Após cortes, Paes diz que Light 'arrumou confusão grande' com a prefeitura: 'Chantagem, vagabundagem e desrespeito'

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Durante a divulgação do 41° boletim epidemiológico da cidade do Rio, o prefeito Eduardo Paes comentou o corte de luz que a Light realizou em 66 instalações do município nesta sexta-feira. Para justificar a decisão, a concessionária alegou que a prefeitura tem uma dívida de R$ 261 milhões por serviços prestados.

Questionado sobre o assunto, Paes reconheceu que a dívida existe, sem estimá-la em números, e disse que a maior parte dela foi gerada na gestão anterior, de Marcelo Crivella. Ele também afirmou, contudo, que os cortes foram uma tentativa da Light de "chantagear" a prefeitura para obter "privilégios" na negociação das pendências — na prática, uma estratégia para furar a fila de fornecedores para o pagamento das dívidas. Nessa manobra, a Light "arrumou uma briga desnecessária" com o município, adicionou o prefeito.

Ele disse ainda que o presidente da concessionária, Nonato Castro, responderá criminalmente caso se prove que a empresa descumpriu o protocolo legal para a realização dos cortes, ressaltando que a Light terá de "aguardar bonitinho" a regra comum de negociação a todos os prestadores de serviço — estabelecida em projeto de lei que, segundo Paes, ainda será votado pela Câmara Municipal. E reiterou os comentários que tinha feito no Twitter minutos antes, em que chamou a Light de "empresa vagabunda". "Isso é Isso é chantagem, vagabundagem e desrespeito", disse na agenda oficial.

— Que há uma dívida do município com a Light, ninguém duvida. Já no início do nosso governo, na fase de transição, informamos algo em torno de R$ 6 bilhões de restos a pagar, ou seja, serviços executados e reconhecidos pela prefeitura não pagos pelo governo anterior. O que acontece no Brasil que já criou tanto escândalo? Os amigos do rei, aqueles que acessam as autoridades, acabam sendo sempre os primeiros a receber, e nós aqui resolvemos estabelecer uma regra republicana para pagamento de dívidas. Reconhecemos e não negamos as dívidas, não somos irresponsáveis, pagaremos todas aquelas que irresponsavelmente não foram pagas no governo anterior, mas resolvemos estabelecer uma regra clara aprovada em lei municipal. Essa lei já foi aprovada em primeira discussão na Câmara, imagino que deva ser votada na semana que vem — disse.

Segundo ele, a lei prevê uma "regra republicana" para o pagamento de dívidas, o chamado leilão reverso:

— Ela estabelece que vamos parcelar essas dívidas e provavelmente faremos aquilo que se chama de leilão reverso. Ou seja, quem oferecer maior desconto recebe primeiro e pode até receber à vista. Essa é a regra republicana. As empresas maiores, poderosas, como a Light, acham que mandam um WhatsApp para o prefeito, para o secretário, e vão resolver seu problema na frente dos outros. Só que aqui nós tratamos o pequeno fornecedor, que tem uma dívida de R$ 50 mil, da maneira como vamos tratar o grande fornecedor, que tem uma dívida de mais de R$ 200 milhões, não sei dizer o número exato.

Em seguida, Paes reforçou que a fila para a resolução de pendências financeiras da prefeitura com fornecedores deve seguir o princípio da isonomia.

— Para que façamos algo republicano, temos que fazer algo para todos. Ou só porque o sujeito é presidente da Light e fala mais com o prefeito ele vai achar que vai ter privilégios? É natural que eu dialogue com o presidente da Light, com grandes empresas e outros órgãos. Mas eles não podem por isso achar que vão ter privilégios. O que eles estão querendo são privilégios. Eles não querem entrar na regra comum. Vale a regra para todos, para o grandão e para o pequenininho — disse.

Ele acrescentou que os cortes ocorridos nesta sexta-feira, em pontos como o Parque Olímpico da Barra e a Nave do Conhecimento na Penha, foram uma "estratégia de guerra" da Light para "chantagear" a prefeitura a pagar a dívida.

— Além de eu não aceitar lobby, não aceito chantagem. A maneira como a Light procedeu é quase de uma estratégia de guerra. Geopoliticamente eles escolhem alvos certeiros para dar uma espécie de aviso ao município. Mas essa estratégia não vai funcionar aqui. Aliás, acho que funciona ao contrário. Acho que a Light comprou uma briga desnecessária com a prefeitura. Eles não vão chantagear, não vão estabelecer pressões, não vão escolher alvos estratégicos, (que são) claramente escolhidos — uma escola aqui, um Centro Olímpico ali, um Parque Madureira acolá — para assustar a gente. Vão aguardar bonitinho a regra que vai valer para todos. Se não quiserem aguardar, eles têm sempre o direito de recorrer ao Poder Judiciário — afirmou.

Paes também reconheceu que contraiu dívidas com a Light este ano, e disse que grande parte delas se refere ao fornecimento de energia para hospitais municipais. Ele afirmou ainda que a concessionária falta com compromissos estabecidos em contrato, como a poda de árvores.

— No nosso caso aqui, a estratégia que eles estabeleceram vai ser ao contrário. Eu também posso dedicar uma parte do meu tempo a escolher alvos estratégicos. Uma empresa que não cumpre, em geral, com as regras de pagamento, que não poda as árvores em áreas de fiação, que desrespeita as regras estabelecidas por legislação federal, estadual, de desligamento. Eles alegam, por exemplo, que é uma dívida deste ano. Pode até ser que, por uma confusão administrativa, você tenha um atraso no pagamento. Por exemplo, sei que boa parte da dívida deste ano foram atrasos da Saúde, principalmente. E aí eles vão e desligam o Parque Madureira — argumentou.

Em seguida, o prefeito disse que o presidente da Light, Nonato Castro, poderá responder criminalmente caso se apure que a empresa descumpriu o prazo legal para o corte de energia:

— Eles têm que lembrar que existe uma legislação, e ela não permite que se apague nada sem um período de, salvo engano, quase três meses, após um prévio aviso formal. Se isso não aconteceu, eles vão responder criminalmente. O senhor presidente da Light, o senhor Nonato (Castro), vai responder criminalmente. Porque eles podem ter prejudicado, a gente não sabe como, o funcionamento de equipamentos públicos importantes.

E afirmou que ainda há valores a serem contestados pela prefeitura:

— A gente já viu muitos escândalos nesse país de intermediários, escritórios de advocacia, que vão lá, negociam a dívida e recebem primeiro. Não vamos fazer isso. Até porque há contestação por parte do município em relação a valores. A Secretaria de Saúde contesta determinada conta de luz de um hospital. Ora, isso acontece com a gente na nossa casa. Eles não vão achar que vão se impor aqui, dar uma de malandro — frisou. — Eles arrumaram uma confusão grande. Nós não vamos ficar calados diante desse tipo de estratégia, de malandragem. Isso é chantagem, vagabundagem e desrespeito. Nós não vamos aceitar chantagem, vagabundagem, lobby ou desrespeito.

Corte de luz em 66 pontos

A Light realizou o corte no fornecimento de energia elétrica em 66 instalações do município, em diferentes bairros. Entre os lugares afetados está o Grêmio Recreativo Esportivo, na Penha, na Zona Norte do Rio. Segundo frequentadores e funcionários, a unidade está sem luz há três dias. Assim como a Nave do Conhecimento que fica ao lado.

A vigilante Rosana Schroeder, de 44 anos, pratica esportes no local toda semana. Com o corte na luz, foi preciso cancelar o cronograma de atividades, conta:

— Desde terça-feira está sem luz. Tinha energia, mas cortaram. Muitas crianças frequentam aqui diariamente e infelizmente, parou tudo depois da interrupção.

Na manhã desta sexta-feira, a aposentada Marluza Batista da Silva, de 68 anos, procurou o espaço cultural para matricular os dois netos de 7 anos no futebol. Somente teve a orientação de voltar na próxima semana.

— Vim trazê-los para matricular no futebol, mas avisaram que é só na terça por conta da falta de luz. Não sabia disso (da interrupção). Esse centro faz muita falta para o pessoal. Foi frustrante receber essa notícia. Meus netos querem muito fazer esporte — contou.

Com o corte no Parque Olímpico, o posto de vacinação no local, que funciona em sistema drive-thru, teve que suspender o atendimento ao público nesta sexta-feira. As pessoas podem se vacinar no posto montado na Cidade das Artes, também na Barra da Tijuca. Paes comentou sobre a suspensão em seu perfil no Twitter com a mensagem: "A vagabundagem da @lightclientes mata! Irresponsáveis!".

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