Aos 80 anos, Neusa Borges festeja papel carnavalesco em ‘Encantado’s’ e fase produtiva: ‘Nunca trabalhei tanto como agora’

“Se eu estivesse encerrando a minha carreira agora, diria pra você que estou fechando com chave de ouro”, afirma uma animada Neusa Borges ao telefone, falando sobre seu papel em “Encantado’s”, série que estreia nesta sexta-feira (18) no Globoplay. Na história, os irmãos Olímpia (Vilma Melo) e Eraldo (Luis Miranda) precisam lidar com a morte do pai e assumir a gerência de um local que funciona como supermercado durante o dia e, à noite, vira a escola de samba Joia do Encantado. Coube a Neusa o papel de Tia Ambrosia, senhora carismática que trabalha como fiscal de caixa no comércio e integra a ala das compositoras da agremiação. Fofoqueira, mãe de santo e rezadeira da região, ela também é reverenciada como sábia, uma voz a ser ouvida. Assim como a atriz, que neste 2022 completou 80 anos de vida e 65 de carreira, sendo meio século na TV. Confira a seguir reflexões que ela faz sobre essa trajetória produtiva: “Nunca trabalhei tanto como agora’’.

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Encantada com ‘Encantado’s’

“Adorei quando fui convidada. Amo carnaval! E o elenco é todo de jovens animados, cantores e bailarinos, um melhor do que o outro. É contagiante, me rejuvenesce”.

Velhice

“Ficar velho é normal, mas pesa. Com 80 anos, não dá pra ter o vigor dos 30 ou dos 50. Mas não posso ser criança a vida toda, não sou Michael Jackson!”.

Desempregada, não!

“Se disserem de novo que estou desempregada e passando fome, eu processo. Sou aposentada, tenho uma pensão, um belíssimo apartamento em Salvador... Só teve uma vez em que eu fiquei sem trabalho por uns quatro ou cinco anos, sem dinheiro pra comprar remédio. Mas nunca estive na miséria. Não vendi meu brechó em Salvador por necessidade, como divulgaram. Eu doei de todo o meu coração. Pra mim não faz falta, nunca trabalhei tanto como agora. Só neste ano, gravei três séries e seis filmes”.

Entre Rio e Salvador

“Há 40 anos eu moro em Salvador e passo temporadas no Rio. Nasci em Florianópolis, mas minha alma não é catarinense. Na minha terra, eu conheci o racismo. Minha vida lá não foi legal. Hoje, pouso onde quero, gosto e me sinto bem. Agora, por exemplo, estou na Avenida Atlântica (em Copacabana). Gosto de abrir a minha janela e ver o mar”.

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Sem glamour

“Eu vou ao mercado, à farmácia, à gafieira... Meu mundo não é de glamour. Minha vida é normal, de Neusa Maria da Silva Borges. Eu me dou bem com todo mundo da classe artística, mas meus amigos não são artistas. Sou muito pé no chão. Aonde eu vou, é um monte de gente me pedindo foto e vídeo. Eu atendo todo mundo com carinho, não tenho frescura. Cheguei no México e não acreditei que era tão famosa... E em Cuba? Meu Deus!”.

Mulher de fé

“Com 8 anos,eu me magoei na minha Primeira Comunhão, na Igreja Católica, me senti humilhada perante as outras meninas brancas. Aí, comecei a frequentar um centro kardecista e me senti bem. Acredito na reencarnação, numa nova existência. E sou ecumênica. Pra mim, Deus está em todos os lugares. Sempre levei uma pessoa evangélica para benzer as casas em que morei”.

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Negritude

“Dia da Consciência Negra tem que ser todo dia. Hoje, o negro está na moda, mas, pra coisa mudar, quanta luta foi e é! Sou negra com muito orgulho! Amo a minha cor! Não sou mulata, não sou morena, não sou marrom bombom, não sou camaleoa, tenho uma só cor”.

Carnaval

“Por causa do acidente no carro alegórico (em 2003, no desfile da Unidos da Tijuca), eu saí do aluguel (ela comprou um apartamento com a indenização). Não ficou nenhum trauma, minha paixão pelo carnaval permanece. E o da Bahia, então, com camarote cheio de comida, bebida e homem bonito... É uma das três datas importantes do ano pra mim, ao lado do meu aniversário (8 de março) e do réveillon. Só não sou muito chegada a Natal, me dá uma melancolia. Fecho a janela, ligo a TV e fico assistindo à Missa do Galo chorando, não sei por quê. No dia seguinte, faço aquele almoço”.

Gloria Perez

“Faz tempo que ela não me convida pra fazer novela. Mas eu amo a Gloria, ela é a glória da minha vida. Tenho imensa gratidão por ela, Jayme Monjardim e Marcos Schechtman. Acho bonito darem oportunidade para quem está vindo. Não quero ficar pra semente. Quero viver a vida, não quero morrer trabalhando, não”.

Morte

“Doença só serve pra eu brigar com o médico. Ele me acha muito teimosa. Se não me dão alta no hospital, eu fujo. Tive dois AVCs, agora estou com marca-passo. Mas vivo e não me preocupo com bobagem. Vou deixar de tomar a minha cervejinha gelada preocupada com a morte? Eu não!”.

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111 mil seguidores

“Te juro, não sei mexer em celular. Meu sobrinho é que cuida de tudo pra mim, me mostra os comentários. Não tenho esse vício de levar aparelho pra mesa e pra privada”.

Nove casamentos

“Atualmente, não tem namoro, é só prestação de serviço (risos). Com 80 anos, a gente não faz todo dia. Mas uma vez ou outra... Não estou morta, né?! Eu me casei nove vezes, mas nunca fui fiel. Gosto da paixão. Passou a sensação, busco o êxtase em outro lugar. É melhor separar e virar amigo. Não quero mais cueca na minha casa. Já passei dessa fase, chega!”.

Referência

“As novas atrizes negras sabem que elas só chegaram lá porque existimos eu, Ruth de Souza, Léa Garcia e Zezé Motta para brigar por esse espaço. Não me sinto uma estrela. Diva é o cacete! Sou, sim, uma grande profissional. Mereço que gostem do meu trabalho, me sinto maravilhosa. Digo: ‘Obrigada, meu Deus, missão cumprida’. Não vim pra ser descartada, vim pra ficar. Reclamam que só dão papel de empregada e escravo para negro. Pois eu ganhei prêmio com papéis assim. Enquanto eu viver, vou brilhar”.

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