Após dois anos de pandemia, médicos traçam planos e mudam estilo de vida

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o arrefecimento do número de doentes e internados por Covid-19 no estado de São Paulo em comparação aos picos da pandemia, médicos estão conseguindo abrir espaço na agenda para colocar em prática novos planos, retomar as férias canceladas e curtir a família.

Em 2020, os dias da médica Maria Goretti Sales Maciel, 61, diretora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual, foram de muitas horas de trabalho, estresse, tensão e abalo emocional.

As 30 horas semanais se transformaram em mais de dez horas de trabalho diário. As folgas eram raras. "O sentimento que eu tenho hoje é que vivi dez anos em dois", resume a especialista.

Para suprir a falta de leitos no auge da pandemia, os pacientes em cuidados paliativos foram assistidos em casa. Ela e a equipe se dividiram entre o atendimento domiciliar, uma enfermaria Covid de cuidados paliativos no hospital e a tarefa de telefonar às famílias para informar o estado de saúde dos doentes.

"Foi o que nos consumiu mais. Diariamente, cada um da equipe ligava para dez famílias diferentes. Assumimos uma carga de sofrimento grande. Tínhamos muitas notícias ruins para dar. Fiquei mais de quatro meses sem ver meu filho, meus amigos e sem lazer", relata.

A ideia de mudar o estilo de vida foi amadurecida em julho de 2020, quando Sales ficou dez dias em casa com Covid. Fez um curso intitulado "Viver fora do Sistema" e iniciou seus estudos sobre permacultura —sistema de construção de ambientes sustentáveis baseados em ecossistemas naturais.

Em janeiro de 2021, Sales comprou um sítio em Extrema (MG) e, nove meses depois, iniciou a construção de uma casa no local. No intervalo, estudou agrofloresta. "Aos finais de semana, comecei a acampar no sítio e a estudar como transformar aquilo em floresta, preservar a nascente, plantar alimentar. Esse é meu objetivo. Estou me planejando para mudar radicalmente a minha vida", conta.

A aposentadoria, programada para depois dos 70 anos, será antecipada. As 30 horas semanais de trabalho voltaram a ser realidade na vida da médica neste ano, mas divididas em três dias.

"O nosso tempo pode ser menor do que a gente imagina. Vi pessoas morrerem de forma inesperada, que tinham saúde, pegaram o vírus e foram embora. Entramos em contato com a vulnerabilidade humana, o que tem muito a ver com nosso modo de vida. Poderíamos ter um estilo de vida mais compatível com o futuro", conta.

Para Daniela de Oliveira, psicóloga e integrante do Programa de Mudança de Hábito e Medicina do Estilo de Vida do Hospital das Clínicas da USP, a pandemia colocou todos perto da morte, e principalmente os médicos se depararam com a finitude de forma muito brusca.

"Todos abriram mão de coisas muito importantes. Ficar muito a serviço dos outros e pouco de si pode ocasionar o burnout, diz, se referindo ao esgotamento físico e mental tão falado na pandemia. Por isso, ela orienta que agora é o momento de colocar os novos planos em prática e cuidar do estilo de vida com alimentação saudável, descanso e gerenciamento de estresse com meditação e psicoterapia.

"É o resgate da vida. Os médicos devem praticar o que tanto defendem", diz Oliveira.

PEDALADA CONTRA O ESTRESSE

A hematologista Maria do Carmo Favarin, 45, trabalhou nos últimos anos com jornada dupla. Na pandemia, a medicina ocupava cerca de 12 horas diárias com atividades divididas entre o Grupo Sabin, de onde é gestora, o consultório particular e hospital da Unimed, todos em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo).

"A pandemia aumentou muito a demanda de diagnóstico laboratorial. E porque os pacientes internados com Covid apresentaram muitas alterações no hemograma, como médica também frequentei muito o hospital", relata.

Mãe de duas meninas, atualmente com 10 e 13 anos, Favarin também precisou administrar as aulas remotas das filhas. "Tinha que gerenciar as crianças em casa e alguém para ficar com elas. A mais nova não mexia no computador", conta a médica.

A válvula de escape dos momentos de estafa foi a bicicleta. As pedaladas, incorporadas à rotina estressante, trouxeram novas perspectivas e outros planos.

Em abril deste ano, Favarin se juntou a um grupo de ciclistas para um passeio de bike entre Holanda e Alemanha. Foram seis dias pedalando com paradas para descanso. O grupo contratou uma empresa para levar as malas de uma cidade a outra. De Colônia, na Alemanha, Favarin voltou para Amsterdã de trem e pegou um avião até o Brasil.

"Foi uma reciclagem de energia. O meu ritmo de trabalho continua acelerado, mas o estresse, a tensão e a carga emocional causados pela Covid-19 diminuíram", conta.

APRENDIZAGEM E NOVO PLANO

Foi durante a pandemia que o neurocirurgião Wanderley Cerqueira de Lima, 66, amadureceu a ideia de escrever dois livros sobre neurociência, um para o público em geral e o outro destinado aos profissionais de saúde.

Paralelamente à medicina, ele cultiva gosto pela escrita, a facilidade de comunicação e o interesse em propagar conhecimento --atualmente através de artigos compartilhados com colegas na profissão ou de publicações nas redes sociais.

"Na Covid, nós médicos não sabíamos quase nada. Precisei fazer uma imersão em virologia, e vi que tinha que falar com as pessoas usando uma linguagem mais coloquial", diz o médico, que atende em consultório particular e nas UTIs do hospital Albert Einstein e da Rede D'Or.

Durante a pandemia, a demanda no consultório caiu 40% e as cirurgias eletivas haviam sido canceladas, mas frequência de trabalho nas UTIs aumentou.

"Não sofri tanto quanto o pessoal de linha de frente. Meus plantões sempre foram na retaguarda, mas teve uma incidência maior de lesões cerebrais para serem avaliadas", relata o médico.

A carga emocional também foi mais forte. "Tratamos o paciente e a família. Isso mexeu comigo. Fiz reflexões ao mesmo tempo em que precisava ajudar."

Com a retomada da antiga rotina, o médico pretende reunir as anotações que guarda em cadernos para dar início à produção das obras —ainda sem previsão de publicação.

ENCONTRO COM A NETA

Na vida de Jamal Suleiman, 62, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o desafio de enfrentar uma pandemia coincidiu com o nascimento da primeira neta, Sofia, em fevereiro de 2020.

Ele e a esposa Grace, que também é infectologista, viram a bebê nascer, mas tiveram que abdicar da convivência com a menina durante quase cinco meses. Os avós a olhavam de longe, do portão do prédio.

"Acho que foi um dos grandes desafios, por ser a primeira neta, da minha filha mais velha, numa gravidez e num parto muito tranquilo. A gente teve que se afastar porque o conhecimento naquele instante era precário. Sabíamos como era a transmissão da Covid, mas não como seria a evolução da doença", recorda.

Passados os cinco meses, os avós e Sofia puderam se encontrar, mas com distanciamento físico e máscara. Pegá-la no colo ainda não era possível.

"O primeiro dia das mães da minha filha foi virtual, nada diferente do que dizíamos para as pessoas fazerem, mas difícil. Todas as festas de 2020 foram à distância. Vi minha mãe só em 2021, mas com distanciamento", afirma.

No pico da pandemia, Suleiman saía às 6h com uma roupa dentro do carro por não saber se voltaria para casa. Além das horas excessivas de trabalho no hospital, assumiu uma demanda como porta-voz para a imprensa, sem contar as tarefas do lar e compras em supermercado que ficaram para ele e Grace.

Naquele momento, o casal precisou reorganizar a vida.

Para o infectologista, o cenário epidemiológico atual permite que ele viva uma situação mais confortável e ao lado da neta. "Uma das coisas que eu mais gosto é ficar com a minha neta. Hoje, posso pegá-la, ficar com ela no final de semana em minha casa, levá-la numa praça, no parque", relata.

"Outro dia eu me peguei pensando: eu tenho uma história pra contar. Na Covid, qual é a história? É esta menina que representou a retomada, um sopro de vida."

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