Ao lado do filho, Frejat faz show em que dá nova sonoridade a clássicos como 'Todo amor que houver nessa vida' e 'O poeta não morreu'

Banquinhos altos, como os de bar, são o adereço cênico do show “Eletro acústico”, que Roberto Frejat apresenta pela primeira vez no Rio esta quinta-feira, no Qualistage. Um espetáculo atípico em sua carreira de mais de 40 anos, iniciada com o grupo Barão Vermelho. Ao lado do filho, Rafael, de 26 anos, e do guitarrista da sua banda solo, Maurício Almeida, de 47, Frejat buscou um criativo meio-termo entre os shows de voz e violão e os com banda, que veio alternando na estrada nos últimos anos.

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— Eu acho que o banquinho e o violão são uma coisa muito tradicional da música brasileira. E como eu sou da geração do rock’n’roll, nunca fiz o show de voz e violão sentado, sempre foi em pé — diz o cantor e compositor, de 60 anos, completados em maio do ano passado. — Sei que algum dia, se eu estiver cansado, vou acabar me encostando no banquinho. Mas ele é mais um elemento cenográfico do que qualquer outra coisa.

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Quando a pandemia deu uma trégua, Frejat resolveu pôr em prática uma ideia antiga: a de aditivar seu show acústico (que privilegiava os lados B de seu repertório) com seus hits e “novas possibilidades de arranjo e de textura musical”. E logo chegou à conclusão de que a formação de trio era a ideal. O primeiro músico convocado foi aquele com quem mais conviveu na pandemia: o filho Rafael, com quem tinha feito até algumas lives durante o lockdown.

— Foi um barato preparar com o Rafael os arranjos para as lives. Fico muito preso à maneira como eu fiz a música, então para mim é um pouco difícil sair dali. Mas achei aquele negócio de live muito chato, de ficar falando para uma tela de televisão sem saber quem tá do outro lado, sem a reação da plateia — conta ele, que em seguida chamou Maurício para dar sequência ao projeto para os palcos. — O repertório é o da minha obra de 40 anos, composições minhas e tal, mas o trabalho de direção musical, de concepção musical, é deles dois. Eles é que ficaram ralando para criar essas novas possibilidades. E foi um trabalho longo, porque a gente ficou testando várias coisas.

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O processo de preparação do “Eletro acústico” levou quase um ano, já que Frejat tinha seus compromissos de shows e Maurício ainda se desdobrava como guitarrista da banda de Ney Matogrosso.

— Na verdade, demorou mais por ausência de pressa do que por excesso de preocupação com os detalhes — entrega Rafael, que tem a sua própria banda, Amarelo Manga (hoje em hiato), mas chegou a fazer alguns shows com o pai, por volta de 2014. — Num certo momento, esse trabalho começou a bater com a banda e com a faculdade. Naquela época, eu acho que era Ciências Sociais, depois mudei pra Filosofia.

No violão e na voz, e com o filho no violão e teclado, Frejat recorreu a discretos loops eletrônicos e aos talentos de multi-instrumentista de Maurício Almeida.

— Senti que se a gente quisesse botar alguma coisa um pouco mais rítmica ia faltar um baixo. Ou, de repente, se eu estivesse no violão e o Rafael no piano, ia faltar uma guitarra. E aí a gente viu muito o Maurício nessa função de poder fazer isso, ele transita muito bem nesses instrumentos — elogia.

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Para Maurício, no fim da contas, o resultado de “Eletro acústico” não ficou nem totalmente retrô, nem totalmente futurista.

— Ele tem esse contraponto, de ser uma coisa tradicional com uma sonoridade nova, ou de ter uma sonoridade mais tradicional inserida num arranjo maluco — diz.

Eletricidade no final

Sem muitas trocas de instrumentos, para não atrapalhar a dinâmica do espetáculo, o trio organizou as músicas em blocos. O show começa com três violões e a parte mais elétrica vai entrando, de forma sutil, mais para o final.

Entre as novidades que Frejat antecipa na entrevista, estão a de “O poeta está vivo” sem o clássico solo de guitarra e a de “Todo amor que houver nessa vida” com sonoridades contemporâneas. Pela primeira vez, ele canta “Poema” (parceria com Cazuza gravada por Ney Matogrosso). Frejat ainda recupera “Boomerang blues” (de Renato Russo, gravada pelo Barão Vermelho), “Meus bons amigos” e “Flores do mal”. E faz uma homenagem-surpresa ao parceiro Luiz Melodia com “Fadas”.

— Mas esse show não tinha a intenção de surpreender pela escolha do repertório, e sim pelo tratamento dado ao repertório — jura o compositor, que recentemente musicou um poema de Erasmo Carlos, “Cadê o juízo?”. — Pena que não tive tempo de mostrar ao Erasmo (o Tremendão morreu em novembro passado).