Após atuação do Banco Central, dólar fica estável a R$ 4,65; Ibovespa cai

Moeda dos Estados Unidos: intervenção do BC para tentar conter disparada

RIO e SÃO PAULO — O mercado financeiro vive mais um dia de estresse à medida que os casos de coronavírus não param de crescer no mundo, colocando em xeque a capacidade das principais economias globais de reagirem à doença. Após abrir em leve queda nesta sexta-feira (dia 6), o dólar comercial voltou a subir e chegou a R$ 4,67, às 9h28.

O Banco Central fez nova atuação no mercado de câmbio, e vendeu US$ 2 bilhões ao mercado em 40 mil contratos de swap tradicional (venda de dólar no mercado futuro). A moeda americana perdeu fôlego, após o leilão, e foi negociada a R$ 4,648. Mas por volta de 11h, voltou ao patamar de R$ 4,651, em leve alta de 0,03%.

Na quinta-feira, o dólar fechou em R$ 4,65, novo recorde, mesmo com três atuações do Banco Central no câmbio, ofertando US$ 3 bilhões. A autoridade monetária já havia feito outras três intervenções, oferecendo mais de US$ 3 bilhões, desde o dia 13 de fevereiro.

O Ibovespa, índice de referência do mercado de ações brasileiro, abriu em forte queda acompanhando os mercados internacionais. Às 11h, o índice operava com baixa de 4,35% aos 97.786 pontos, perdendo o patamar dos 100 mil pontos.

Ações com peso importante no índice têm desvalorizações expressivas. Petrobras PN (preferenciais, sem direito a voto) recuam 6,60% a R$ 23,65, enquanto as ações ordinárias (ON com direito a voto) perdem 6,79% a R$ 43,68, em mais um dia de baixa no preço de commodities, como petróleo e minério de ferro.

Os papéis dos bancos privados (Itaú e Bradesco) perdem mais de 2%. Ações de varejistas como lojas Americanas e B2W apresentavam quedas superiores a 8% e chegaram a ser colocadas em leilão.

As ações de companhias aéreas, setor que é bastante afetado pelo coronavírus com a redução de viagens aéreas, despencaram mais de 10% nesta manhã. Por volta das 11h15, recuavam mais de 7%.

A XP Investimentos atualizou a estimativa para o Ibovespa este ano: de 140.000 pontos para 132.000.

Lá fora, as bolsas asiáticas fecharam em queda nesta sexta-feira, e as europeias abriram em baixa. As principais praças, como Londres, Paris e Frankfurt, recuavam mais de 3%.

O coronavírus está agora em cerca de 90 países, menos de três meses depois de ter sido identificado pela primeira vez na cidade de Wuhan, no centro da China, em dezembro de 2019. O total de casos se aproxima dos 100 mil: está em 98.698.

Segundo relatório da Rico Investimentos a clientes, o "modo pânico" foi ativado no mercado e, ao que tudo indica, o Ibovespa deve mesmo perder os 100 mil pontos nesta sexta-feira.

A queda de 4,65% ontem, levou o índice ao seu menor patamar de fechamento desde outubro de 2019. Nenhuma ação do índice subiu e sete ações caíram mais de 9%.

Investidores tentam dimensionar qual será a desaceleração global provocada pelo coronavírus. No caso brasileiro, os especialistas avaliam que a atuação do BC está sendo branda para tentar corrigir as disfunções no mercado, além de enxergarem uma certa queda de braço entre investidores e BC.

Para Ermínio Lucci, presidente da corretora BCG Liquidez no Brasil, subsidiária da americana BGC Partners, o Banco Central poderia vender reservas internacionais, atualmente em mais de US$ 350 bilhões.

Mas, por enquanto, a autoridade monetária avalia que o nível atual do dólar não está fora do equilíbrio, diz Lucci.  Para ele, o BC também poderia fazer um cronograma de leilão de swaps, com data e quantidade a ser vendida, como já aconteceu no país

- Vender reservas seria inócuo. As condições externas estão predominando sobre as internas.

Entre os fatores internos que pressionam a moeda, há a sinalização que o BC poderia fazer uma nova redução de juros, o que tira a atratividade do real. O PIB de 1,1% em 2019, menor que os 1,3% do governo Temer, é decepcionante no longo prazo. Além disso, há os ruídos políticos entre o governo e o Congresso.

— Há uma combinação impressionante de fatores externos e internos que fazem a moeda brasileira se desvalorizar cerca de 1% todas os dias nas últimas sessões — diz.

Mesmo com a sinalização do BC de que pode reduzir juros, a incerteza dos investidores prevalece. Tanto que a taxa do DI para janeiro de 2021 subia de 3,88% no ajuste anterior para 4,005%; a do DI para janeiro de 2022 saltava de 4,41% para 4,61%; a do DI para janeiro de 2023 passava de 5,07% para 5,29%; e a do DI para janeiro de 2025 avançava de 6,02% para 6,20%.

Ontem, o ministro da Economia, Paulo Guedes, classificou o patamar da moeda americana como "normal", afirmou que o câmbio é "flutuante" e que o dólar pode ir a R$ 5, se houver "muita besteira".

E o chamado risco-país, medido pelo credit default swap (CDS), saltou 14,4%, para 129 pontos centesimais, segundo dados da Bloomberg.

Foi a maior alta desde a divulgação dos áudios entre Joesley Batista e o então presidente Michel Temer, em maio de 2017, quando subiu 29%.

Desde o início do ano até quinta-feira, o dólar acumula valorização de 15,9%. Por sua vez, a Bolsa no Brasilregistra perdas de 11,6% no mesmo período.

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