Após AVC, médica se forma usando comunicação por piscadas em aula e estágio

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após um acidente vascular cerebral em 2014, Elaine Luzia dos Santos, então farmacêutica e estudante do terceiro ano de medicina no Paraná, ficou com o corpo totalmente paralisado. Sem poder falar nem movimentar braços e pernas, ela conseguia mexer apenas os olhos.

Um ano depois, Elaine retornou à Unioeste (Universidade Estadual do Oeste do Paraná), em Cascavel, no interior do estado. Agora em 2022, aos 33 anos, ela completou o curso e se tornou oficialmente médica.

No retorno às aulas, a comunicação foi feita por meio de uma tabela, organizada por linhas e letras. "Ela piscava para a letra que queria dizer e com o tempo fomos estabelecendo agilidade para formar as palavras e frases", afirma Valderlize Dalgalo, docente de atendimento educacional especializado ligada à universidade, que a acompanhou por seis anos.

A aluna consegue ouvir os professores, ler e entender as informações. Só precisa de ajuda para fazer ou responder a questionamentos e para se comunicar de forma geral.

Por isso, durante as aulas teóricas e práticas, Elaine era acompanhada em todos os momentos por Dalgalo, um serviço custeado pela própria instituição. Quando ela estava ausente, outro profissional a substituía.

"Falamos a linha primeiro. Se a letra que ela deseja está nessa linha, ela pisca. Depois dizemos as letras dessa linha e ela pisca de novo, formando as palavras", explica Dalgalo. Um sistema parecido de comunicação foi retratado no filme "O Escafandro e a Borboleta", de 2008, baseado numa história real.

Hoje, Elaine consegue sustentar a cabeça e mover levemente os lábios. "Testei um software que me permitia navegar pela internet, mas deu defeito e não pode ser consertado, então ainda preciso de ajuda para me comunicar", disse ela à reportagem.

A entrevista foi por escrito, via WhatsApp, com a ajuda de um familiar que digitou as mensagens. Ele usou a mesma tabela de letras, com linhas e colunas, para a médica se comunicar.

Nos estágios em hospitais, ela fazia perguntas (por piscadas), acompanhava evolução do paciente, realizava diagnóstico e procedimentos. Só nos exames físicos ela recebia o auxílio dos colegas. Assim, passou por ambulatório, unidade de saúde, pediatria, clínica médica, emergência, saúde coletiva, ortopedia e medicina cirúrgica.

A Universidade Estadual do Oeste do Paraná precisou de um processo legal para inclusão, com autorização dos conselhos de classe médica, de adaptações à aluna, como permitir aulas práticas gravadas ou estágio com acompanhamento.

"Não temos conhecimento de casos semelhantes ao da Elaine no Brasil nem em outros países", diz o coordenador do curso, Alan Araújo. "Ela não se privou de nenhuma atividade de formação médica. Só não consegue fazer exame físico no paciente, mas pode ouvir os relatos e fazer a avaliação pois não há déficit cognitivo."

Ainda assim, a amiga e colega de turma Elaine Lima lembra que o retorno não foi fácil. "Ela dividiu opiniões sobre como seria o futuro e se poderia exercer a profissão. Precisou ser forte e guerreira desde o início."

A própria recém-formada afirma que sofreu preconceito durante o curso. "Ninguém falava diretamente para mim e alguns colegas me ignoravam. Alguns professores se recusavam a adaptar as provas, mas tudo mudou quando me inseri na turma. Eles aprenderam a falar comigo, me ajudavam e até me levavam para os churrascos. Os docentes também passaram a me apoiar."

O que mais a incomodou neste processo, conta a recém-formada, foi ter que provar constantemente que a capacidade cognitiva, memória, aprendizado e discernimento estavam intactos. "As pessoas demoram a perceber que sou adulta e tomo conta da minha vida. Tendem a se dirigir aos meus familiares para fazer perguntas sobre mim, mesmo eu estando presente. Isso é bastante frustrante."

"Elaine é sensível, humana, brilhante. Estuda muito, é focada, nunca faltava, não importava se a aula terminasse à 1h da madrugada, no outro dia, 7h estava lá", diz a amiga Elaine Lima.

A nova médica diz que decidiu seguir no curso porque queria realizar seu sonho de criança. "Foi quando me vi como paciente e tinha que retomar à vida, do jeito que fosse possível. A motivação foi meu amor-próprio e o desejo de ser útil para as pessoas. Não posso fazer tudo, mas não significa que não possa ser nada."

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