Saúde nega "apagão de dados", mas 15 estados ainda relatam problemas no sistema

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Gestão de Queiroga tem sido criticada por demora em solucionar apagão de dados relacionados à pandemia no país - Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images
Gestão de Queiroga tem sido criticada por demora em solucionar apagão de dados relacionados à pandemia no país - Foto: SERGIO LIMA/AFP via Getty Images
  • Secretário negou “apagão de dados” na pasta e garantiu que ministério acompanha a evolução da pandemia no país

  • Ministério admitiu, no entanto, que há falhas de disponibilização de informações sobre vacinação nos estados

  • Estados não têm conseguido transferir novos registros para sistemas do Ministério

Depois de anunciar que seus sistemas tinham sido plenamente restabelecidos, o Ministério da Saúde reconheceu, nesta quarta-feira, que ainda há instabilidades a serem corrigidas e que isso será feito até sexta. O secretário executivo da pasta, Rodrigo Cruz, afirmou que entre as falhas estão a disponibilização de informações de vacinação para estados e municípios. Segundo ele, o registro de dados está funcionando normalmente e o envio de informações para estados e municípios apresenta problemas pontuais. 

Levantamento feito pelo Globo, no entanto, mostra que pelo menos 15 estados ainda relatavam problemas para acessar sistemas do ministério até hoje, 48 horas após a pasta anunciar que havia restabelecido o funcionamento das suas plataformas, alvo de dois ataques hackers que as tiraram parcialmente do ar por um mês.

Desses estados, mais da metade deles afirma que a instabilidade prejudica diretamente o monitoramento da pandemia. Para se ter ideia do tamanho do problema, levando em consideração apenas São Paulo, Bahia e Acre, três estados que alimentam os bancos de dados do ministério, não conseguiram transferir cerca de 12 milhões de novos registros de imunização para os sistemas da pasta.

O Globo questionou todos os estados do país após o ministério informar, na última segunda-feira, que a integração entre os sistemas locais e a rede nacional de dados havia sido normalizada. Na terça, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, classificou como “narrativas” criadas pela imprensa notícias com relatos sobre a persistência dos problemas. 

Monitoramento

Nesta quarta, o secretário executivo negou que haja “apagão de dados” na pasta e afirmou que o ministério acompanha a evolução da pandemia no país, uma vez que tem acesso às informações desde dezembro, quando a pasta optou por priorizar a retomada dos registros para que pudesse monitorar dados sobre casos, óbitos e vacinação. O secretário admitiu, no entanto, que ainda há problemas no sistema.

Segundo Cruz, a invasão deu acesso à nuvem onde estavam hospedados os dados sobre óbitos, casos, vacinação, além de softwares da pasta, e apagou as informações. A pasta, no entanto, possui outro repositório com armazenamento das estatísticas, o que teria feito com que a pasta não perdesse os dados. No entanto, o processo de reabilitação dessas informações tem sido lento.

— Por que não considero um apagão? Porque o ministério sempre recebeu as informações. Ficamos um tempo sem receber, mas, prontamente, ou de forma prioritária, restabeleceu esse sistema para capturar esses dados — argumentou Cruz, acrescentando: — Com relação à disseminação dos dados disponibilizados para os estados, os dados do Sivep-gripe, que são dados de hospitalização, e do E-SUS notifica, que trazem informações sobre casos, já foram restabelecidos desde dezembro. Os casos de vacinação a gente vai prontamente restabelecer. A expectativa é que a gente finalize iisso na sexta feir

Entre os 19 estados que responderam a reportagem, 15 relataram dificuldades para acessar ou inserir dados em plataformas como as do programa nacional de imunizações (SI-PNI), ou do Open DataSUS, que reúne informações epidemiológicas e disponibiliza esses dados à população. As unidades da federação também reportaram falhas na integração da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS).

Ao GLOBO, o governo do estado de São Paulo afirmou que está suspensa a integração de qualquer sistema com rede nacional para envio de dados dos vacinados. “Devido a essa falha, o estado está com mais de 8,9 milhões de novos registros de vacinação e outros 22 milhões que precisam de alteração represados”. Todo precisam ser enviados ao órgão federal, informou o governo paulista.

Segundo membros do ministério, técnicos estão em contato com servidores de São Paulo para tentar solucionar a questão e, por ora, atribuem o problema a dificuldades por parte do governo estadual. A secretaria de Saúde afirmou ainda que a falta de acesso aos dados, ocasionada pela instabilidade dos sistemas tem impactado nas estatísticas.

Lacunas vacinais

Na Bahia, dados referentes à aplicação de cerca de 3 milhões de doses ainda não foram inseridos nos sistemas do ministério devido às falhas. O governo do estado relata que o problema persiste desde o dia 10 de dezembro, quando houve o ataque hacker. No Acre, que não dispõe de plataforma própria, 50 mil doses aplicadas ainda não foram lançadas. O estado diz que a instabilidade o impede de “mensurar o número de faltosos”. 

Em Rondônia, o apagão tem impossibilitado o acesso a informações sobre a vacinação. O governo estadual explicou que isso acontece porque “o sistema de informação do programa nacional de imunizações (SI-PNI) do Ministério da saúde (MS) encontra-se fora do ar”.

Há relatos de outros problemas, como a falta de atualização do banco de dados. Santa Catarina restabeleceu o acesso aos sistemas para alimentar as plataformas no dia 7 de janeiro, mas não consegue visualizar as estatísticas há mais de um mês.

O governo do estado do Pará também afirmou que a instabilidade da plataforma federal impacta não só o acompanhamento da pandemia, mas de operações de rotina no sistema de saúde. Para o estado, o problema "não permite a visualização dos avanços da campanha de vacinação, pois não é possível visualizar informações como o percentual de vacinados com esquema completo, o percentual de atraso vacinal ou ainda a quantidade de crianças vacinadas na rotina em cada município".

Vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Nésio Fernandes afirma que o Ministério da Saúde precisa modernizar seus sistemas.

— É incrível como um país como o Brasil é tão frágil no tema de organização dos bancos de dados. É inaceitável que durante dois anos de pandemia não se tenha se estruturado uma grande rede nacional integrada — avalia. 

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