Ao viajar em busca do passado das estações ferroviárias, encontramos um retrato do Brasil

*Arquivo* BAURU, SP, 07.12.2020 - Estação de trem da cidade de Bauru, no interior do estado de São Paulo, de onde partia o trem da morte rumo a Corumbá (MS). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*Arquivo* BAURU, SP, 07.12.2020 - Estação de trem da cidade de Bauru, no interior do estado de São Paulo, de onde partia o trem da morte rumo a Corumbá (MS). (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao entrarmos no carro para revisitar a trajetória do Trem da Morte, nome dado ao trem de passageiros que ligava Bauru (SP) a Corumbá (MS) e que desde a década de 90 só transporta cargas, nosso foco era localizar antigas estações ferroviárias existentes no trecho e mostrar como elas estão e quais usos têm atualmente.

Sabíamos que o cenário seria crítico, com ao menos 80 estações abandonadas, fechadas, em estado avançado de deterioração ou mesmo já demolidas —o último caso atinge ao menos três dezenas delas.

Mas não imaginávamos que em nossa busca pelo passado veríamos tantos problemas que incomodam o presente.

Foram, no total, mais de 3.000 quilômetros percorridos entre a capital paulista e a boliviana Puerto Quijarro —com incursões em muitas estradas de terra atrás de elos da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil—, em que encontramos problemas ambientais, sanitários, logísticos e tecnológicos.

O mais visível dos danos é a tragédia ambiental vivida no Pantanal, que segue registrando queimadas. Não no nível das de 2020, mas ainda de forma preocupante.

Na maior planície alagável do planeta, as marcas dos estragos eram visíveis, assim como foi a prolongada seca que atingiu a parte sul-matogrossense do bioma.

Onde antes havia água, só vimos vegetação. Em Corumbá, por exemplo, uma boiada caminhava calmamente num lugar que um dia abrigou o leito de um rio.

Os tuiuiús, aves que simbolizam o Pantanal, se agrupavam para disputar o pouco de água que restava em lagoas no trecho percorrido pela Folha.

Mas a forte seca e as marcas de fogo existentes em dezenas de áreas em municípios como Miranda, Aquidauana e Corumbá não foram a única chaga pantaneira.

Cortado pela rodovia BR-262, o Pantanal sofre com a abundância de mortes de animais, como pequenas capivaras e antas, especialmente à noite. Mas também fazem parte do cenário de vítimas queixadas, tamanduás, macacos, cervos e jacarés.

Conforme a estação final do Trem da Morte em Corumbá se aproximava, mais animais mortos eram verificados. Vimos ao menos três dezenas, principalmente tamanduás, macacos-pregos e capivaras. As placas que indicam a presença de animais de hábito noturno não estavam à toa ali.

A rota também mostrou como há estradas brasileiras ruins, a própria BR-262 é um exemplo, com falhas na sinalização de solo e locais sem acostamento, e como um país que fala em tecnologia 5G na telefonia ainda precisa fazer com que ao menos o 3G funcione de forma satisfatória em seu território.

Na ponta final do Trem da Morte, quando cruzamos a fronteira que separa Corumbá de Puerto Quijarro, não encontramos nenhum tipo de controle, seja ele relacionado à imigração ou à saúde, já que a ômicron batia à porta de todos. A passagem era totalmente liberada, em ambos os sentidos.

Nas ruas da cidade boliviana, uma cena que tem se tornado cada vez mais comum no Brasil: crianças e adultos pedindo dinheiro em semáforos ou vendendo panos de prato e sacos de lixo nas esquinas, em busca de uns trocados para sobreviver.

Voltamos com a reportagem e com a certeza de que, além de o país deixar o patrimônio ferroviário se desmanchar de forma catastrófica, o retrato do Brasil de fins de 2021 indicava um país entristecido, empobrecido e em processo de deterioração.

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