Após 1º encontro, Ludhmila disse estar pronta para se alinhar 100% com Bolsonaro

CAMILA MATTOSO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Antes de declarar publicamente que diferenças técnicas colocaram ponto final na possibilidade de se tornar ministra da Saúde, a médica Ludhmila Hajjar escreveu um texto ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dizendo estar "pronta" para estar "alinhada 100%" com ele. Na mensagem, da noite de domingo (14), a cardiologista se defendia de um áudio que circulava e minimizava temas caros ao bolsonarismo, como a resistência ao lockdown e a defesa do uso de cloroquina. O recado sugeria que, apesar de pensamentos diferentes, estava disposta a ser leal ao presidente. E que poderia ser demitida caso não cumprisse sua palavra. A amigos, ela disse que a incumbência de assumir a pasta e de ajudar o Brasil a sair do colapso era muito grande e que seria possível fazer isso driblando enfrentamentos. A cardiologista argumentava que não haveria conflitos porque sua bandeira principal seria a da vacinação em massa, discurso que o presidente até passou a admitir nos últimos dias —um ano após o começo da crise. Ludhmila se encontrou com Bolsonaro na tarde do domingo, por volta das 14h. Na reunião, entre outros assuntos, eles falaram sobre um áudio que circulava com uma voz feminina chamando o presidente de psicopata. A voz foi atribuída à médica. Orientada a falar a verdade sobre o episódio, ela negou no Palácio do Alvorada que fosse a autora da declaração. À reportagem, no domingo, disse: “Fizeram montagem, não tenho esse vocabulário, não falaria isso nunca de homem nenhum”. Depois que saiu da reunião, que tinha sido inconclusiva, já de noite, Bolsonaro avisou a colegas da médica que sua suposta "inteligência", seus assistentes, tinham analisado e concluído que o áudio seria, sim, de Ludhmila, o que abalava a confiança nela, dando a entender que a nomeação seria inviável. Não era ainda uma decisão tomada. Além do áudio, a repercussão entre eleitores já era muito ruim a essa altura. Bolsonaro admitia a aliados que a pressão da base estava muito grande e que estava tomando muita pancada. Além de diferenças abissais nas questões médicas, uma live da cardiologista com Dilma Rousseff (PT) também fora resgatada nas redes sociais. Na ocasião, ela chama a petista de “presidenta”. Nesta terça (16), um vídeo dela cantando uma música da Marisa Monte, Amor I Love You, para a ex-presidente viralizou. Ludhmila passou a ser alvo de bolsonaristas, que criticavam também seus posicionamentos no combate à pandemia. Os ataques também a vincularam ao PT —ela nega ter relação com qualquer partido. Ela tratou, por exemplo, Eduardo Pazuello quando ele estava com Covid-19, entre diversos pacientes, de esquerda e de direita. Políticos e autoridades tentaram agir. Eles tentavam convencer o chefe do Executivo de que ela era o melhor nome para a função. Enquanto isso, parlamentares bolsonaristas silenciavam. Ela contava com o apoio de vários políticos, como Fábio Faria, ministro das Comunicações, e Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados. Na segunda-feira (15), a cardiologista teve nova reunião com Bolsonaro. Seria às 9h, mas foi remarcada para mais tarde. Segundo auxiliares, houve mobilização para que a imagem da médica não saísse prejudicada pelo episódio. Alguns amigos passaram então a aconselhar que ela desistisse da ideia. O jornal Folha de S.Paulo informou antes da reunião, pela manhã, que Ludhmila não seria ministra da Saúde. Segundo a reportagem, ela fez movimentos nas duas direções: seguiu dizendo a integrantes do governo que deixava aberta ainda a possibilidade de aceitar um futuro convite e, de outro lado, avisava a amigos que estava com a decisão tomada, de que recusaria. Por volta do meio-dia, a médica deu entrevista ao vivo para a CNN. Ao responder sobre o que deu errado, ela citou "falta de linhas de convergência". "Acho que o presidente ficou muito preocupado de a minha gestão não agradar alguns grupos ao mesmo tempo de eu sofrer muitos ataques de outros por, realmente, pensar um pouco diferente de algumas linhas", disse. Para governistas, o áudio foi determinante para atrapalhar Ludhmila. Eles minimizam os posicionamentos diferentes. Em entrevista à GloboNews, ela disse que o debate sobre medicamentos é coisa do passado, que a ciência já deu resposta. Também repetiu que não havia convergência técnica. A médica declarou nas TVs que foi alvo de ameaças e que teriam tentado invadir o local em que estava hospedada em Brasília. O hotel negou. A reportagem tentou falar com Ludhmila diversas vezes nesta segunda e nesta terça (16), mas não teve resposta. Foi informado a ela por mensagens o assunto da reportagem, igualmente sem resposta.