Após confirmar e recuar, Geórgia certifica vitória apertada de Biden

LAURA CASTANHO
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*ARQUIVO* BRASILIA, DF,  BRASIL,  17-06-2014 -  Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASILIA, DF, BRASIL, 17-06-2014 - Joe Biden. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se reunia com congressistas republicanos de Michigan para tentar reverter sua derrota no estado, na tarde da sexta-feira (20), a Geórgia confirmava a vitória de seu rival, Joe Biden, após uma recontagem manual e por uma margem estreitíssima.

No estado sulista, o democrata venceu Trump por cerca de 12 mil votos entre mais de 5 milhões, e levou, com isso, 16 delegados no Colégio Eleitoral.

"Vivo pelo lema de que os números não mentem", disse Brad Raffensperger, o secretário de Estado da Geórgia e responsável pela apuração local. Republicano, "conservador apaixonado" e apoiador de Trump desde o início de sua primeira campanha, em 2016, Raffensperger reforçou diversas vezes que o processo eleitoral é seguro e que os resultados devem ser respeitados.

"Eleições por margens pequenas semeiam a desconfiança. As pessoas sentem que foram traídas. Como outros republicanos, estou decepcionado que o nosso candidato não tenha levado os votos da Geórgia [no Colégio Eleitoral]", disse. "Acredito que os números que apresentamos hoje estão corretos e que refletem o veredito do povo --não uma decisão do meu gabinete ou dos tribunais ou de qualquer uma das campanhas."

No entanto, uma trapalhada o obrigou a voltar atrás temporariamente na confirmação. Horas após certificar o resultado à imprensa pela primeira vez, por volta das 8h locais (10h em Brasília), a secretaria do Estado recuou e disse que a recontagem ainda não havia terminado.

"Um funcionário nosso mandou o release [texto] errado à imprensa", justificou a subordinada imediata do secretário, Jordan Fuchs. O resultado foi certificado em definitivo às 16h06 locais, faltando 54 minutos para o limite legal.

O jornal The New York Times chamou o incidente --que prorrogou o desfecho de uma novela iniciada em 3 de novembro, quando começou a primeira contagem-- de "uma falha de última hora surreal".

A lei do estado exige que seja feita uma recontagem automática caso a diferença entre os votos obtidos pelos dois candidatos seja inferior a 0,5%. O processo, feito a mão, levou seis dias.

No Twitter, o presidente Donald Trump retomou o discurso sem embasamento em fatos de que a eleição teria sido fraudada, no qual aposta desde que a contagem passou a favorecer Biden, no dia 4 de novembro.

"O governador da Geórgia e o secretário de Estado se recusam a nos deixar ver as assinaturas que exporiam centenas de milhares de cédulas ilegais, e que dariam ao Partido Republicano e a mim uma GRANDE VITÓRIA...", escreveu. "Por que não fazem isso, e por que são tão rápidos em certificar um cálculo insignificante?"

Em uma entrevista coletiva feita na mesma tarde, sobre preços de remédios, Trump não falou sobre a Geórgia e saiu pela terceira vez seguida sem responder às perguntas dos repórteres --cena que se repete desde o anúncio de sua derrota, no dia 7 de novembro.

O resultado na Geórgia foi a primeira vitória de um democrata no estado desde 1992, na primeira campanha de Bill Clinton. A apontada como grande responsável por essa guinada política é Stacey Abrams, que foi representante estadual (equivalente ao deputado estadual no Brasil) por dez anos e candidata derrotada ao governo da Geórgia, em 2018.

Abrams tomou como prioridade em sua carreira a militância contra a supressão de voto no estado --as formas variadas pelas quais o próprio sistema eleitoral impede as pessoas de votar, desde a dificuldade de acesso às urnas até eventuais irregularidades no sistema de contagem, e que afetam predominantemente as populações não-brancas e pobres.

Abrams fundou, após sua derrota eleitoral, uma organização voltada a essa causa, a Fair Fight Action (ação pela luta justa), que também estimula a participação política das comunidades negras no estado --que foram decisivas para a vitória de Biden.

O passo final na Géorgia é a certificação pelo governador, o republicano Brian Kemp, que deve ser feita até as 17h locais de sábado (21).

Os próximos estados a serem certificados são Michigan e Pensilvânia, na segunda-feira (23), Nevada, na terça-feira (24), Arizona (no dia 30) e Wisconsin (no dia 1º de dezembro).

Todos foram vencidos por Biden e, em todos eles, a campanha de Trump entrou com algum tipo de ação para questionar a legitimidade da contagem, impedir a certificação do resultado ou pedir recontagem.

O foco do presidente nesta sexta foi Michigan. Por volta das 18h locais, Trump se reuniu na Casa Branca com políticos republicanos do estado: o presidente do Senado estadual, Mike Shirkey, e o da Câmara estadual, Lee Chatfield, o senador estadual Tom Barrett e o representante estadual Jason Wentworth.

O tema da reunião não foi divulgado, mas sabe-se que Trump vem tentando convencer legisladores locais a indicar delegados para o Colégio Eleitoral que sejam favoráveis a ele nos estados em que Biden ganhou.

Tanto Shirkey como Chatfield já disseram que não iriam interferir na certificação, mas criaram um comitê bicameral para analisar supostas irregularidades na apuração, dando margem ao discurso conspiratório de Trump.

Já Barrett é apoiador fervoroso do presidente e crítico da secretária de Estado de Michigan, a democrata Jocelyn Benson, responsável por coordenar a contagem local. Ele pediu que o processo fosse investigado antes da certificação, também sob o pretexto das supostas irregularidades.

Especialistas jurídicos consultados pelo New York Times afirmaram que o fracasso da estratégia é "virtualmente certo", dada a margem de Biden --que conquistou 306 delegados no Colégio Eleitoral, contra 232 de Trump.

Para ganhar, Trump precisaria provar que houve fraude sistêmica e dezenas de milhares de votos inválidos em ao menos três dos estados restantes. Como não há sinal disso até agora, a liberação dos resultados oficiais de cada estado deve desmontar a tese do presidente. No limite, isso ocorrerá no dia 8 de dezembro.

Mesmo que Trump siga negando a derrota após essa data, ele não teria base para continuar judicializando os resultados, e os processos de sua campanha tendem a ser desconsiderados de imediato pelos juízes responsáveis.

No dia 14 de dezembro, os 538 delegados do Colégio Eleitoral se reúnem nas capitais estaduais e depositam votos nos candidatos vencedores em cada estado. Os certificados das votações nos estados devem chegar à capital, Washington, no dia 23 de dezembro. A posse está marcada para o dia 20 de janeiro.