Aos 100 anos e produzindo há 80, Judith Lauand ganha no Masp a maior mostra de sua carreira

Com oito décadas de produção constante e inovadora, Judith Lauand tem, no ano em que chegou ao centenário, a maior retrospectiva de sua longeva trajetória, a partir de hoje e até abril no Museu de Arte de São Paulo (Masp). São 124 obras e dezenas de objetos de seu arquivo pessoal, com destaque para os diários, em um imenso relicário agora dividido com o público em cores, traços e formas. Filha de imigrantes libaneses, criada no interior paulista, única mulher do mítico Grupo Ruptura, pioneira da arte concreta no Brasil, a artista repetia, com a precisão habitual, a quem quisesse ouvir e ver: “De manhã, desenho; de tarde, pinto.”

Nem sempre, no entanto, se ouviu e viu Judith como a artista merecia. Um dos curadores de “Judith Lauand — Desvio concreto”, Fernando Oliva a considera, não por acaso, “figura fundamental da arte brasileira”. E responde de imediato que a única razão para ela não ter sido saudada como seus pares mais famosos foi o fato de não ter nascido homem. Seu gigantismo estético, diz, é inegável:

— Já nas primeiras produções figurativas é possível perceber que Judith fugia das repetições estilísticas. O mesmo se vê no concretismo, a partir dos anos 1950: ela era avessa a dogmas. Criou um mundo único, repleto de ritmo, movimento, tensões e rupturas, que se renova novamente nos anos 1960, com uma faceta pop, usando materiais industriais e tratando de temas políticos, e, inclusive, de questões caras à liberdade da mulher — diz.

Um dos destaques da exposição, organizada de forma não cronológica em seis núcleos centrais, é “Acervo 29: concreto 33”, de 1956, que acaba de ser doado pela família ao acervo do Masp e ilustra a mais consequente das transições da artista, quando abraça o abstracionismo geométrico. No mesmo ano e no seguinte, participa da histórica “1ª Exposição Nacional de Arte Concreta”, em São Paulo e no Rio. O título da exposição entrega um dos trunfos da curadoria: mostra como a artista (“de uma maneira que a academia negligenciou”) imprimiu relações singulares entre formas, linhas e cores até o fim da vida. Sua assinatura é forte, como se vê em um dos últimos módulos, dedicado a estudos de cores a partir de formas quadrangulares.

Inquieta, Judith explorou nos anos 1960 os diálogos entre a imagem e a palavra e os objetos e a superfície, com o uso de grampos, clipes e tachinhas, no que batizou de quadros “polimatéricos”. Depois, retorna à figuração, em faceta menos conhecida de seu trabalho, para tratar de temas políticos, como a repressão durante a ditadura militar, a guerra do Vietnã e os limites — inclusive na sexualidade — impostos às mulheres ao longo do século XX.

Sem incentivo

Elissa Khoury Daher conta que a saúde de sua tia-avó, que chegou ao centenário em maio, está muito frágil. Há dez anos, Judith Lauand interrompeu a labuta diária em seu ateliê na Zona Oeste de São Paulo, onde o colega Gui Mohallem a clicou, em 2011. A artista encarou seu público pela última vez há sete anos, por conta da exposição “Judith Lauand: os anos 50 e a construção da geometria”, no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), com curadoria de Celso Fioravante, grande entusiasta de sua obra.

Elissa, que é procuradora e representante legal da obra da tia, lembra que Judith jamais teve incentivo dos pais ou de algum parente para viver sua vocação. E que trocou um noivado para estudar na Escola de Belas Artes de Araraquara, antes de se mudar para São Paulo.

— Quando falava dos colegas que tiveram mais projeção, Judith dizia que sucesso dava trabalho, que preferia seguir desenhando e pintando mesmo— conta a sobrinha. — Ela tem momentos de lucidez e sabe da exposição. Adoraria levá-la ao Masp, mas não acredito que será possível. É muito bonito ela ter de fato o reconhecimento que merece, o coroamento de uma vida inteira dedicada à arte.