Após emergência por coranavírus, brasileiros em Portugal enfrentam desafios para conseguir voltar ao Brasil

Gian Amato, especial para O GLobo

LISBOA - Voltar ao Brasil tem sido uma saga para centenas de brasileiros em Portugal. Desde a segunda-feira, quando a declaração do estado de emergência era questão de tempo, houve uma corrida ao aeroporto de Lisboa em busca da antecipação de voos. Com o fechamento de fronteiras aéreas da União Europeia para tentar conter a pandemia de coronavírus, a maior parte das decolagens da capital foi cancelada e começou uma onda de pânico.

O governo de Portugal decidiu manter apenas as ligações Lisboa-Rio e Lisboa-São Paulo. Nos últimos dois dias, os preços elevados e as cobranças pelas companhias de taxas extras geraram protestos nos balcões. Um deles chegou a envolver a polícia e terminou com manifestações no consulado e na embaixada do Brasil na capital. Em contato com O GLOBO, a assessoria de imprensa do Itamaraty garantiu que o órgão cobrou ajuda do governo de Portugal para resolver a situação.

Em um dos casos, a jornalista Arysa Souza, que cuida da comunicação digital da prefeitura de Salvador, diz que gastou nos últimos dois dias R$ 17 mil para ela e o marido voltarem para casa. O voo direto a Salvador pela Air Europa estava marcado para sexta-feira (19), mas foi cancelado. Ela comprou nova passagem na TAP para a última terça-feira (18), que também foi cancelado. Só conseguiram remarcar para o próximo sábado (21), mas afirmou que pagaram uma taxa de R$ 3 mil.

— Meu medo é não poder voltar depois de todos esses voos cancelados. Trabalho na prefeitura de Salvador e precisam de mim lá nesta crise. Fiquei duas horas na fila da TAP no aeroporto, cobraram taxa abusiva depois de eu já ter gasto com um voo que foi cancelado. Todo mundo tenso porque falavam em estado de emergência. Aí, o funcionário do aeroporto pediu para a polícia tirar a gente de lá porque a TAP não atenderia mais – disse Souza.

Entre terça-feira e quarta-feira, a jornalista foi duas vezes ao consulado e à embaixada do Brasil em Lisboa, mas decçarou ter ouvido do embaixador Carlos Alberto Fonseca que não havia nenhuma orientação do Itamaraty e tampouco tinham pessoal ou verba para tentar fazer algo. Ela encontrou centenas de brasileiros na mesma situação e formou um grupo no WhatsApp com 256 participantes. Também enviou mensagem pelo aplicativo ao ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que prometeu ajuda.

— O Itamaraty está fazendo todo o possível para ajudar todos os brasileiros que estão enfrentando este tipo de dificuldade. Se não receber um contato em breve, peço que volte a me escrever, ok? Um abraço — respondeu o ministro.

O GLOBO enviou mensagem ao ministro no mesmo número e recebeu em seguida uma ligação da assessoria de imprensa, que confirmou o contato de Ernesto Araújo com Arysa Souza. E adiantou que o Itamaraty irá formar uma força tarefa que vai triplicar os funcionários na área consular para atender os brasileiros ao redor do mundo com problemas para voltar ao país, inclusive com aporte financeiro, mas sem detalhar o valor nem quando isto será feito.

— Há gente sendo expulsa dos hotéis e não têm mais dinheiro para ficar aqui. Até um casal de idosos que comemorava 50 anos de casamento foi expulso – contou Souza.

Aproveitar a lua de mel há muito adiada custou caro para a escritora Ananda Urias e o administrador Victor Motta. O casal chegou ao Recife na quarta-feira à noite após gastar mais R$ 16 mil além do previsto. Eles tiveram o bilhete de volta da Air Europa do dia 21 adiado para o dia 23. Cobraram deles €1,6 mil para remarcar. Desistiram. Através de uma agência, compraram uma segunda passagem de Lisboa para Cabo Verde, de onde iriam para o Brasil. Mas o país africano vetou voos de Portugal. Decidiram investir em uma terceira passagem Lisboa-Recife pela TAP, também cancelada. Por fim, conseguiram um dos últimos voos na TAP para Belo Horizonte e de lá para o Nordeste.

— Sabíamos que Portugal poderia fechar fronteira. As ruas de Lisboa estão vazias. Já faltam coisas nas prateleiras e os hotéis estão fechando. E o governo do Brasil não está dando apoio algum para gente, nem atendem os brasileiros – reclamou Urias.

Sílvia Gil e Sandra Gimenez permanecem em Lisboa. O voo das jornalistas cariocas pela TAP está marcado para sábado. Elas, que já haviam cancelado uma ida a Paris e sem reembolso de passagem e hotel, foram ao aeroporto e ouviram da companhia que, para remarcarem, teriam que pagar € 1,6 mil, cerca de R$ 9,3 mil cada uma.

— Mas imagina se antecipamos e cancelam o voo, como tem acontecido? Queremos ir embora, mas também temos medo de cancelar – disse Gil.

— Tudo está fechado. Fomos à embaixada, mas o atendimento é só para passaportes perdidos. E, no consulado, nos deram o telefone fixo do próprio consulado. É claro que não adianta ligar, porque não tem ninguém lá dentro – completou Gimenez.

Procuradas, a TAP e a Air Europa não responderam aos e-mails.