Após ameaças, padre desiste de montar presépio sobre devastação da Amazônia na Glória

Elcio Braga
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Preocupado com depredação, padre Wanderson desistiu de montar o tradicional presépio em tamanho natural no Largo da Glória

O presépio da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, com figuras em tamanho natural, nem sequer chegou a ser montado este ano no Largo da Glória. O pároco Wanderson José Guedes alegou ter recebido ameaças de grupos católicos tradicionalistas para transferir a montagem da representação natalina para um local mais seguro, o pátio da própria igreja, a 200 metros na Rua Benjamin Constant. O que motivou os ataques propagados nas redes sociais, segundo o sacerdote, seria o tema deste ano: a devastação da Floresta Amazônica.

—  O cenário seria uns troncos de árvore, todos cortados, um rio de sangue correndo no meio, os anjinhos vestidos de indiozinhos chorando, espalhados no presépio, e a manjedoura ficaria em um acampamento de garimpo clandestino, de grilheiros — explica o pároco.

O presépio deste ano, mais compacto e simples, aborda o nascimento de Jesus de forma mais tradicional. Na versão deste ano, inaugurada domingo (15), conta com pouco mais de 20 peças, comprimidas entre as grades e a fachada da igreja. Os fiéis e demais visitantes encontram dificuldade para obter o melhor ângulo nas fotos. Se fosse montado no Largo da Glória, como ocorreu nos últimos oito anos, a representação poderia contar com até 72 peças, todas esculpidas pelo padre Wanderson, também artista plástico, no ateliê da paróquia.

O temor do padre era a depredação do presépio, como aconteceu em janeiro de 2018, quando o tema era a corrupção envolvendo os poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e até religioso. Algumas peças chegaram a ser destruídas por vândalos. No ano passado, o presépio trouxe a questão da amamentação e apresentou Maria com um dos seios de fora.  

— A gente procura usar o presépio para a evangelização. Chamar a atenção que o Natal é o nascimento de Jesus Cristo. Isso tem de ficar claro para nós. Parece que a figura de Papai Noel eclipsou a de Jesus. Quando há algum tema que incomoda ou assola a sociedade, sempre o trazemos à realidade do presépio. Buscamos uma mensagem mais atualizada de um Jesus, aqui, agora, no concreto de nossa vida — explica o religioso.

Os ataques começaram este ano nas redes sociais antes até da montagem do presépio. Em sua página do Facebook, padre Wanderson recebeu muitas críticas.
—  Eles diziam que não vão me dar sossego. Falam da questão da minha moral, que sou um padre herege, uma série de desaforos. Pegaram postagem em que falo, por exemplo, daquele incidente em que o (prefeito Marcelo) Crivella foi lá na Bienal para tirar livros com bejo gay. Eu havia colocado um texto falando que as autoridades também deveriam se incomodar com a quantidade de crianças mortas por bala perdida. Pegaram tudo isso e saíram soltando: 'Olha a mentalidade do padre sobre a sexualidade, contrariando o catecismo.'

Para o pároco, os ataques partem do mesmo grupo que fez uma manifestação contra a realização de uma missa alusiva ao Dia da Consciência Negra, na noite de 20 de novembro, na Igreja do Sagrado Coração. Os manifestantes, que se apresentaram como pertencentes ao Centro Dom Bosco, uma associação católica, alegaram que o culto contrariava a doutrina da Igreja. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) investiga o caso, após denúncia de um fiel que se desentendeu com os que protestavam. Segundo o padre, uma ofensiva teria começado na internet após o incidente.

—  Na outra semana, começaram as agressões e as ameaças. Quem mobilizou, quem está saindo mesmo a frente, é essa Associação Dom Bosco. São várias células de católicos tradicionalistas. Como nosso presépio estava para ser montado e eles ameaçando que 'isso não vai ficar assim', me difamando nas redes sociais, falando horrores a meu respeito, o pessoal da paróquia, junto comigo, decidiu por bem não montar o presépio, até por que este ano teria realmente uma polêmica, uma conotação muito política, porque a gente ia falar da questão da Amazônia, como teve esse incidente e eles estão nos ameaçando, achamos melhor não fazer o tema que seria feito, que acaba desembocando nesta questão política. O nosso presépio não tem ideologia política. Ele vem anunciar e denunciar as realidades em que vivemos.

 

O diretor do Centro Dom Bosco, Bruno Mendes, por e-mail, explicou que "a montagem dos presépios remonta a uma tradição quase milenar e é um costume piedoso dos católicos que se renova todo ano no primeiro domingo do advento, pois esta é a época que nós nos preparamos para a vinda de Nosso Senhor. Sendo assim, no próprio Centro Dom Bosco, seguimos esta tradição e temos um presépio montado na nossa sala de aula. Logo, é óbvio que repudiamos tais acusações." Mendes, porém, mostrou descontentamento com o padre Wanderson. "Por fim, desconfiamos que o apreço ao oitavo mandamento não é um ponto forte do referido sacerdote e rezaremos para que ele consiga meditar e praticar este mandamento conforme sempre ensinou a Santa Igreja." O oitavo mandamento é o seguinte: "Não levantarás falso testemunho nem mentirás."

Segundo padre Wanderson, os novos ataques foram comunicados à  delegacia que apura o incidente no Dia da Consciência Negra. Padre Wanderson nega que a mudança da montagem do presépio signifique a vitória de grupos conservadores.

— Não é questão de covardia, mas de prudência. As peças dão muito trabalho. São caras para fazer e depois destruir, e aí? Mas, se Deus quiser, ano que vem a gente vai fazer o presépio sobre esse tema, a floresta amazônica, que acho de suma importância.