Ao Vivo: 'Seria necessário mais de 320 dias se fosse feito um minuto de silêncio para cada vítima da Covid no Brasil', diz médica vetada no Ministério da Saúde à CPI; acompanhe

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BRASÍLIA - A CPI da Covid ouve nesta quarta-feira a médica Luana Araújo, que ficou menos de duas semanas no cargo de secretária de Enfrentamento à Covid-19 no Ministério da Saúde. Em sua fala inicial, Luana disse que seriam necessários mais de 320 dias caso fosse feito um minuto de silêncio para cada vítima da Covid-19 no Brail. Ela afirmou que, ao aceitar o convite para o cargo, pediu autonomia para agir de acordo com critérios técnicos e científicos, o que foi garantido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

— Aliás, mais de 320 dias. Esse seria o tempo em que teríamos que ficar quietos para respeitar um minuto de silêncio para cada uma das mais de 460 mil mortes de Covid-19 no Brasil. Essa é a razão pela qual estou aqui hoje. Para mim, isso é intolerável e toda pessoa deve fazer o que estiver a seu alcance para evitar essa hecatombe — disse Luana, que declarou depois: — Ciência não tem lado. Ciência é bem ou mal feita. É ferramenta de conhecimento para servir a população, prezando a vida e a qualidade de vida.

Luana afirmou ainda, em sua fala inicial, que a pandemia do novo coronavírus é uma crise de confiança:

— A Covid-19 é uma doença ardilosa, mas a pandemia é uma crise e, acima de tudo, uma crise de confiança. Pelos nosso erros todos perdemos a confiança do povo. É imperativo que deixemos o que não presta de lado — disse a médica, criticando "a luta de um contra os outros"

Crítica do tratamento precoce, ela foi indicada pelo ministro para ser secretária de Enfrentamento à Covid-19. Dias depois, quando a nomeação dela sequer tinha saído, ela deixou o ministério. Em audiência na Câmara, Queiroga deu a entender que houve veto do presidente Jair Bolsonaro.

Luana disse que, apesar de não ter sido nomeada, trabalhou como se tivesse sido, sem ter recebido nada por isso. Afirmou que, nesse tempo, viu que havia falha no programa de testagem e rastreamento de pessoas que tiveram contato com quem teve o coronavírus. Ela disse que teve um contato muito rápido com a equipe, mas elogiou Queiroga.

— Meu diagnóstico [do Ministério da Saúde] é condizente com o convite. Encontrei um ministro competente, capaz, proativo. Alguns dias recebi mensagens dele às quatro e meia da manhã. O que eu vi foi um ministro comprometido, com uma equipe próxima dele também comprometido — disse Luana.

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Ela também afirmou que o ambiente político no país hoje é tal que muitas pessoas que poderiam ajudar no combate à pandemia no Ministério da Saúde não têm interesse em fazer isso.

O ministro, que assumiu o cargo no fim de março, se esforça para chamar atenção ao que está sendo feito daqui para frente, mas a demissão de Luana poderá dar à oposição a oportunidade de mostrar que as coisas não mudaram tanto, e que Bolsonaro continua interferindo no ministério.

A médica, que comparou a hidroxicloroquina a um "neocuranderismo", como mostrou O GLOBO, deixou o cargo no Ministério da Saúde dez dias depois de ser anunciada. A saída, que não foi justificada pela pasta ou pela própria infectologista, teria sido motivada por pressões do governo no enfrentamento à pandemia, que não teriam sido aceitas por ela.

Os requerimentos de convocação aprovados pela comissão foram apresentados pelos senadores Humberto Costa (PT-PE) e Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

— É uma pessoa qualificada, que tem condições técnicas para exercer qualquer função pública. Ela não chegou a ser nomeada. Nós encaminhamos para a instância do governo. Vivemos num regime presidencialista. Eu fui indicado por quem? Por quem de direito, o presidente a República. É necessário que exista validação técnica e validação política para todos os cargos — disse Queiroga no fim de maio.

Inicialmente, estava prevista nesta quarta-feira uma audiência com médicos para debater a cloroquina, mas o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), justificando que uma CPI é dinâmica, mudou o depoimento.

No início da sessão, o senador Izalci Lucas ( PSDB-DF) questionou sobre o depoimento de governadores na CPI. O presidente do colegiado, Osmar Aziz( PSB-AM), afirmou que nada mudou e que o primeiro depoimento, do governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), que é alvo hoje de uma operação da PF, está confirmado para o próximo dia 29.

— Até agora não teve nenhuma decisão que possa ter mudado (os depoimentos), se tiver alguma decisão contrária a gente discute. Não podemos colocar a carroça na frente dos bois — disse Aziz.

Senadores alinhados ao governo, como Marcos Rogério (DEM-RO) e Marcos do Val (Podemos-ES) reclamaram da forma como a médica Nise Yamaguchi, defensora do tratamento precoce, foi tratada na CPI nesta terça-feira, em especial por Otto Alencar (PSD-BA), que é médico. Ele faz várias perguntas técnicas e foi ríspido diante de resposta que considerou insatisfatórias.

— Ela foi linchada ontem. Eu fico muito triste, a forma como Otto fez. Eu fiquei envergonhado — disse Marcos do Val. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), saiu em defesa de Otto:— O senador Otto é médico e a questionou tecnicamente.

Após o senador Marcos Rogério (DEM-RO) também reclamar do depoimento de ontem, o senador Humberto Costa (PT-PE) criticou a postura do colega e citou o caso do presidente Jair Bolsonaro (Sem partido) que chamou a jornalista e apresentadora da CNN Brasil Daniela Lima de “quadrúpede”.

— Isso pode? Isso é urbano, não é? A mim já me chamou de cavalo, que se eu caísse no campo ia comer grama, não levantar mais. É uma pessoa que não tem a liturgia, do cargo, condição de exercer essa função. Então senador, faça o favor de avisar a ele também que se aja de forma diferente, que seja educado, que esteja à altura de presidente, que tenha compostura — disse Humberto.

Os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Eliziane Gama (Cidadania-MA) concordaram.