Após denúncia de mortes de crianças Yanomami por desnutrição grave, Funai e Ministério da Saúde montam estratégia emergencial

Imagens divulgadas nas redes sociais de crianças com desnutrição grave na Terra Yanomami, a maior reserva indígena do país, alertam para a desassistência na área da saúde que a etnia já havia denunciado no ano passado. As fotos, divulgadas pela associação Urihi, revelam meninos e meninas extremamente magros e com costelas aparentes. Para tentar conter a situação, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e o Ministério da Saúde montaram uma estratégia emergencial na região.

De acordo com um levantamento do portal Sumaúma, ao menos 570 crianças menores de cinco anos morreram nos últimos quatro anos por doenças que poderiam ter sido evitadas. As vítimas são de mais de 120 comunidades Yanomamis, entre elas a Kataroa, na região do Surucucu, no município de Alto Alegre, ao Norte de Roraima. De acordo com o presidente da Urihi, Júnior Hekurari Yanomami, que também é chefe do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kwana (Condisi-YY), a desnutrição severa se deve à falta da cobertura sanitária na região, escassez de medicamentos e invasão de garimpeiros.

— Estamos sem assistência há quatro anos. Todos os dias, desde que o Ministério da Saúde chegou aqui, no dia 16, dezenas de crianças e adultos são levados para a capital em estado grave. Apresentam desnutrição, malária. Tem crianças tendo paradas cardíacas. Precisamos de insumos e medicamentos urgente — relatou Júnior Hekurari Yanomami ao GLOBO.

Segundo o presidente da Urihi, nesta manhã os técnicos do Ministério da Saúde salvaram um bebê de 18 dias que apresentava pneumonia aguda. Ele teve cinco paradas cardíacas e foi levado de helicóptero para um hospital de Boa Vista, capital de Roraima. Outra criança de três anos, que pesa apenas 6 quilos, foi atendida após convulsionar duas vezes.

Todo o território tem cerca de 8 mil crianças, grande parte delas com algum problema de saúde. Segundo levantamento realizado pelo Sumaúma, durante o governo Bolsonaro o número de mortes de crianças com menos de 5 anos por causas evitáveis aumentou 29% em terras Yanomami, em comparação à gestão de Dilma Rousseff e Michel Temer.

Em nota divulgada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) nesta sexta-feira (20), desde o último dia 16 agentes do Ministério da Saúde estão no território para fazer um levantamento de informações para o diagnóstico sobre a situação da saúde dos indígenas.

Estratégia do Ministério da Saúde

Assessor do Instituto Socioambiental (ISA) e integrante da Rede Pro Yanomami e Ye'kwana, Estêvão Benfica Senra é um dos pesquisadores que integra a sala de atenção montada pelo Ministério da Saúde para o enfrentamento da crise sanitária no Território Indígena (TI) Yanomami. Ele explicou que na primeira reunião, nesta sexta, houve as primeiras tentativas para se definir linhas prioritárias de atuação, além de esforços para ampliar o leque de atores que possam contribuir.

A estratégia para ações emergenciais montada pelo Ministério de Saúde está baseada em duas frentes: a sala de situação, que terá reuniões virtuais semanalmente, com articulação entre diferentes entidades da sociedade civil, representantes indígenas, universidades e órgãos governamentais; e o trabalho em campo de uma equipe no TI Yanomami, fundamental para realizar um diagnóstico mais apurado dos problemas.

-- Construir um plano de ação apenas com base nos dados mais recentes talvez não passe a noção correta do que está acontecendo -- afirmou o pesquisador, que vem acompanhando e denunciando a " situação da degradação sanitária", como define, na região. -- A TI Yanomami vive hoje uma das maiores tragédias humanitárias do território brasileiro.

O especialista explica que as causas do problema estão em dois vetores principais, e que se relacionam: a destruição administrativa e política do DSEI e a invasão garimpeira. Segundo o relatório "Yanomami sob ataque", publicado pela Hutukara Associação Yanomami no ano passado, o garimpo ilegal avançou 46% dentro do território entre 2020 e 2021 e a atividade ilícita já afeta mais da metade das 350 comunidades indígenas.

-- A relação dos dois vetores vai alimentando a tragédia. Nas áreas onde houve invasão de garimpeiros, há tendência de aumento de malária. Junto a isso, tivemos o processo de desorganização do distrito sanitário, que deixa de fornecer insumos, desde lâminas para microscópios, a mão de obra. E em alguns casos os polos até foram fechados, tomados pelo crime -- disse Senra.

Há registros de que ao menos quatro polos de atendimento foram fechados: em Hakoma, onde vivem 650 pessoas; Homoxi, que tem população de 250 pessoas; Haxiu, 934 habitantes; e Kayanau, 300 habitantes. Todos esses casos tiveram relação direta ou indireta com a invasão garimpeira. Em Homoxi, por exemplo, o posto foi fechado porque a pista que dava acesso aos profissionais foi sequestrada pelos garimpeiros. Em outros casos, houve conflitos e até mortes por tiro nas proximidades do posto.

Especialistas explicam que uma das estratégias dos garimpeiros para aliciar jovens Yanomami é fornecer armas de fogo e fomentar disputas intercomunitárias. Situações que tensionam as relações. E, com o acirramento da violência, acusam a gestão anterior de omissão para soluções que poderiam reverter a falta de atendimento médico.

Como prioridades no momento, Senra diz que é necessário reativar os postos fechados, realizar campanhas de vacinação, pois houve redução da cobertura, fazer missões de tratamento de verminose em massa, busca ativa de casos de malária para controle de vetores e, principalmente, atacar a situação de desnutrição e da fome, com suplementação alimentar para crianças desnutridas e identificação de áreas que precisam de apoio para alimentação.

A sala de situação criada agora só tratará das ações emergenciais de saúde, mas Estevão Senra explica que serão necessários planos para solucionar a raiz do problema.

-- É fundamental a retirada dos invasores, o que foi promessa de campanha do governo. Outra coisa é recuperar a infraestrutura e logística do atendimento de saúde. Regiões que antes eram atendidas com avião monomotor agora só recebem helicópteros, que tem um custo mais alto, por causa da falta de manutenção da pista. Isso torna o atendimento mais difícil. Demandará articulação com Funai, Ministério da Saúde, Anac e Ministério da Defesa -- destaca o pesquisador, que também lembra da necessidade de se garantir segurança aos profissionais que irão atuar em campo.