em conformidade com a palavra de Cristo, não há divergência entre os evangélicos de esquerda.

Pastor Henrique Vieira: Casamento gay significa respeito à liberdade das pessoas. Vivemos em uma democracia em que o Estado é laico e, portanto, o casamento gay deve ser reconhecido em todos os seus direitos. Além disso, reconheço do ponto de vista bíblico e teológico que toda forma de amor, o amor ético, sério e leal, é uma sacralidade. Todo amor é sagrado.

  • DIÁLOGO DA ESQUERDA COM OS EVANGÉLICOS

Pastor Henrique Vieira: Eu entendo que a esquerda precisa ter um diálogo efetivo, sincero e íntegro com o campo evangélico, e não pode ser apenas por eleição ou votos. O campo evangélico é majoritariamente popular, negro, feminino. É expressão da classe trabalhadora e a esquerda, diferentemente da direita, tem compromisso com a classe trabalhadora, com a promoção da justiça social, garantia e promoção de direitos. Conversar com os evangélicos é conversar com uma parcela dessa classe trabalhadora que todos os dias levanta para buscar o pão de cada dia e lutar para sua sobrevivência. Não pode ser uma conversa fisiológica pensando apenas em um mapa eleitoral. Precisa ser uma conversa efetiva pensando em um projeto de País justo, solidário, fraterno, que celebre a diversidade e garanta a devida democracia.

Washington Junior: Esqueceram totalmente (de dialogar) e acredito que por opção política. Deixaram de ouvir e dialogar com os evangélicos, que sentiram-se abandonados e foram abraçados pela direita. Isso vem acontecendo desde 2010, e culminou com a eleição de (Marcelo) Crivela em 2016 e depois a do Bolsonaro em 2018. (...) Os evangélicos dialogavam muito com a esquerda até o final do segundo mandato do Lula. Acontecia de grandes cantores evangélicos pararem seus shows no meio para fazer campanha para o Lula e consequentemente para esquerda. Pastores de grandes igrejas falavam do Lula e do PT no meio do culto. Isso foi se perdendo. Já denunciávamos isso no primeiro governo Dilma, que a esquerda estava abandonando completamente o diálogo com os evangélicos. Talvez nosso grupo “Evangélicos de Esquerda” tenha sido um dos primeiros a denunciar isso lá em 2010

  • PREGAÇÃO DA PALAVRA PELA ÓTICA PROGRESSISTA

Washington Junior: É possível. Jesus veio para falar principalmente de salvação, amor e perdão. Claro que ele influenciou muito questões sociais e políticas, mas nunca foi sua prioridade. É possível pregar a palavra sem política partidária tanto para esquerda quanto para a direita. Inclusive muitos evangélicos de esquerda defendem isso.

Pastor Henrique Vieira: Toda pregação é situada historicamente, nunca é uma pregação neutra. Então cabe a cada líder religioso ter honestidade em assumir que sua pregação tem interferência na sociedade. Neutralidade não existe, existe hipocrisia. O que é um importante? Que a mensagem seja pregada em coerência com o Evangelho. Para além de esquerda, para além de direita. (...) O evangelho é um apelo à justiça, à igualdade, à promoção da paz. Não dá para associar o evangelho com exploração sobre o pobre, não dá pra associar o evangelho ao preconceito, intolerância, discurso de morte, exaltação de tortura, defesa de ditadura, justiçamento com as próprias mãos, arma na mão saindo por aí fazendo uma falsa justiça.