Após demissão de premiê, sudaneses temem outro regime repressivo

Abdallah Hamdok em 21 de agosto de 2019 em Cartum (AFP/Ebrahim Hamid)

Ao renunciar, o primeiro-ministro do Sudão, Abdullah Hamdok, deixou os militares sozinhos no comando de um país mergulhado na violência desde o golpe de Estado. Agora, muitos temem que um regime repressivo seja instaurado.

Desde o golpe de 25 de outubro, promovido pelo chefe do Exército, general Abdel Fatah al-Burhan, 57 manifestantes foram mortos, segundo um sindicato médico pró-democracia.

Além disso, manifestantes foram vítimas de violência sexual, segundo a ONU, e muitos jornalistas, espancados e até detidos, enquanto as redes de telecomunicações operam à mercê do poder.

Para piorar a situação, o general Burhan garantiu por decreto a impunidade das forças de segurança, concedendo-lhes poder total sob uma "lei emergencial" herdada da época de Omar al-Bashir. O ditador foi derrubado em 2019 pelo Exército, após manifestações em massa.

No final de novembro, depois de passar um mês em prisão domiciliar, Abadallah Hamdok voltou ao cargo de primeiro-ministro, graças a um acordo com o general Burhan.

"Paralisado" e "incapaz de fazer qualquer coisa" desde então, de acordo com o especialista Magdi Gizouli, do Rift Valley Institute, o primeiro-ministro decidiu jogar a toalha no domingo (2).

Agora, disse Gizouli à AFP, "os militares são os únicos no comando" do país. Diante deles, estão "os manifestantes, que vão tomar ainda mais as ruas e enfrentar ainda mais violência".

Julgado em diferentes processos, Omar al-Bashir está preso desde que foi destituído do poder, mas muitas figuras de seu regime continuam governando, incluindo o general Burhan.

Para a população, não há dúvida de que o protesto deve continuar. As manifestações de 2019 levaram à queda de Bashir e, agora, pretende-se fazer o mesmo com o general Burhan.

"A renúncia de Hamdok priva os generais de sua fachada e mostra claramente que o golpe nada mais é do que um retorno à política militar islâmica de Bashir", disse Kholood Khair, especialista sudanês no Insight Strategy Partners.

Em 25 de outubro, o general Burhan estendeu seu mandato por dois anos, acabando com qualquer esperança de que o poder fosse transferido para os civis antes que o processo de transição fosse concluído, supostamente em julho de 2023.

Nessa data, Burhan prometeu que seriam eles que realizariam eleições.

Dois meses depois, autorizou as Forças Armadas a revistarem qualquer prédio e as pessoas que nele se encontravam e a realizar quantas apreensões considerassem necessárias.

Além disso, os membros dos serviços de segurança se beneficiam de imunidade e não podem ser interrogados. E, do exterior, as reações são bastante tímidas.

Os Estados Unidos pediram "aos líderes sudaneses que deixassem de lado suas diferenças [para] garantir a continuidade do poder civil", enquanto o Reino Unido se declarou "entristecido" com a renúncia de Hamdok.

"Quanto mais os americanos e europeus demorarem a mostrar aos generais as consequências de suas ações, mais eles vão consolidar seus poderes econômicos e políticos às custas dos sudaneses", advertiu John Prendergast, do "think tank" The Sentry.

Em um comunicado nesta segunda-feira, o general Burhan enfatizou aos oficiais militares "a importância de formar um governo independente com tarefas específicas aceitas por todos os sudaneses".

Ele também insistiu na "necessidade (...) de realizar eleições" e "distanciar-se dos estreitos interesses partidários".

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