Ao se declarar bissexual, Richarlyson cumpre 'papel de representatividade' e 'contra estereótipos', dizem entidades

O ex-volante Richarlyson se tornou o primeiro jogador com passagens pela seleção brasileira e pela elite do futebol nacional a falar abertamente que é bissexual. Agora comentarista do Grupo Globo, o ex-atleta, de 39 anos, enfrentou ao longo da carreira preconceitos vindo de todos os lados: do gramado, das arquibancadas e da mídia — tudo isso motivado apenas por rumores sobre sua sexualidade. No mês em que é celebrado o Orgulho LGBTQIAP+ no mundo, ele dá um passo importante na luta pelos direitos da comunidade em um ambiente historicamente marcado pela homofobia.

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— Pelo tanto de pessoas que falam que é importante meu posicionamento, hoje eu resolvi falar: sou bissexual. Agora eu quero ver se realmente vai melhorar, porque é esse o meu questionamento — afirmou em entrevista ao podcast “Nos armários dos vestiários”, do ge. — Sou um mero cidadão comum, que teve uma história bacana no futebol, mas eu não vou poder mover montanhas para que acabe a homofobia no futebol.

Tricampeão brasileiro e de um Mundial de Clubes pelo São Paulo e da Libertadores pelo Atlético-MG, Richarlyson passou por episódios de preconceito, mesmo sem falar sobre sua sexualidade até então. Torcidas foram contrárias à sua contratação, chegou a ser recepcionado com bombas no Guarani-SP e vítima de comentários da imprensa — uma delas, em 2007, levou o jogador a registrar queixa-crime. O ex-atleta disse que “não vai mover montanhas”, mas a atitude é vista como fundamental contra a homofobia, não só no esporte:

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— Quando uma figura pública expõe a sua orientação sexual ou identidade de gênero na nossa sociedade, que é machista, racista e LGBTIfóbica, a grande contribuição é demonstrar para outras pessoas que elas não estão sozinhas. Isso tem um papel de representatividade incalculável — afirma Henrique Rabello, presidente da Comissão de Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/RJ, para quem é preciso construir uma consciência coletiva de respeito aos direitos dos LGBTQIAP+.

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De acordo com Jaqueline Gomes de Jesus, presidente da da Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura, Richarlyson ajuda a combater os estereótipos.

— O esporte é um lugar extremamente marcado por estereótipos de gênero. Muitas vezes, se constrói uma imagem do atleta como heterossexual, como se ele não pudesse ter uma diversidade sexual — opina.

Ao contrário do que acontece no esporte masculino, é mais comum ver atletas mulheres lésbicas e bissexuais tornando públicos seus relacionamentos. Muitas esportistas experienciam um fenômeno conhecido como “armário de vidro”. Isso acontece quando a pessoa não declara publicamente sua sexualidade, mas também não a esconde, ficando, assim, “dentro do armário”, mas em que é possível ver de fora o que acontece. Foi o caso da atacante da seleção Marta, que nunca havia afirmado sua sexualidade até anunciar nas redes sociais, em janeiro do ano passado, o noivado com uma companheira de time.

Pedidos de respeito

Nos últimos anos, atletas e ex-atletas de diversas modalidades — da judoca Rafaela Silva a Douglas Souza, do vôlei — passaram a falar abertamente sobre suas bandeiras, pedindo respeito e igualdade. O debate vem se ampliando no futebol, com inciativas de torcidas, coletivos e dos próprios clubes. Um dos que mais se posicionam é o Vasco. O time lançou ontem um novo manual de conduta, no qual recrimina atitudes discriminatórias, como cantos homofóbicos nas arquibancadas. No ano passado, o cruz-maltino autorizou os associados do clube a utilizarem o nome social na carteirinha. Foi o que fez a designer Fabris Martins, que se mostra esperançosa:

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— Claro que ainda há muita gente preconceituosa, mas grande parte dos torcedores tem orgulho dessas iniciativas. Quando você comemora um gol na arquibancada, você abraça desconhecidos, e não importa se eles são heterossexuais ou não. O futebol não pode ser excludente: pelo contrário, ele deve ser agregador — finaliza.

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