Após crítica interna, Biden pressiona Netanyahu por diminuição imediata do conflito em Gaza

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BAURU E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A escalada de violência entre Israel e o grupo islâmico Hamas chegou ao décimo dia nesta quarta-feira (19) sem uma perspectiva de cessar-fogo imediato, com a Faixa de Gaza mergulhada em uma crise humanitária e um saldo de ao menos 240 mortos.

A situação fez os Estados Unidos —principal aliado internacional do governo israelense— pedirem publicamente a diminuição dos confrontos ainda nesta quarta, em uma mudança de atitude em relação aos dias anteriores.

O presidente americano, Joe Biden, acusado por seu próprio partido de falta de firmeza com Israel, falou por telefone com o premiê Binyamin Netanyahu pela quarta vez desde o início da crise atual e "comunicou ao primeiro-ministro que esperava uma desaceleração significativa hoje no caminho para um cessar-fogo".

Segundo comunicado da Casa Branca, "os dois líderes tiveram uma discussão detalhada sobre o estado dos eventos em Gaza, o progresso de Israel em degradar as capacidades do Hamas e outros elementos terroristas e os esforços diplomáticos em andamento por governos regionais e dos Estados Unidos".

Netanyahu, por sua vez, disse que aprecia o apoio de Biden ao direito de defesa de Israel, mas que vai "continuar esta operação até que seu objetivo seja alcançado: trazer de volta a paz e a segurança aos cidadãos de Israel".

"A cada dia estamos atingindo mais recursos das organizações terroristas, derrubando mais torres terroristas, atingindo mais esconderijos de armas”, disse o premiê. "Não estamos parados com um cronômetro. Queremos atingir os objetivos da operação. As operações anteriores duraram muito tempo, então não é possível definir um prazo."

Em resposta ao apelo de Biden, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassam, disse que aqueles que buscam restaurar a calma devem "obrigar Israel a encerrar sua agressão em Jerusalém e seu bombardeio a Gaza". Assim que isso acontecer, segundo Qassam, "pode haver espaço para falar sobre arranjos para restaurar a calma".

O pedido de Biden, no entanto, não foi acompanhado por uma mudança de postura dos diplomatas americanos na Organização das Nações Unidas. "Temos sido claros e consistentes de que estamos nos concentrando em intensos esforços diplomáticos contínuos para acabar com a violência e que não apoiaremos ações que acreditamos minar os esforços para diminuir a escalada", disse um porta-voz da missão diplomática dos EUA.

A declaração foi vista como uma resposta, ainda que indireta, à proposta de resolução apresentada pela França durante a quarta reunião do Conselho de Segurança da ONU para tratar da violência em Israel e Gaza. O texto propõe encerrar os conflitos e recebeu endosso de Egito e Jordânia —dois países de maioria muçulmana que são vizinhos de israelenses e palestinos.

Os Estados Unidos, porém, continuam se opondo a uma declaração pedindo o fim da violência por a considerarem inoportuna e ineficaz para acalmar a crise. "Nosso objetivo é chegar ao fim deste conflito. Vamos avaliar dia a dia qual é a abordagem certa", disse na terça a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki. "Discussões silenciosas e intensas nos bastidores são, taticamente, nossa abordagem neste momento."

Na última segunda-feira (17), Biden já havia expressado seu apoio a um cessar-fogo em outra conversa com Netanyahu, ao qual o premiê teria respondido com a afirmação de que a conduta de seu país seria "continuar atacando alvos terroristas".

Segundo informações do jornal The New York Times, no entanto, Biden foi mais duro na conversa privada com o premiê israelense do que tem demonstrado em público, sugerindo que consegue resistir por pouco tempo à pressão internacional para cobrar de Israel o fim dos ataques.

O noticiário da TV israelense N12, citando fontes palestinas não identificadas, relatou que o Egito, por meio de "canais secretos", propôs que a luta entre Israel e Gaza terminasse na manhã desta quinta-feira (20), mesmo dia em que a Assembleia Geral da ONU também discutirá os conflitos.

Ezzat El-Reshiq, representante do braço político do Hamas baseado no Qatar, no entanto, negou que tenha havido algum acordo para o cessar-fogo.

Mais tarde, um outro representante do grupo, Moussa Abu Marzouk, disse a um canal libanês que as conversas tinham avançado e que um acordo para o fim da violência pode acontecer até sexta (21). O jornal israelense Haaretz informou ainda que autoridades do país também consideram que um cessar-fogo pode estar próximo, apesar das declarações recentes de Netanyahu.

Da Europa, o ministro alemão das Relações Exteriores, Heiko Maas, viaja nesta quinta para Israel e Ramallah, na Cisjordânia, onde terá reuniões com o intuito de buscar acalmar a crise. Maas se reunirá com o chanceler israelense, Gabi Ashkenazi, e com o ministro da Defesa, Benny Gantz. Também está previsto um encontro com o presidente israelense, Reuven Rivlin, e, do lado palestino, com o primeiro-ministro Mohamed Shtayyeh.

Na noite de terça-feira (18), 52 aviões da Força Aérea israelense lançaram 122 bombas em 25 minutos sobre cerca de 40 alvos subterrâneos que, segundo Israel, fazem parte do chamado metrô do Hamas —mais de 12 quilômetros de túneis por onde se deslocam os membros do grupo que controla a Faixa de Gaza e por onde Israel afirma que eles transportam munição.

De acordo com o porta-voz das Forças Armadas de Israel, Hidai Zilberman, ao menos dez membros do Hamas e de outro grupo radical, a Jihad Islâmica, foram mortos durante a ofensiva militar nas cidades de Khan Younis e Rafah, de onde a maioria dos foguetes lançados até agora contra Israel teria sido disparada.

Ainda segundo os militares israelenses, aproximadamente 50 foguetes foram lançados da Faixa de Gaza em direção a cidades no sul do país, mas não houve relatos de danos ou feridos durante a noite.

Também foram identificados disparos com origem no Líbano. Segundo fontes de segurança libanesas, quatro foguetes foram lançados da região da cidade de Tiro, no sul do país, em direção a Israel, o que fez com que sirenes de alerta soassem em Haifa, no norte israelense, e em outras áreas a leste.

Militares israelenses afirmaram que um dos foguetes foi interceptado pelo escudo antimísseis e "o resto provavelmente caiu em áreas abertas". O país fez ainda novos disparos contra alvos no Líbano, embora não haja confirmação sobre quem teria organizado o ataque contra Israel.

Desde o agravamento da crise entre Israel e Hamas, ao menos 13 foguetes foram disparados do Líbano contra o território israelense. Não houve, entretanto, relatos de danos significativos ou vítimas em ambos os lado, e não há sinais de que o caso possa gerar a uma escalada nas tensões entre Israel e Líbano, que, desde que protagonizaram um conflito em 2006 envolvendo o Hizbollah, mantêm suas fronteiras em relativa calmaria.

Autoridades médicas palestinas disseram que 228 pessoas, incluindo 63 crianças, morreram nos dez dias de bombardeios aéreos que destruíram estradas, prédios inteiros e outras estruturas da Faixa de Gaza, o que agravou a escassez de alimentos, água potável e remédios, aumentou o risco de disseminação de Covid-19 e outras doenças e forçou mais de 52 mil palestinos a deixarem suas casas.

Do lado israelense, as autoridades contabilizaram 12 mortos, incluindo duas crianças. O país possui um avançado sistema de defesa contra mísseis e foguetes inimigos que, segundo os números oficiais, interceptou quase 90% dos mais de 3.750 projéteis disparados de Gaza e minimizou os danos do conflito. Em aspectos menos tangíveis, no entanto, os israelenses têm sofrido com a convivência com as sirenes de alerta de bombardeios e a subsequente correria para os abrigos antibombas.

"Estamos aterrorizados com o barulho das explosões, dos mísseis e dos aviões", disse Randa Abu-Sultan, 45, mãe de sete filhos, à agência de notícias AFP, acrescentando que tem passado as noites abaixada em um quarto com toda a família. "Meu filho de quatro anos diz que tem medo de dormir e encontrar todos mortos quando acordar."

Segundo a agência humanitária da ONU, quase 450 edifícios de Gaza foram destruidos ou seriamente danificados, incluindo seis hospitais e nove centros de saúde de cuidados primários. Por toda a cidade, crateras e pilhas de escombros mostram as consequências imediatas dos conflitos e aprofundam a preocupação com as condições de vida na região no longo prazo.

"Quem quiser aprender sobre a humanidade dos israelenses deve vir à Faixa de Gaza e olhar as casas que foram destruídas em cima daqueles que nelas viviam", disse à agência de notícias Reuters o professor universitário Ahmed al-Astal, ao lado dos destroços que restaram de sua casa bombardeada em Khan Younis.

Segundo ele, não houve aviso antes de sua casa ser destruída em um ataque aéreo ainda antes do amanhecer, embora Israel diga que emite alertas para a evacuação de edifícios que serão alvejados e que ataca apenas o que considera alvos militares.

A enviados estrangeiros, Netanyahu disse que Israel tenta atingir os inimigos com grande precisão, mas admitiu que a exatidão dos ataques nem sempre é alcançável.

"Por mais cirúrgica que seja uma operação, mesmo em uma sala cirúrgica de um hospital você não tem a capacidade de prevenir danos colaterais em torno dos tecidos afetados. E certamente em uma operação militar você também não consegue", disse.

​​O Hamas começou a disparar foguetes contra Israel no último dia 10 em retaliação ao que chamou de abusos dos direitos israelenses contra palestinos em Jerusalém durante o mês do ramadã, sagrado para os muçulmanos.

Os ataques com foguetes seguiram-se a uma série de confrontos entre as forças de seguranças israelense e grupos palestinos na mesquita de al-Aqsa e a uma decisão judicial em primeira instância que pode expulsar famílias palestinas de um bairro de Jerusalém Oriental alvo de disputas desde que foi anexado por Israel em 1967.

A sequência de violência entre Hamas e Israel é a mais grave desde 2014. O último grande confronto durou 51 dias e devastou a Faixa de Gaza, provocando as mortes de pelo menos 2.251 palestinos, a maioria civis, e de 74 israelenses, quase todos soldados.

O conflito atual também serviu de combustível para acirrar as hostilidades internas em cidades israelenses que antes eram vistas como símbolos da convivência entre árabes e judeus. Houve centenas de prisões e autoridades locais decretaram estados de emergência e toques de recolher.

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