Após assassinato de indígena, garimpeiros e ianomâmis podem voltar ao confronto em Roraima, alerta MPF

Há um “risco iminente de confronto de grandes proporções” entre garimpeiros e indígenas ianomâmi em Roraima, segundo alerta feito em um ofício enviado ao Ministério da Defesa pela subprocuradora-geral da República Eliana Torelly, no dia 14 de outubro. A suprocuradora pediu às Forças Armadas que cedam helicópteros para uma operação de urgência na região do Rio Uraricoera, no Noroeste do estado.

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Com 870 quilômetros, o rio é o mais extenso de Roraima e se tornou cenário de uma sangrenta disputa. No dia 2 de outubro, data do primeiro turno das eleições, um grupo de garimpeiros assassinou um indígena e baleou outro, de 15 anos. As vítimas estavam com outros três indígenas em um igarapé perto de uma localidade conhecida como Porto do Estreitinho. O adolescente foi internado, mas já recebeu alta. O ataque foi relatado à Procuradoria-Geral da República pelo procurador do Ministério Público Federal que atua em Roraima, Alisson Marugal.

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Segundo o Ministério Público Federal, as tensões na região recomeçaram a partir desse incidente. Em maio do ano passado, já houve conflitos com mortes entre garimpeiros e indígenas no local.

As disputas são antigas. Permanentemente, garimpeiros tentam invadir áreas de proteção indígena em Roraima. Com área equivalente a 10 mil campos de futebol, a terra ianomâmi abriga 26 mil indígenas em mais de 30 aldeias e quase 30 mil garimpeiros.

Tiro atravessou a nuca

O ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, informou em um ofício enviado na terça-feira à subprocuradoria que o pedido irá para o Ministério da Justiça, que deverá detalhar a necessidade de apoio dos militares à operação. Nogueira alegou, no entanto, que participações das Forças Armadas em ações de segurança pública são “extremamente excepcionais”.

Os ministérios da Justiça e da Defesa não responderam aos questionamentos. Mas O GLOBO apurou que a Polícia Federal deverá pedir que a solicitação de helicópteros seja atendida pela Defesa, por intermediação da pasta da Justiça.

A Hutukara Associação Yanomami confirmou, por nota, o ataque no dia 2 de outubro. A entidade diz que lideranças indígenas foram informadas por garimpeiros de que um ianomâmi chamado Cleomar havia sido morto com “vários tiros na testa e no tórax” e o segundo indígena, de 15 anos, havia sido baleado no rosto. “O tiro atravessou a nuca do indígena que, por sorte, sobreviveu”, detalhou a nota.

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Segundo a Hutukara, cinco ianomâmis estavam num comércio perto da comunidade de Napolepi, no rio Uraricoera, quando o dono do local alertou que um grupo de garimpeiros estava a caminho para atacá-los.

Ataque dos “lobos”

“O comerciante soube do ataque iminente em grupos de WhatsApp por onde se comunicam os garimpeiros que atacam pessoas, que se denominam de lobos”, informou a associação. Antes que os ianomâmis pudessem se esconder, um grupo grande chegou, dividido em dois barcos, e disparou tiros contra os indígenas, que tentaram se proteger mergulhando nas águas turvas do Uraricoera.

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— Há quase quatro anos pedimos às autoridades proteção para os ianomâmis, principalmente a proibição de entrada na terra indígena de garimpeiros ilegais. Mas os confrontos só aumentam. O Ministério Público Federal já pediu duas vezes ajuda às Forças Armadas para fazer operação. O Ministério da Defesa está demorando. O governo não quer fazer operações porque apoia a mineração ilegal nas terras indígenas — acusa Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara.