Após acusar ex-colega de propor convite para esquema de corrupção, Holiday diz temer retaliação

SÃO PAULO — Após acusar um ex-colega da Câmara Municipal de São Paulo, Zé Turin, de convidá-lo para integrar um esquema criminoso de desvio de emendas parlamentares, o vereador Fernando Holiday (Novo) diz temer por retaliação. Em parceria com o Ministério Público e com autorização da Justiça, ele gravou a proposta de corrupção feita por Turin.

Ligado à Zona Sul de São Paulo, Turin foi eleito pelo PHS em 2016, mas não conseguiu renovar o mandato em 2020. Após seu partido se fundir ao Podemos, ele migrou para o Republicanos, do qual se desfiliou após a última eleição municipal.

Holiday diz ter sido abordado por Turin em fevereiro de 2021. O esquema envolvia, segundo ele, a criação de CNPJs laranjas para as quais seriam repassadas verbas oriundas de emendas parlamentares, com o propósito de realizar eventos culturais na periferia. O ganho para os envolvidos se daria no superfaturamento da organização desses eventos e no cachê de artistas contratados.

— Ele me procura após as eleições, dizendo que tinha sido abandonado pelos parceiros políticos dele, e que queria fazer novas parcerias. Ele me oferta ser intermediador desse esquema, onde ele me repassaria em torno de 40% do desvio — afirma o vereador.

Após o convite, Holiday procurou o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo, para denunciar o esquema. Ele acertou com a promotoria uma ação controlada, na qual ele voltaria a conversar com Turin para gravar a proposta de corrupção e registrar provas.

Em março, ele voltou a se encontrar com Turin, com quem teve a conversa gravada — e autorizada pelo juiz Marco Antonio Martin Vargas, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital, a partir de solicitação do Gaeco.

Em contrapartida à inclusão de Holiday no esquema, o vereador conta que Turin pediu a "abertura do gabinete" para acomodar seus ex-funcionários, já que ele não tinha mais estrutura na Câmara Municipal.

"O que tem de projeto... A única coisa que você precisa me ajudar, para que eu possa te ajudar, a gente fechando aqui para trabalhar junto, é abrir as portas do gabinete, que é o que você abriu aqui para os meninos fazerem um trabalho, dentro de uma parceria. Tudo o que eu fizer aqui para mim eu estou fazendo para você, certo? Então, vamos estar sempre juntos, não tem esse negócio de fazer nada escondido, não. Seja o que for, vai ser sempre junto, entendeu?", diz Turin em um dos trechos da conversa.

— Isso me surpreendeu, especialmente porque em quatro anos de mandato nenhum vereador, nenhum servidor me procurou para ofertar alguma coisa ilícita. No começo, pensei que fosse algum tipo de teste, de pegadinha — diz Holiday.

O vereador diz ter recebido uma simples mensagem de texto de Turin após sua acusação ter sido publicada na imprensa: "parabéns pelo trabalho". Ele afirma temer pela sua integridade física, já que diz ter sido alertado por funcionários da Câmara de que o ex-colega teria envolvimento com grupos armados na Zona Sul, e que a Guarda Civil Municipal (GCM) lhe recomendou que usasse colete a prova de balas por tempo indeterminado.

— Olha, eu diria que estou com medo, sim. O que eu tenho pedido para os vereadores é apoio para uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar emendas relacionadas ao Turin.

Procurado pelo GLOBO, Turin ainda não respondeu.

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