Após cassações em série, cidade de MG foca eleição em promessas de calmaria

JOSÉ MARQUES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Além de segurança, saúde e educação, a estabilidade política também virou promessa de campanha em Ipatinga (MG). O maior município do Vale do Aço vive um turbilhão político há mais de dez anos, com consecutivas acusações de irregularidades eleitorais que acabam decididas pela Justiça. A cidade teve tantos prefeitos recentes que, neste ano, seis deles concorrerão nas eleições, como candidatos à prefeitura, à vice-prefeitura ou à Câmara Municipal. De 2004 até hoje, Ipatinga já trocou de prefeito oito vezes e teve duas eleições suplementares. O atual prefeito, Nardyello Rocha (Cidadania), era presidente da Câmara Municipal e assumiu a gestão após o afastamento pela Justiça da chapa eleita em 2016. Em 2018, Nardyello venceu eleições suplementares para a prefeituras, só que acabou sendo alvo de um processo e também foi cassado em primeira instância pela Justiça Eleitoral. No entanto, recorreu e venceu no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais. A acusação dizia que ele havia abusado do poder político e econômico ao concorrer nas eleições-tampão, porque tinha antecipado o pagamento de servidores. No tribunal, o magistrado relator afirmou que não foram encontradas provas de "qualquer exploração do fato para fins eleitorais". Por 5 votos a 1, a cassação foi revertida. Candidato à reeleição neste ano, Nardyello afirma que fez uma gestão de "pacificação e de participação plural" na política. "Conseguimos trazer de novo a paz política que a gente precisava." Ele, que foi presidente da Câmara por quatro mandatos, diz que sua experiência contribui para a "estabilidade política" que promete dar para o município. Conhecida pela força na indústria siderúrgica, Ipatinga tem uma população estimada em 265 mil habitantes. Desde o fim dos anos 1980 é vista como um reduto do PT, que se fortaleceu no sindicato dos metalúrgicos local. Nos últimos 15 anos, no entanto, o partido vivenciou idas e vindas na cidade. Na eleição presidencial de 2018, Jair Bolsonaro (então no PSL) obteve 74% dos votos no município. Em 2004, com a eleição de Sebastião Quintão e promessas de ruptura, o PMDB quebrou uma sequência de quatro mandatos petistas. No pleito seguinte, em 2008, Quintão, fazendeiro e ligado a igrejas evangélicas, concorreu à reeleição contra o ex-prefeito por três mandatos Chico Ferramenta (PT). Foi esse o confronto que deu início à série de trocas de prefeitos. Ferramenta derrotou Quintão com 47% dos votos válidos, mas uma coligação do PSOL e PSTU que se intitulava "Única Esquerda Ipatinguense" entrou na Justiça contra a chapa petista sob acusação de irregularidades nas contas de Ferramenta quando ocupava a prefeitura. A coligação PSOL-PSTU venceu a disputa judicial, e a chapa de Ferramenta foi indeferida antes mesmo da diplomação. Quintão, que teve 36% dos votos válidos, foi empossado para um segundo mandato, mas acabou cassado meses depois sob acusação de irregularidades em R$ 2 milhões gastos na campanha. O juiz relator do caso no TRE-MG, Benjamin Rabello, disse que as condutas da campanha do peemedebista eram "mais pérfidas que o caixa dois". "‹"A Justiça Eleitoral não conhece a verdadeira origem de mais de R$ 2 milhões que aportaram na conta de campanha de Quintão", afirmou. O presidente da Câmara de Ipatinga à época, Robson Gomes (PPS), assumiu a prefeitura. Mais tarde, ganhou a eleição-tampão contra a esposa de Chico Ferramenta, Cecília Ferramenta (PT). Chico não podia concorrer. Em 2012, foi a vez de Cecília vencer a eleição. É a única desde 2009 a comandar a cidade por quatro anos seguidos. Ela, porém, perdeu a disputa pela reeleição em 2016 para Sebastião Quintão, que teve a candidatura indeferida com base na Lei da Ficha Limpa, mas ficou no cargo sob liminar até 2018, quando renunciou. Seu vice assumiu, mas ele também foi afastado da prefeitura. Foi aí que Nardyello, presidente da Câmara Municipal, virou prefeito. Neste ano, segundo o noticiário local, Quintão chegou a ensaiar uma candidatura à prefeitura. No final, decidiu concorrer apenas como candidato a vice na chapa encabeçada por Jadson Heleno (DEM). Nas publicidades eleitorais de Heleno, no entanto, o ex-prefeito é um dos destaques. "Dessa vez, [é] vovô Quintão e o Jadson", diz Quintão em vídeo nas redes sociais. "Não jogue fora o seu voto, vamos mudar Ipatinga novamente." O ex-prefeito foi procurado pela Folha por meio de um auxiliar, mas não se manifestou. Outro ex-prefeito de Ipatinga que concorre novamente é João Magno (PT), que governou a cidade de 1993 a 1996. "‹Na avaliação dele, o caos político local se instalou após a oposição aos petistas tentar desfazer as políticas públicas que seu partido implementou. "Eles acharam que para destruir o PT tinham que destruir a memória da cidade", afirma Magno. "Com a crise, passou-se a ter na cidade disputas políticas muito densas, pesadas, e a ter esse volume de eleições com muita instabilidade." Para ele, houve uma "judicialização e criminalização da política muito forte". Magno, que é ex-deputado federal, também já foi alvo de acusações: constou no processo do mensalão, mas foi absolvido. Pelo mesmo caso, sofreu um processo de cassação na Câmara dos Deputados, mas venceu e não perdeu o mandato. Apesar de a cidade, em 2018, ter ampla maioria pró-Bolsonaro, Magno diz que a população, que passou por uma onda antipetista, "já entende que houve injustiças". Também aposta que é o candidato que conseguiria acabar com a instabilidade política na cidade e afirma estar disposto, inclusive, a "assumir eventuais erros" do partido. Outros ex-prefeitos participam do pleito como candidatos a vereador: Cecília Ferramenta, Robson Gomes (agora no PSC e com o nome de urna Robson Ex-Prefeito) e Nilton Manoel (Podemos). No total, são nove candidaturas à prefeitura. Junto à influência dos ex-prefeitos e do atual sobre o pleito, o cenário é visto como um eventual novo campo de batalha jurídica após a eleição. "A briga política em Ipatinga é muito acirrada e desta vez todas as tradicionais figuras políticas estão vindo como candidatos novamente", diz o consultor político Danilo Emerich. A pulverização em uma cidade sem segundo turno, avalia, é favorável ao prefeito Nardyello. Segundo ele, tanto o PT quanto o candidato apoiado por Quintão têm rejeição grande, mas também votos cativos. "Inegavelmente são uma forte liderança na região"."‹