Presidente, morto e estrangeira em MG: auxílio emergencial coleciona falhas na identificação de beneficiários

A concessão do auxílio emergencial já virou uma novela, ou melhor, um jogo dos sete erros. Pessoas que preenchem os pré-requisitos estipulados pelo governo federal e que precisam do dinheiro não conseguem o pagamento mesmo após dois meses do início do programa. Em contrapartida, muitas pessoas que não teriam acesso aos R$ 600 têm recebido o crédito em conta.

Os possíveis beneficiários receberam as justificativas mais inusitadas: já teve gente descobrindo ser presidente da República e até mesmo estar morta. Ao mesmo tempo, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU), mais de oito milhões de pessoas podem ter recebido o auxílio indevidamente.

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Enquanto o governo estuda estender a ajuda por mais duas parcelas — porém, no valor de R$ 300 cada —, há trabalhadores informais e autônomos que não receberam nem a primeira ainda.

Para o especialista em inteligência artificial e professor na FIAP Vinícius Soares, o cenário é extremamente propenso a erros porque o Dataprev tenta cruzar referências fornecidas pelos contribuintes com as informações rasas ou defasadas de suas bases de dados:

— Mesmo ao avaliar diferentes sistemas, muitas vezes há informações que simplesmente não estão registradas: estão na informalidade, nas cabeças das pessoas ou anotadas em papel. Assim, montar o perfil atualizado de um cidadão é como costurar uma colcha de retalhos.

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Segundo a Caixa Econômica Federal, 107 milhões de pessoas já requisitaram o auxílio emergencial — mais da metade da população brasileira. Para Soares, no entanto, o alto volume de dados não deveria ser empecilho se a análise fosse executada de maneira completamente digital. No entanto, segundo ele, o processo se torna mais moroso pela existência de etapas de análise realizadas por pessoas:

— Investir na integração tecnológica entre as diferentes esferas municipais, estaduais e federal seria um caminho para que os recursos alcançassem os beneficiários de maneira mais prática.

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A mulher que descobriu ser presidente

Desempregada há mais de um ano, a capixaba Adeyula Dias Barbosa Rodrigues, de 31 anos, teve o auxílio emergencial negado por ser... “presidente da República”. Ao consultar o aplicativo Carteira de Trabalho Digital, ela encontrou dois empregos em aberto. Um deles, no cargo. Na época, o Ministério da Cidadania afirmou que já estava procurando uma solução. No entanto, um mês depois, Adeyula ainda não pôs as mãos no dinheiro. Sem ter como pagar advogados, entrou com uma ação na Justiça por conta própria e espera por um desfecho.

Vivos foram vetados por estarem mortos

Um grupo de pessoas teve o benefício negado ao serem consideradas pelo governo como mortas. Esse é o caso da revendedora de cosméticos Rudilene de Jesus, de 56 anos, que mora em Teresina, no Piauí. Quase dois meses depois, ela ainda não recebeu os R$ 600. A autônoma diz que foi orientada pela Caixa a abrir uma nova solicitação. O problema é que, ao tentar, Rudilene recebe a resposta dizendo que não pode enviar um novo pedido porque o resultado já foi informado: negado porque ela estar morta!

Mães chefes de família sem cota dobrada

As mulheres que são chefes de família, ou seja, que sustentam seus filhos sozinhas, têm o direito a receber a cota dobrada do benefício: R$ 1.200. Para isso, é necessário cadastrar o CPF dos filhos. Muitas, no entanto, surpreenderam-se ao ter o valor maior negado e descobriram que os pais, mesmo não sendo os responsáveis pelas crianças, fizeram a solicitação usando os dados dos filhos. Para resolver essa situação é preciso registrar um boletim de ocorrência e ligar para o 111 (telefone da Caixa) e relatar o problema.

Criminosos e emigrantes burlam sistema

Enquanto milhares de pessoas que precisam do dinheiro para colocar comida em casa e pagar contas tiveram o benefício negado, outras, que não têm direito, conseguiram receber os R$ 600. Uma reportagem do “Fantástico” mostrou que brasileiros que moram em Portugal simularam o pedido e foram atendidos. Para isso, usaram o endereço de parenetes no Brasil. O programa da Globo ainda revelou que criminosos que estão presos usaram celulares para fazer a solicitação do dinheiro e também receberam.

Mineira de BH leu que residia fora do país

Um relatório da Controladoria Geral da União identificou que 22.942 CPFs que possuem domicílio fiscal fora do Brasil receberam o auxílio, contrariando um dos requisitos para a liberação dos R$ 600. Enquanto isso, Fernanda Sodré, de 34 anos, que mora em Belo Horizonte, Minas Gerais, com uma filha de 3 anos perdeu o acesso ao dinheiro. “Eu recebi a primeira parcela, e a segunda sairia no dia 20 de maio, mas não caiu na conta. O aviso no aplicativo foi de que a Polícia Federal viu que eu moro no exterior”, conta ela.

73 mil militares com renda receberam

Segundo o Ministério da Defesa, 73.242 militares das Forças Armadas (da ativa, da reserva, pensionistas, dependentes e anistiados) fizeram cadastro no aplicativo da Caixa e... Sim, conseguiram receber os R$ 600. A segunda parcela foi bloqueada, e o dinheiro da primeira, segundo o governo, seria devolvido à União. Em nota, o Ministério da Defesa minimizou o caso dizendo que eles poderiam ter “interpretado equivocadamente” as regras sobre quem pode solicitar o auxílio emergencial.

Diarista recebe por engano valor dobrado

Formada em História pela Uerj, Jailma Alves dos Santos Barreto, de 33 anos, não conseguiu um emprego na área e há três anos trabalhava como diarista. Ela perdeu a renda na pandemia e requisitou os R$ 600. Ao consultar o saldo, percebeu que havia recebido o dobro do valor: R$ 1.200, por um erro no processamento de dados. Ela tentou devolver o valor até pelo portal criado para que os militares que receberam indevidamente devolvessem o valor. Mas o site só permite devolver o valor total, e não uma parte.

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