Após 'Com açúcar, com afeto', Chico Buarque lamenta não poder mais cantar 'Pelas tabelas'

Surpreso com a repercussão, Chico Buarque voltou a comentar a exclusão de "Com açúcar com afeto" de seu repertório. Lembrando que tem mais de 400 músicas, o cantor e compositor admite que algumas acabaram ficando datadas por vários motivos. E lamenta um samba específico que considera "uma pena não poder mais cantar".

"Tem um samba que gosto muito e é uma pena não poder cantar que é o 'Pelas tabelas'", disse Chico, em entrevista ao "Brasil 247". "Não canto mais porque fala 'Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela / Eu achei que era ela puxando o cordão' ou 'Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas / Eu pensei que era ela voltando'. Não dá mais. Era situada na época das Diretas Já. Ou seja, todo mundo batendo panela de camisa amarela, se eu cantar hoje...(risos). Ficou datada, não é? Não quer dizer que eu renegue a música. Só não canto mais."

O comentário sobre "Com açúcar com afeto" foi feito na série da Globoplay sobre Nara Leão. Na entrevista, Chico confirma que deixou de cantar "Com açúcar com afeto", ausente de seu repertório há décadas, por considerá-la datada.

"Continuo achando que é uma coisa meio vencida, essa coisa da mulher lamurienta, que fica em casa. Puxa, nós estamos no tempo da Anitta! As mulheres estão falando alto, estão de cabeça erguida e acho bonito isso. É uma conquista do movimento feminista. O movimento feminista tem uma grande importância e estou solidário com ele."

Mas revela alguma bronca com críticas de "mulheres que se dizem feministas, mas acabam prestando um desserviço à causa" ao lembrar do episódio de "Tua Cantiga”.

"Por causa daquele verso 'Largo mulher e filhos / e de joelhos vou te seguir'. Vi a declaração de uma mulher que disse que vomitou quando ouviu isso. É difícil de lidar. E isso cria uma enorme antipatia. É negativo. Mas eu não antipatizo com as feministas e tendo a concordar com elas.

Sobre "Com açúcar com afeto", ele diz continuar gostando da música, mas acha que fez "coisas melhores". Para ele, a mulher "lamurienta" retratada na letra, a pedido de Nara Leão, não existe mais.

Chico destaca ainda que o problema real no mundo de hoje é feminicídio: "E as vítimas do feminicídio não são as mulheres de “Com Açúcar, com Afeto”. São as que se rebelam. Essas é que são as vítimas do machismo. E isso é terrível."

E termina a entrevista lembrando de outra canção do início da carreira, “Ela e sua janela”, "que é essa mulher que fica em casa e o marido sai pra beber, pra jogar. Mas no fim, fala: 'Mas outro moreno joga um novo aceno e uma jura fingida / e ela vai talvez viver de uma vez a vida'. É a mulher do 'Com Açúcar, com Afeto' que se mandou com o moreno. Gosto mais dessa aí."