Ao menos 25 operários são infectados por coronavírus em canteiro de obra em SP onde mestre adoeceu

JOÃO GABRIEL

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pelo menos 25 operários, dos 86 submetidos a testes, tiveram resultado positivo para o novo coronavírus em um canteiro de obras da construtora Lock na rua João Moura, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo). A própria empresa viabilizou os testes na terça-feira (28) após o mestre de obras ser afastado.

A construtora agora espera submeter a exame todos os seus 1.500 colaboradores e adotar um cronograma de exames quinzenais em todos os seus canteiros para seguir monitorando a situação.

Dos 25 trabalhadores que tiveram resultado positivo para Covid-19, 12 apresentaram anticorpos, o que indica que o vírus não está mais ativo e que a infecção se deu há pelo menos três semanas. Os outros 13 foram afastados.

"Implantamos sistema de monitoramento remoto, em que nossa área de Gente & Gestão faz contato com o colaborador e/ou família, semanalmente, para saber quadro de saúde, necessidades médicas e psicológicas entre outros", disse a empresa em nota.

Os testes foram supervisionados pelo Sindicato da Construção Civil de São Paulo (Sintracon), que na segunda-feira (27) havia paralisado três obras da companhia, dentre elas a da João Moura, exigindo que os trabalhadores fossem examinados após a notícia da infecção do mestre de obras.

A Lock afirma que teve conhecimento de que o operário estava com coronavírus no dia 22 de abril, que afastou os cinco funcionários próximos a ele em seguida e que os testes realizados nesta quarta já estavam programados pela construtora mesmo antes da intervenção sindical.

Os exames foram custeados pela empresa, contratados com o laboratório Biofast e são do tipo sorológico (o chamado teste rápido). Estes usam os anticorpos para identificar pessoas que já tiveram contato com o vírus e se tornaram imunes.

Por serem bem mais rápidos --entre 10 a 30 minutos já é possível obter o resultado-- e não necessitarem de laboratórios equipados, especialistas acreditam que o métido pode ser uma boa solução para testar profissionais de saúde, por exemplo, que são muito mais expostos ao vírus.

Por outro lado, há ainda uma alta taxa de falsos negativos nesses testes, uma vez que os anticorpos podem ser decorrentes de contatos prévios com outros coronavírus que já circulam na população.

Os prestadores de serviço da construção civil, em sua maioria, trabalham por demanda e precisam da renda para sustentar a família.

O setor foi enquadrado como serviço essencial em São Paulo e, por isso, não teve suas atividades paralisadas durante a quarentena. O estado planeja reabrir sua economia em maio, caso a população cumpra um nível mínimo de isolamento.

Em ofício enviado às mais de 30 mil empresas cadastradas, o Sintracon determinou medidas que devem ser cumpridas durante o período de isolamento para garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores.

Todos os trabalhadores devem ter sua temperatura medida antes de entrar na construção. Dentro dela, eles precisam ter à disposição álcool em gel e estações de higiene. Um segundo ofício determinou o uso de máscaras.

Na segunda, a reportagem conversou com trabalhadores da obra do João Moura, que ,além do mestre, também teve o encarregado de obra afastado. Eles temiam que o número de infectados fosse muito que apenas os dois casos, uma vez que a dupla era responsável por passar em todos os andares e entrar em contato com praticamente toda a equipe, cotidianamente.

Os operários afirmaram que álcool em gel e estações de higiene são encontrados apenas na entrada das obras, e não nos andares. Nos banheiros, faltam sabonete e papel. As máscaras, ainda segundo os relatos, seriam fornecidas com atraso, seriam escassas e de qualidade inferior à adequada ao ofício.

A Lock tem um comitê de contingência para combate à Covid-19 instituído em fevereiro e afirma que adota os procedimentos de segurança e higiene necessários em seus canteiros. Isso incluiria álcool em gel nas áreas comuns e distribuição gratuíta de máscaras, além de medidas para manter a distância segura entre os operários nas obras e escalonamento de horários.

Os trabalhadores da empresa têm sua temperatura medida todos os dias, antes de entrar na obra, e quem apresentar febre, é afastado.

No último sábado, o jornal Folha de S.Paulo noticiou a morte de um carpinteiro que trabalhou gripado por duas semanas em uma obra na Vila Madalena.