Ao som de 'É Tarde Demais', Lira celebra vitória com aliados e desafetos de Bolsonaro

GUSTAVO URIBE E RICARDO DELLA COLETTA
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A festa da vitória do novo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), reuniu em uma mansão do Lago Sul, em Brasília, aliados e críticos do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na madrugada desta terça-feira (2). O jantar teve a presença tanto de ministros, como Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fábio Faria (Comunicações), que ajudaram o líder do centrão a garantir o êxito na Câmara, como de deputados federais como Joice Hasselmann (PSL-SP) e Julian Lemos (PSL-PB), desafetos de Bolsonaro. O presidente da República chegou a avisar ao anfitrião que compareceria à comemoração, mas, ao final, faltou. Apesar da ausência, o nome de Bolsonaro foi o assunto principal nas rodas de autoridades presentes na festa. A bolsa de apostas era de em quanto tempo Bolsonaro acabará enquadrado por Lira e terá de arrefecer a postura ideológica e entregar ao bloco do centrão cargos de primeiro escalão. As previsões variavam de seis meses a um ano. Em outra roda, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, conjecturava a possibilidade de o presidente da República se filiar ao seu partido. Em conversa com deputados, relatada à Folha, ele avaliava que, caso Bolsonaro escolha outra sigla, seu candidato a vice-presidente poderá ser do PTB. A festa foi promovida em um salão amplo e aberto, à beira do Lago Paranoá, e animada por uma banda de sertanejo e pagode. O grupo tocou "É Tarde Demais", do grupo de pagode Raça Negra, e "Rita", do cantor de arrocha Tierry. Aos convidados foram servidos vinhos e uísques. E, para o jantar, além de canapés, havia um buffet com opções de salada, massa e carne. Na festa, quando não estavam comendo ou bebendo, muitos convidados usavam máscara com o símbolo da campanha. Animado, Lira passou a madrugava recebendo cumprimentos e fazendo projeções sobre seu mandato. Ele explicou que pretende aprovar o Orçamento para este ano ainda neste mês e ressaltou que pedirá ao relator, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que apresente logo seu relatório da reforma tributária. Chamado para discursar ao microfone, Lira saudou os partidos que compuseram o seu bloco e disse que fará uma Câmara dos Deputados para todos. Para a breve fala, foram convidadas todas as deputadas presentes, entre elas Joice. A ex-candidata a prefeita de São Paulo foi chamada três vezes, mas preferiu acompanhar o discurso à distância. "Eu tenho princípios. Sou anti-Bolsonaro. Não dá", disse a um dos convidados que estava ao seu lado. Após o discurso, ela abraçou Lira. Também do PSL, outro deputado federal que circulou com desenvoltura pelas rodas de convidados era Daniel Silveira (RJ). Ele ficou conhecido após quebrar uma placa em homenagem à ex-vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada a tiros em 2018. Após o discurso de Lira, foi a vez de os deputados presentes transformarem a celebração em uma espécie de karaokê. Acompanhado por Julian Lemos no baixo, o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), que é crítico da postura anti-China do governo federal, cantou sucessos como "Bijuteria", de Bruno e Marrone, e "Stand by Me", de Ben E. King. Na sequência, Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, cantou "Malandragem", um sucesso na voz de Cássia Eller. No ano passado, a ex-deputada federal chegou a ser presa sob suspeita de desvio de verba pública, mas foi solta na sequência e disse ter sido alvo de injustiça. Na lista de presentes também estavam o secretário estadual de Transportes Metropolitanos de São Paulo, Alexandre Baldy (PP), e o deputado federal Fernando Monteiro (PP-PE). Os dois eram aliados do ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM-RJ) durante a sua gestão. Lira, que era candidato de Bolsonaro, derrotou no primeiro turno o nome apoiado por Maia, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi (SP). Lira foi eleito com 302 votos. Baleia recebeu 145. Ao ver Baldy e Monteiro na festa da vitória de Lira, um aliado do líder do centrão lembrou de um ditado popular: "Rei morto, rei posto".