Após 1 ano, Evo Morales cruza a fronteira e retorna à Bolívia

SYLVIA COLOMBO
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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - O ex-presidente Evo Morales cruzou a ponte que liga a Argentina à Bolívia, em La Quiaca, na manhã desta segunda-feira (9), e retornou ao seu país quase um ano após renunciar ao cargo. Evo caminhou pela ponte ao lado do presidente argentino, Alberto Fernández, que concedeu refúgio ao líder indígena nos últimos 11 meses --ele também passou um período no México e fez uma viagem rápida recentemente à Venezuela. Do lado boliviano, em Villazón, uma multidão o recebeu com euforia. Muitas pessoas carregavam bandeiras da Bolívia e a "wiphala", símbolo dos povos indígenas do altiplano. Pouco antes, Evo e Fernández fizeram breves discursos de despedida. "O irmão Alberto salvou a minha vida", disse o ex-presidente boliviano. Afirmou também que "sabia que ia voltar à Bolívia", mas não imaginava que fosse "tão cedo", e celebrou, outra vez, a posse do novo presidente, seu afilhado político Luis Arce. Evo disse não ter se sentido sozinho na Argentina e agradeceu à militância, que, durante o período exilado, enviou alimentos e outros suprimentos. "Só vou sentir falta da carne", afirmou, rindo. Fernández, por sua vez, disse que Evo foi alvo de "uma grande injustiça" e que o boliviano era um exemplo. "Por ter feito um governo para todos, em que foi possível redistribuir as riquezas do país e diminuir a pobreza", afirmou o líder argentino. "Por isso, incomodou alguns, que não podiam suportar a ideia de ter um presidente boliviano que se parecia com o povo boliviano." Também cruzaram a fronteira o ex-vice-presidente da Bolívia Álvaro García Linera, além de assessores e militantes que acompanhavam Evo na Argentina. García Linera, porém, participou do ato apenas de modo simbólico --o político fixou residência em Buenos Aires e continuará no país, dando aulas em duas universidades. Na Bolívia, Evo inicia agora uma jornada que passará por várias localidades, onde estão preparadas festas de recepção. Com mais de 800 carros, a caravana chegará a Chimoré, no departamento de Cochabamba, onde, diz o ex-presidente, pretende morar. O indígena atuou na região como sindicalista por muitos anos e vem afirmando que vai se dedicar à agricultura e à formação de jovens líderes. Também afastou a possibilidade de se envolver com política --Luis Arce, inclusive, afirmou que o padrinho não terá cargos no governo. O novo presidente tomou posse no último domingo (8), em uma cerimônia na qual fez um discurso crítico à gestão da antecessora, Jeanine Áñez --que não foi ao evento; ele recebeu a faixa de seu vice, David Choquehuanca. "Nossa economia está no meio de uma recessão profunda, nosso país passou de líder no crescimento econômico da região a uma das maiores quedas. O governo 'de facto' colocou a culpa toda na pandemia, mas isso não é correto. Há alternativas para reativar a economia, e vamos tomá-las", afirmou Arce. Compareceram à cerimônia os presidentes de Colômbia (Iván Duque), Argentina (Alberto Fernández) e Paraguai (Mario Abdo Benítez), além do vice-premiê espanhol, Pablo Iglesias, e o rei Felipe 6º, também da Espanha. Depois de renunciar após 13 anos na Presidência, pressionado pelas Forças Armadas e manifestações populares, Evo passou um mês no México e quase 11 meses na Argentina, onde viveu primeiro no bairro de Colegiales, em Buenos Aires, e depois em Liniers e Martínez, na Província de Buenos Aires.