Após 5 prefeitos em 4 anos, cidade do CE volta às urnas

MARCEL RIZZO
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José Moita, o 'Zé Moita', parente do candidato a vice de Tianguá (CE) Victor Moita mas que trabalha na campanha do adversário Dr. Luiz. (Foto: Marcel Rizzo/Folhapress)
José Moita, o 'Zé Moita', parente do candidato a vice de Tianguá (CE) Victor Moita mas que trabalha na campanha do adversário Dr. Luiz. (Foto: Marcel Rizzo/Folhapress)

TIANGUÁ, CE (FOLHAPRESS) - Desviar de bandeiras de candidatos seguradas pelos cabos eleitorais que fazem bico pelas ruas centrais é rotina de morador de qualquer cidade brasileira a cada dois anos, quando precisam ir às urnas.

No município cearense de Tianguá, entretanto, a cena é ainda mais frequente. É que a cidade já teve cinco mandatos de prefeitos desde 2017.

Com 76 mil habitantes, a cidade a 310 quilômetros de Fortaleza teve nesse período chapas cassadas pelos tribunais eleitorais e presidentes da Câmara assumindo mandatos tampões.

O eleitor em Tianguá passou recentemente por duas eleições suplementares, em 2018 e 2019, além das votações formais em outubro de 2016 (para prefeito e vereador) e de 2018 (para presidente, deputados e senadores).

"A política perde a credibilidade. Você vota, o prefeito entra e sai. Vota e sai. A cidade parou, infelizmente", disse Napoleão Gonzaga de Moura, 50, que tem uma barraquinha que vende "de tudo" bem embaixo da torre do relógio, que dá nome ao principal ponto de referência da cidade, a Praça do Relógio.

Luiz Menezes de Lima, o Dr. Luiz (PSD), tem 75 anos e é o atual prefeito de Tianguá, vencedor da segunda eleição suplementar, realizada em outubro de 2019.

Esse é o quarto mandato dele. Os dois primeiros foram de 2001 a 2008 e o terceiro de janeiro de 2017 a março de 2018. Dr. Luiz foi eleito em 2016, cassado em 2018 e eleito novamente em 2019. Agora tenta a reeleição do mandato obtido na eleição suplementar --na cidade, ele é considerado o favorito.

"Uma cartilha que fiz com os feitos do meus primeiros mandatos foi avaliada como abuso de poder na campanha de 2008", diz Dr. Luiz.

O uso do material considerado inadequado ocorreu na campanha à prefeitura de sua então namorada, hoje esposa, Natália Felix, 35.

Ela foi eleita para o mandato de 2009 a 2012, mas não conseguiu se reeleger.

Condenado em 2008, Dr. Luiz ficou inelegível por três anos. Em 2010, com a criação da Lei da Ficha Limpa, essa punição passou a ser de oito anos e, em 2016, a Justiça Eleitoral entendeu que ele deveria cumprir os oito anos que a nova regra determinava.

"Nessa nova decisão minha inelegibilidade terminava dois dias depois de vencer a eleição de 2016. Mesmo assim não teve jeito, cassaram", conta Dr. Luiz.

Com limitações por causa da pandemia para fazer comícios, carreatas e até mesmo o chamado casa a casa, quando o candidato vai a um bairro e visita a residência dos moradores, Dr. Luiz recebeu a reportagem em sua casa, no alto de um morro à beira da BR-222, estrada que liga o Ceará ao Piauí.

Nascido em Tianguá, mudou-se aos 12 anos para Brasília, onde trabalhou de office boy antes de ir para o Rio. Lá passou pela Aeronáutica, formou-se em medicina e morou por 43 anos antes de voltar à terra natal para participar da vida política.

Na primeira campanha, em 2000, levou o filho famoso de um paciente do Rio para participar em cima de um trio elétrico de um comício em Tianguá: o ex-atacante, e hoje senador, Romário. Em 2012 o ex-jogador gravou até um vídeo pedindo voto para a reeleição da mulher de Dr. Luiz, mas não funcionou.

Considerado inelegível, Dr. Luiz assumiu em janeiro de 2017 por meio de liminar, mas ela foi depois revogada em março de 2018, e o médico precisou deixar o cargo.

Isso levou à prefeitura o então presidente da Câmara, Valdeci Vieira (PDT). Ele ficou três meses no cargo, até a primeira eleição suplementar que elegeu em junho de 2018 Jaydson Aguiar (PTB), vencendo Dr. Luiz, que já pôde participar.

O problema é que o novo prefeito concorreu com liminar porque também respondia por abuso de poder econômico e político na eleição de 2016 (por uso de paredões de som proibidos). Ele assumiu em 12 de junho de 2018 e ficou no cargo até setembro de 2019, quando o TSE decidiu cassar a chapa.

Naquele momento, Francisco Cleber Fontenele, o Cleber do Adautim (PSD), era o presidente da Câmara e assumiu como quarto prefeito do período, por pouco mais de um mês, até a definição da segunda eleição suplementar que teve a vitória de Dr. Luiz e seu retorno ao cargo em outubro de 2019.

"A gente fica sem entender esse entra e sai. E agora está o Dr. Luiz, que foi o primeiro. Fica tudo muito confuso e ninguém aguenta mais votar", disse Flavia Souza da Silva, 42, dona de casa.

Ao seu lado na praça São Francisco, ainda no centro, está José Moita, 61, segurando um bandeirão de Dr. Luiz.

O sobrenome Moita é conhecido em Tianguá: Gil Moita foi prefeito por dois mandatos (1989 a 1992 e 1997 a 2000) e seu filho Victor é agora candidato a vice na principal chapa de oposição ao atual prefeito e que é encabeçada por outro médico, David Alves de Albuquerque (PSB), 66, o Dr. David.

"Meu avô era irmão do avô do Gil Moita. É, estou aqui com a bandeira do adversário, foi quem me chamou para trabalhar, preciso do dinheirinho. Mas não gosto de política, não", disse Zé Moita, como é conhecido.

Dr. David, clínico, participa de sua primeira eleição em Tianguá. Ele já foi vereador em uma cidade vizinha, Viçosa do Ceará, e presidiu o PT tianguaense.

Foi para o PSB para encabeçar a chapa ao lado do filho de do ex-prefeito justamente por ser considerado um nome novo na política local --o partido aposta tanto na candidatura que enviou R$ 49.990 do fundo eleitoral.

Além de Dr. Luiz e de Dr. Davi, a eleição em Tianguá terá mais dois candidatos a prefeito, Luiz Paixão (Cidadania) e João Carlos (PTC), que devem ser coadjuvantes.

"Nas andanças sentimos que o povo está cansado, quer mudança", disse Dr. Davi. Até quarta-feira (4) pela manhã, ele e Victor estavam rodando a cidade no casa a casa, mas naquela noite o TRE-CE proibiu qualquer evento que gere aglomeração no Ceará, inclusive bandeiraços e visitas a eleitores.

"O clima está mais tranquilo nessa eleição mesmo, pessoal acho que cansou. Se bem que comparado com os anos 1980, as últimas eleições têm sido calmas. Naquela época a cidade era conhecida como 'Tiambala', contou aos risos Napoleão Moura.

Localizada na Serra da Ibiapaba, a 40 km da divisa do Ceará com o Piauí, Tianguá tem áreas isoladas com forte presença de agricultores, o chamado "cinturão verde", que é muito cobiçado pelos candidatos em todas as eleições realizadas.

Se não tem bala, tem advogados trabalhando. A chapa de Dr. David, por exemplo, tentou indeferir a candidatura de Dr. Luiz alegando que contas de quando foi prefeito em 2003 foram rejeitadas pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado) do Ceará e que ele já estaria em segundo mandato, já que foi eleito em outubro de 2016 e depois em outubro de 2019 na segunda votação suplementar.

A Justiça Eleitoral rejeitou os dois pedidos e, desta vez, deferiu a candidatura.