Após décadas de polêmicas, Parque Augusta será inaugurado no sábado

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SÃO PAULO — No próximo sábado, quando os portões do Parque Augusta liberarem a entrada da população ao recém-reformado complexo de 24,6 mil metros quadrados, será decretado o fim de uma batalha encampada, sobretudo, pelos moradores da região, ao longo de duas décadas. A área verde — que já foi cotada para receber um supermercado e torres residenciais — fica localizada a menos de 2 km da Avenida Paulista e da Praça da Sé, marco zero da capital paulista.

O novo equipamento público, sob a gestão da prefeitura, e agora chamado de Parque Augusta — Prefeito Bruno Covas, terá por volta de trinta variedades de árvores — parte delas agrupadas em um bosque — uma arquibancada com espaço para cerca de 200 pessoas sentadas, apetrechos para ginástica, espaço para os cachorros correrem livres, sem coleiras, e trilhas para caminhada que fazem parte do projeto original do terreno, do século passado.

Ao longo da reforma, descobriu-se o desenho e parte da vegetação de um jardim construído do início do Século XX, quando no terreno funcionava o colégio católico Des Oiseaux (“dos pássaros'', em francês), dedicado à educação de moças. O recanto verde, naquela época, figurava como um ambiente de reflexão, vinculado ao sagrado, diz Samuel Kruchin, arquiteto responsável pelo novo projeto a ser conhecido neste final de semana.

— O Parque integra um jardim histórico (restaurado) e outro contemporâneo, projetado agora. A parte do bosque, por exemplo, tem mantidas as adições de vegetação que cresceram ao longo do período de abandono pelo qual o terreno passou. O grande exercício de arquitetura foi integrar o passado e o presente — afirma Kruchin.

Longo embate

A disputa para conseguir instituir o Parque Augusta, na história recente, remonta aos anos 2000, quando diversos moradores começaram a organizar-se por meio de abaixo-assinados dedicados a transformar o terreno subutilizado em uma área de lazer. A determinação de que o endereço deveria fazer as vezes de parque brotou do Plano Diretor da cidade, de 2002. Mais antigamente, em 1970, porém, a prefeitura já havia realizado outras movimentações em direção a expropriar a área e instalar ali um jardim público, mas sem sucesso.

Em 2004, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), tombou parte do complexo: tendo em vista a “diversidade arbórea” e por conta do histórico de ocupação, que incluía um palacete e o colégio “dos pássaros”. Depois disso, houve ainda a determinação de que a área tratava-se de um espaço de “utilidade pública”, por meio de decreto do então prefeito Gilberto Kassab, em 2008.

Todas essas idas e vindas culminaram na aprovação de um projeto de lei, por Fernando Haddad, que instituiu a criação do parque, em 2013. O que parecia resolver a confusão esbarrou num problema crônico do Parque Augusta: a falta de dinheiro público para arrematar a área e dar fim ao embate no local.

Em 2015, as incorporadoras Cyrela e Setin — proprietárias do terreno desde 2013 — anunciaram o uso do endereço de maneira mista. Haveria a preservação de 60% da área, mas também seriam erguidas torres residenciais, escritórios, com comércios no térreo. O projeto foi liberado pelo mesmo Conpresp que havia tombado a área verde do espaço. O anúncio caiu como uma bomba entre os ativistas, que intensificaram os processos.

Um novo capítulo no drama que envolvia o lote de terra, porém, virou o jogo a favor de quem defendia que a área deveria abrigar um parque e só. O promotor Silvio Marques do Ministério Público acionou a Justiça alegando que as proprietárias do terreno não cumpriam a obrigação de preservar a área ambiental do endereço. A promotoria solicitou o pagamento de danos morais coletivos, diante da irregularidade.

O imbróglio só se aproximou do fim em 2018, ao longo da gestão de João Doria na prefeitura. Nessa época, foi definido o acordo de que as proprietárias poderiam utilizar o potencial construtivo da área em outra freguesia: nas proximidades da Marginal Pinheiros. A negociação precisou passar por novos ajustes, — o terreno oferecido para a "troca" anteriormente estava contaminado e, portanto, não estava apto para uso.

Após novas conversas, ficou definido, por fim, que as então donas do Parque Augusta poderiam utilizar o potencial construtivo em outras áreas da cidade e que pagariam pela a reforma do parque (que atualmente ultrapassa o custo de 12 milhões de reais), além da instalação de um boulevard nas proximidades da Praça Roosevelt, entre outras transferências em dinheiro — o que já foi feito, de acordo com os envolvidos. O Prefeito Bruno Covas assinou a escritura do Parque Augusta em abril de 2019.

— A única coisa que eu gostaria é que tivesse um “dono”, uma mão forte, para que o parque se mantivesse assim (novo) por muito tempo. Isso porque tiramos os tapumes essa semana e já precisamos refazer um trecho de grade porque depredaram. É inacreditável — diz Antônio Setin, fundador e presidente da incorporadora que leva seu nome.

Os percalços finais

O início das obras para o Parque Augusta, embora tenham trazido algum alívio para os moradores, não encerraram as complicações no endereço. Logo no começo de 2020, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) pediu a paralisação dos trabalhos, por conta de interesses arqueológicos na área.

A coordenadora de Gestão de Parques e Biodiversidade da prefeitura da cidade de São Paulo, Tamires Oliveira, explicou que — passado o período de liberação da obra junto ao o Iphan, a pandemia da Covid-19 foi responsável por complicar o andamento do serviço, sobretudo ao causar a falta de materiais necessários para colocar de pé as instalações.

Uma das mais ferrenhas defensoras do parque, a advogada e fundadora da Sociedade dos Amigos e Moradores do Cerqueira César, Célia Marcondes, que trabalha há 20 anos pela instituição da área verde celebra o fim da jornada, mas sem deixar de pensar nos percalços ao longo do caminho.

— Lamento muito ter demorado tanto, porque algumas pessoas morreram sem ter aproveitado isso, sem ter tido chance de sentar-se nos bancos do parque e contemplar a natureza — disse.

O último capítulo de todo o embate envolvendo o pequeno parque cercado de prédios por prédios é estabelecer um regulamento de uso do equipamento. Dando conta, inclusive, do uso da arquibancada — para a qual alguns vizinhos torceram o nariz, pelo potencial de abrigar eventos de música, com som alto.

— Acabamos uma batalha, agora começam outras. Queremos que o parque seja neutro e democrático — diz Sérgio Carrera, membro do conselho gestor do parque e ativista pela instalação do equipamento há 20 anos.

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