Após atos terroristas em Brasília, canais bolsonaristas voltam a apagar vídeos das redes sociais

Em meio e após os atos golpistas em Brasília, canais que integram o ecossistema digital bolsonarista esconderam conteúdos pró-Bolsonaro e com ataques a instituições no YouTube. Os dados são de um monitoramento feito pela empresa de análise de dados Novelo Data a partir de informações da própria plataforma.

O mais conhecido deles a recorrer à medida foi o canal do site Jornal da Cidade Online, editado por José Tolentino. Em 2021, a conta teve sua monetização no YouTube suspensa por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O site também já foi alvo da CPI das Fake News no Congresso.

No domingo, o perfil do Jornal da Cidade Online, com 776 mil inscritos, havia tornado 1.670 vídeos privados, o que impossibilita seu acesso sem o link, e passou a ficar sem nenhum conteúdo público, a não ser uma live recente. Entre os vídeos que deixaram de ficar públicos, estavam conteúdos com declarações de parlamentares bolsonaristas contra ministros do STF, inclusive com a defesa do impeachment de magistrados, e vídeos sobre as manifestações golpistas de 7 de setembro de 2021, em que houve ataques a ministros do Supremo em manifestações pelo país.

Os conteúdos voltaram a ficar disponíveis após contato do GLOBO com o veículo. Em nota, José Tolentino, editor do site, negou relação entre a medida e os atos de domingo, salientando que não houve atualização do canal entre 25 de dezembro e 9 de janeiro, e disse se tratar de questões técnicas. “Apenas colocamos inúmeros vídeos como ‘não listados’, por questões meramente técnicas, uma vez que uma nova equipe está iniciando em nosso canal. Entretanto, para evitar ilações — especialmente no momento atual pelo qual passa o nosso país — já recolocamos todos os vídeos ‘públicos’, novamente”, informou.

Outro canal que escondeu conteúdo foi o Brasil de Olho, que tem mais de 1 milhão de inscritos. A conta não só tornou privados mais de 3 mil vídeos como mudou de nome. Agora intitulado Conto dos Famosos, o perfil simula a publicação de conteúdos sobre celebridades. Nos vídeos escondidos, chama atenção o uso de linguagem sensacionalista com expressões como “bomba” e “explodiu”. Entre os mais recentes, estão vídeos com tom pró-intervenção militar. Alguns deles trazem no título frases como “a reação do Exército”, “oficiais do Exército na ativa soltam carta que sacode tudo no Brasil” e "Alexandre de Moraes provocou decisão drástica da cúpula do alto comando militar”. O GLOBO não conseguiu contato com os responsáveis pelo canal.

Padrão de remoção

Fundador da Novelo Data, o jornalista Guilherme Felitti afirma que, desde 2020, há um padrão de remoção após reações do Judiciário. Houve movimentos semelhantes, por exemplo, após a prisão de Daniel Silveira e de operações do inquérito dos atos antidemocráticos.

— Sempre que existe movimentação jurídica e as instituições lembram para youtubers de extrema direita que existe lei, alguns desses canais dão um passo para trás. Há limpezas pontuais em alguns e outros apertam o reset. Parte continua no ar como vídeos não listados. É uma maneira de circular conteúdos apenas em comunidades controladas.

Felitti explica que a divulgação e convocação do ataque terrorista em Brasília, no último domingo, não foi abordada ou apareceu de forma periférica nos principais canais bolsonaristas, o que permitiu o surgimento de novos perfis. Ele alerta para o risco de apagamento de provas tanto na ação do próprio YouTube em remover vídeos e canais, quando nos casos em que os próprios perfis retiram do ar seus conteúdos:

— É preciso ter uma maneira de que esses conteúdos estejam disponíveis para apuração e responsabilização. Não existe nenhum caminho para isso que não seja a Justiça brasileira conversando com o YouTube.