Aos 90 anos, Paolo Taviani lança primeiro longa sem o irmão: ‘Ausência de Vittorio será sentida por todo o filme’

Desde a morte de Vittorio Taviani, em 2018, aos 88 anos, uma pergunta assombrava o meio cinematográfico: conseguiria Paolo, seu irmão mais novo, com quem dividira a autoria de mais de 20 filmes, dar continuidade à obra construída pela dupla ao longo das últimas seis décadas? A resposta começa a ganhar forma com “Leonora, adeus”, primeira direção solo de Paolo, 90 anos, desde a partida do parceiro, que ganha première de luxo na nona edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano, em cartaz no Rio e em outras 18 cidades brasileiras a partir desta quinta-feira (e que vai até 10 de agosto).

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Exibido na competição do Festival de Berlim deste ano, em fevereiro, o filme concretiza o antigo desejo dos Taviani: recontar o longo e tortuoso périplo das cinzas de Luigi Pirandello de um cemitério em Roma até o seu destino final, em Agrigento, na Sicília, terra natal do dramaturgo, 15 anos depois de sua morte e cremação, em 1936. Rodado em preto e branco, “Leonora, adeus” fecha com as cores de uma adaptação de “O prego”, o último conto do Prêmio Nobel de Literatura de 1934, escrito 20 dias antes de sua morte. O filme abre com uma dedicatória ao irmão, Vittorio.

— Desta vez, Vittorio não esteve lá comigo. É difícil substituí-lo. Mas eu tinha pessoas à minha volta me ajudando, me confortando, ao longo do processo. Faz parte do jogo do cinema — admitiu o realizador, coautor de títulos que refletiram o clima político italiano e europeu das últimas décadas, como “Pai patrão” (1977), “Kaos” (1984), “Afinidades eletivas” (1996) e “César deve morrer” (2012).

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O senhor completará 91 anos em novembro. Onde encontra energia para continuar filmando, particularmente em um contexto de uma pandemia?

Olha, filmamos “O prego”, a última parte do filme, no meio da primeira onda de Covid. Ocupamos o terreno onde costumava ficar a piscina que (Federico) Fellini usou em seus filmes, nos estúdios Cinecittà, em Roma. Tudo deserto, por causa do vírus. Fazia 37 graus naquele dia, o que fez tudo ficar mais difícil ainda. A equipe estava temerosa. Mas, ao mesmo tempo, todos estavam animados por voltar a trabalhar. O que quero dizer é que o set de filmagem é o meu elemento natural. Quando estou nele, eu sofro, eu fico feliz, como na vida. O cinema é minha vida, junto com meus filhos, minha família. É o lugar onde eu posso ser quem eu realmente sou, onde recarrego minhas energias. Estou velho, então preciso de um novo filme. Estou brincando, porque não sei quando irei fazer outro filme.

“Leonora, adeus” é dedicado a seu irmão. Podemos dizer que é um filme sobre Pirandello, mas também sobre Vittorio?

A ausência de Vittorio será sentida por todo o filme, não preciso dizer isso. Porque nós conversamos muito sobre esse projeto ao longo dos anos. Tudo está interligado. Por um lado, temos a jornada absurda das cinzas de Pirandello, um de nossos maiores artistas, essa situação grotesca. Por outro, temos a adaptação de “O prego”, o conto escrito 20 dias antes de sua morte. É o único texto de Pirandello que não oferece uma resposta no final. Aqui não há nada: não sabemos o motivo da briga tão violenta entre as duas meninas, ou o porquê de o garoto matar uma delas. É um absurdo similar ao momento que vivemos hoje. Queria descrever essas histórias porque são muito parecidas com nossa realidade surreal. É como filmar numa Cinecittà deserta.

Desde quando vocês pensavam nesse projeto?

Décadas atrás, encontrei uma entrevista que eu e o Vittorio demos à época do lançamento de “Kaos” (1984), adaptação de contos de Pirandello, em Paris, na qual falávamos sobre a jornada das cinzas e o funeral do dramaturgo. Achávamos aquela história surreal, poderia ter sido escrita pelo próprio Pirandello. Conversamos com nosso produtor sobre transformar aquele caso em filme. Ele achou ótimo, mas disse que não tinha dinheiro. Ao longo dos anos, muitos roteiristas italianos escreveram sobre o episódio, de diferentes formas. Só agora, na pandemia, encontrei minhas anotações sobre o projeto e achei que era o momento.

É verdade que vocês queriam adaptar “O prego” como longa?

Sim. Chegamos a escrever um roteiro muitos anos atrás, pensando em usar os cenários de “Era uma vez na América” (1984), que Sergio Leoni rodou em Cinecittá. Mas nos disseram que o material cenográfico havia sido destruído. Se quiséssemos fazer “O prego”, que é ambientado no Brooklyn, teríamos que lançar mão de tecnologia digital. Na época, era inviável. Hoje, o digital é um instrumento poderoso nas mãos dos realizadores. Eu mesmo poderia usá-lo para fazer uma série inspirada em “O corsário negro”, de Emílio Salgari, um livro ao qual fui muito ligado quando criança. Em “Leonora, adeus”, vemos o menino lendo alguns trechos dele em voz alta.

Em “Leonora, adeus”, o senhor usa trechos de filmes neorrealistas para contextualizar a dura realidade italiana da época.

Estamos falando dos dez anos em que as cinzas de Pirandello estiveram em um cemitério de Roma, antes de finalmente serem levadas para Agrigento. São anos entre o pré e o pós-Segunda Guerra, um período disruptivo para a Itália. Os vídeos e registros que encontrei não davam conta da realidade daquele tempo. Então me voltei para a produção dos neorrealistas, filmes de Visconti, Rossellini, cineastas que adorava na juventude. Eles foram capazes de traduzir a verdade daqueles anos terríveis, mais do que registros documentais.

O filme abre e termina como uma peça de teatro. Mais uma deferência a Pirandello?

Na verdade, tanto a história da viagem das cinzas quanto a adaptação de “O prego”, ao final, são narrativas cinematográficas. Não havia pensado em teatro. Mas o aspecto surreal de ambos os segmentos são bastante teatrais. Daí a razão de, no início, as cortinas se abrindo e as luzes se apagando e, no final, os aplausos em um palco. “Leonora, adeus” foi concebido como um filme, mas acabei incluindo elementos teatrais por causa da conexão de Pirandello com a dramaturgia.

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