Após casos de corrosão em componente do Phenom 300, Embraer anuncia recall do jato executivo

João Sorima Neto e Leo Branco

SÃO PAULO — Em meio a atrasos no processo de fusão de sua área de aviação comercial com a Boeing, a Embraer emitiu um boletim alertando os proprietários e operadores do avião Phenom 300, um dos seus jatos executivos mais usados no Brasil, para uma inspeção preventiva depois de relatos recebidos de casos de corrosão em um dos componentes do avião. Segundo a Embraer explicou no texto, a corrosão pode levar a um desbalanceamento de componentes do jato, o que em conjunto com determinadas condições de voo, poderia resultar na perda de controle da aeronave. A Embraer confirmou ao GLOBO que a revisão atinge 30% da frota global dos Phenom, cerca de 150 aeronaves. De acordo com especialistas consultados pelo GLOBO trata-se de um ‘recall‘. A notícia foi antecipada pelo colunista do Globo, Ancelmo Gois.

O Phenom 300 é uma aeronave bimotor de pequeno porte, com capacidade para transportar entre sete a dez passageiros. Seu alcance de voo é de 3,6 mil quilômetros, o que permite, por exemplo, um voo direto entre Brasília e Buenos Aires, sem escalas. O avião pode atingir até 839 quilômetros por hora e chegar a uma altitude de 13.716 metros. A aeronave custa cerca de US$ 9 milhões (o equivalente a R$ 37 milhões). Desde 2009, foram entregues 500 aeronaves dese tipo pela Embraer.

Segundo o texto do comunicado, assinado pelo presidente da unidade de serviço e suportes da empresa, Johann Bordais, a corrosão foi encontrada "nas massas de balanceamento dos profundores". O profundor é o estabilizador horizontal da aeronave que fica na cauda do avião e poderia ficar desbalanceado por conta do problema. A Embraer informou no comunicado que está coletando informações das aeronaves inspecionadas e que os dados estão sendo repassados à área de engenharia. Houve pelo menos três relatos do problema e a região de operação da aeronave tem "contribuição relevante" para a corrosão.

A Embraer informou ao GLOBO que considerando que há um grupo de aeronaves mais suscetível às condições observadas, a empresa divulgou uma revisão de boletim de serviço para inspeção em prazo mais curto. Clientes do chamado grupo 1 devem fazer a revisão em três dias ou após 5 horas de voo. Pelo menos 20% da frota deverá fazer a inspeção nesse prazo. Já as aeronaves do grupo 2 - que correspondem a 10% da frota - terão que fazer a revisão em um prazo de 60 dias ou 100 horas de voo. Bordais reconhece que a empresa enfrentará “restrições mais imediatas em termos de possíveis peças requeridas para o completo cumprimento do serviço e que a revisão do boletim de alerta poderá impor impactos significativos nas operações de alguns clientes no curto prazo.

"Com foco em garantir a segurança das aeronaves, a Embraer está trabalhando para eliminar todas as possibilidades de restrições minimizando o impacto das operações das aeronaves e resolver a situação mais rápido possível. Nenhum incidente foi registrados e a Embraer desenvolveu uma ação corretiva aprovada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que emitiu um diretriz de navegabilidade, no dia 8 de novembro, que foi seguida por outras autoridades aeronáuticas do mundo", diz a nota enviada ao GLOBO.

Dois especialistas em aviação consultados pelo GLOBO, sob a condição de anonimato, observam que o risco trazido pela corrosão de uma peça é o aparecimento de uma fissura, que faça o componente se partir. Segundo esses especialistas, toda a aeronave nova ou usada, é inspecionada constantemente num processo chamado de aeronavegabilidade continuada. Caso a inspeção observe qualquer problema que não esteja relatado no manual de operação da aeronave, o caso deve ser levado ao departamento de engenharia do fabricante e a peça substituída.

—Se há vários informes sobre o mesmo problema, a fabricante emite um boletim de serviço, que é revisto com o passar do tempo, como neste caso da Embraer. Se a conclusão é que a segurança da aeronave está em xeque, então é emitido um documento com caráter normativo, em que o componente precisa ser substituído. E a ANAC tem a responsabilidade de fiscalizar se a peça foi substituída, diferente do que acontece com recalls do setor automotivo, em que nenhuma autoridade fiscaliza se o proprietário fez o serviço - explica um dos especialistas.

Prejuízo cresceu no terceiro trimestre

No terceiro trimestre deste ano, o prejuízo da Embraer chegou a R$ 314,4 milhões, frente aos R$ 52,2 milhões apurados no mesmo período do ano passado. É um crescimento de mais de cinco vezes no prejuízo. Já a receita recuou de R$ 2,57 bilhões no terceiro trimestre de 2018 para R$ 2,53 no mesmo período deste ano.

A Embraer informou nesta semana que espera que o acordo com a Boeing na área de aviação comercial esteja concluído apenas no fim de março de 2020 e não mais no fim de janeiro . A informação foi dada pelo do vice-presidente executivo financeiro e de relações com investidores, Nelson Salgado, durante teleconferência para apresentação dos resultados da empresa do terceiro trimestre. Salgado afirmou que a comissão antitruste da União Europeia pediu informações adicionais sobre o negócio e, até que elas sejam fornecidas, a análise fica paralisada.