Após 5 dias 'no limbo', arteterapeuta supera o novo coronavírus

CLAUDINEI QUEIROZ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O temor do novo coronavírus chegou antes para a arteterapeuta Giuliana Dodi, 55 anos. De família italiana, da cidade de Piacenza, ela sofreu com as notícias de mortes de conhecidos quando o país europeu era o epicentro da pandemia, muito antes de o primeiro caso ser confirmado no Brasil.

"Duas semanas antes de fechar aqui no Brasil, na cidade do meu pai já estava morrendo 400 pessoas por dia, as igrejas estavam fechadas com caixões, porque as funerárias não estavam dando conta de enterrar. Tínhamos muita informação de amigos, de vizinhos, de conhecidos que tinham morrido ou estavam internados. A gente estava vendo que a coisa era muito feia e ficava imaginando como seria aqui. Então, logo no início de março nós já entramos em isolamento", diz Giuliana, que mora em Jundiaí (a 57km de São Paulo) com o marido, Luiz, 57, e as filhas Marina, 29, e Maria Júlia, 27.

A partir daquele momento, no início de março, ela afirma que não saiu mais de casa, assim como as filhas. "Eu não saía com medo de ser o vetor de transmissão. Eu não tinha medo de pegar a Covid e de morrer, tinha medo de transmitir para pessoas que depois iam estar em situação mais frágil, como idosos. Eu trabalho com idosos. A gente tem consciência."

O marido, então, passou a ser o responsável pelas compras, mas seguia um ritual de segurança toda vez que chegava em casa, higienizando-se na garagem antes de entrar. E as sacolas e produtos também eram borrifados com álcool. Mesmo assim, o vírus conseguiu entrar.

Certo dia, Luiz teve diarreia e febre, que duraram apenas um dia. "E como ele sempre tem essas febrinhas que vêm, fazem transpirar muito e passam, ninguém pensava que estivesse com a Covid."

Uma semana depois, no dia 4 de maio, foi Giuliana que começou a sentir uma forte dor de uma fascite plantar (inflamação na sola do pé). Dois dias depois, começou a ter febre, que perdurou por mais três dias, o que ligou o sinal de alerta e ela resolveu procurar ajuda médica.

"Liguei no meu convênio e me mandaram para um hospital em São Paulo que tinha o teste no meu plano de saúde, o que não existia em Jundiaí. Estava com febre, cansaço muito forte e uma dor no corpo muito ruim, muito além do normal", conta.

No hospital, o médico falou que era coronavírus, pediu que ela já se afastasse da família e receitou o antibiótico azitromicina e o vermífugo Annita. O resultado do teste, positivo, saiu na segunda-feira (11/5) e, no dia seguinte, o médico já a mandou tomar cloroquina. Foram dez dias de antibióticos e uma semana da cloroquina, mas a boa notícia é que não houve necessidade de ser internada.

"Fiquei uns cinco dias no limbo. Dormia 20 horas por dia, não conseguia comer. Não afetou o meu sistema respiratório. Foi mais o estômago, com muita náusea e dor. Não conseguia fazer nada e tive sonhos muito ruins", conta a arteterapeuta, afirmando não se lembrar de quase nada desse período. "Agora não tenho muito claro de como eu realmente estava. Meu marido me falou que um dia eu fiquei super grossa, super brava, e eu não lembro de nada."

Quando Giuliana fez o teste, Luiz também resolveu fazer e teve resultado inconclusivo, o que o deixou mais tranquilo. Mas depois ele teve a confirmação de que também havia sido contaminado.

"Depois que eu terminei meu tratamento, ele refez o teste e deu reagente. Ele e minha filha mais velha, Marina, deram reagente e minha filha do meio, que mais ficou perto de mim para levar comida, não deu. Não teve sintoma nenhum."

Após finalizar a medicação, ela afirma ter ficado 15 dias ainda mal, precisando tomar remédio para dormir e não conseguindo fazer atividades normais do dia a dia.

E agora, já curada, Giuliana teve uma má notícia ao descobrir que terá de continuar se tratando de uma sequela do novo coronavírus: um início de diabetes.

"Fiz exames de rotina e todos estão alterados. Nunca tive glicemia alta e agora estou com glicemia alta. Fiquei sabendo que essa é uma sequela da Covid", lamenta.