Após episódios de violência, pessoas buscam registro de CAC

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Longe de casa havia uma semana, o empresário Anderson Nonato, 40, sabia que suas dois filhas iriam correr para a janela para vê-lo chegar de moto. Só que o reencontro com as três crianças naquela noite de 23 de setembro de 2021 foi bem diferente do que tinha planejado. Na frente do imóvel ele foi cercado por criminosos armados, que chegaram em três motos e levaram tudo o que puderam, em meio a xingamentos e humilhações --as filhas assistiram à cena da janela.

O caso transformaria Nonato e a mulher, que depois do roubo decidiram deixar de lado o perfil antiarmas e se tornaram CACs (caçadores, atiradores e colecionadores).

Assim como ele, outras vítimas de violência no país têm buscado o registro de CAC para ter armas em casa na intenção de se proteger de possíveis novas ocorrências.

Para especialistas, a busca por armas para proteção individual é um desvio de finalidade das regras para CACs. Eles afirmam que uma série de atos normativos publicados pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) criaram uma insegurança jurídica sobre o tema e abriram brecha para o cidadão comum andar armado.

"Esse negócio [o assalto] foi tão forte para mim que mudei até minha questão política. Eu odiava arma. Eu era petista total. Sempre fui, a vida toda. Agora eu quero tacar fogo na esquerda", disse o empresário.

Hoje, ele tem duas pistolas 9mm, uma pistola .45 e, agora um fuzil T4. Gastou aproximadamente R$ 50 mil em armas, além de cerca de R$ 2.000 mensais em clubes de tiro.

Juliana Alves, 40, mulher de Nonato diz que há anos tinha o desejo de aprender a atirar e ter arma, por já ter sofrido com roubos e casos de assédio na rua.

"Fui acumulando esse sofrimento com a impotência diante da violência. Até que aconteceu esse assalto e a gente decidiu ser CAC para se proteger pelo menos quando está em casa". O casal começou a frequentar um clube de tiros e, ao mesmo tempo, deu entrada para o pedido de compra de arma e o registro de CAC com o Exército.

Agora, por exemplo, quando o marido está prestes a chegar em casa, ela vai armada até a sacada para atirar caso ele seja novamente abordado por assaltantes. "Tenho duas crianças em casa, me sinto mais tranquila em saber que posso protegê-las na ausência do meu marido", disse.

Donos e instrutores de clubes de tiro confirmam há um aumento no número de pessoas que querem aprender a atirar não apenas por esporte, mas buscando proteção.

Desde 2017 trabalhando na área, o instrutor de tiro Paulo Bilynskyj considera que o setor passou por um boom no governo Bolsonaro. No primeiro ano de atuação, suas turmas tinham cerca de 17 alunos. Agora, têm entre 30 e 50.

Também diz que a ampliação ao acesso às armas mudou o perfil dos atiradores. "Antes era um público de perfil esportivo, equivalente à Fórmula 1, em que poucos têm a chance de pilotar por causa do alto custo. Hoje, dá para começar a atirar a partir de R$ 300 por mês", diz.

Atualmente, segundo ele, o público é formado principalmente por homens e mulheres com mais de 30 anos, com empregos estáveis e filhos, que querem aprender a atirar para proteger a família.

Atirador esportivo desde 2000, o advogado Guilherme Rathsam, 37, decidiu abrir um clube de tiro no fim do ano passado após perceber o aumento da demanda. Em menos de um ano, cerca de 200 pessoas já passaram pelo local. "A principal motivação é a segurança, apesar de nosso foco ser tiro esportivo", diz.

A mudança do perfil do público também levou os clubes a fazer adaptações para tornar os ambientes mais familiares. Há locais com parquinho e videogame para entreter as crianças, por exemplo.

Juliana disse que vai ao clube de tiro aos finais de semana com o marido e as filhas. "A gente vai almoçar ou tomar café da tarde e se reveza entre as baias de tiro e ficar com as meninas no parquinho."

Gustavo Pazzini, um dos sócios do clube G16 Premium, em Moema, na zona sul de São Paulo, diz que a mudança no ambiente faz com que as mulheres se sintam mais confortáveis de frequentar o local. "Não queremos ser um lugar em que as pessoas vão só para atirar, isso satura. A gente quer ter um espaço em que pessoas com os mesmos interesses convivam", disse.

Segundo Pazzini, hoje cerca de 35% dos filiados do clube são mulheres. A maioria delas quer aprender a atirar depois de ter passado por alguma situação de violência, urbana ou doméstica.

É o caso da atriz Rhenata Schmidt, 41, que decidiu investir no treinamento e se tornar CAC depois de ter passado por um relacionamento abusivo e sofrer violência do então companheiro. "Percebi naquele momento que precisava me proteger", contou.

Ela treina duas vezes ao mês e já aprendeu a atirar com fuzil, pistola e revólveres de diferentes calibres.

A publicitária Carol Diniz, 32, também se tornou CAC por medo da violência contra a mulher. "O único meio de parar a agressão de um homem é com arma. O homem sempre vai ser superior em força à mulher."

Sem parentes em São Paulo, ela diz que a arma é uma espécie de segurança particular. "Se eu não defender a mim mesma e ao meu filho, ficamos à mercê de um sistema que não funciona", disse.

O número de pessoas com licença para armas de fogo cresceu 473% no governo Bolsonaro. Em 2018, antes de o presidente assumir, havia 117,4 mil registros de CACs. Em junho deste ano, o total de registros chegou a 673,8 mil.

Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, diz que a ampliação do registro de CACs não foi acompanhada de iniciativas para a fiscalização do que as pessoas com essas armas fazem. O Exército, por exemplo, não sabe o perfil, idade, sexo, cor, de quem tem esse registro.

"Há uma falha gigantesca no acompanhamento dessa política pública. A gente não sabe quem está se beneficiando dessa política."

Procurado pela reportagem, o Exército disse que os dados estatísticos sobre o perfil dos CACs, e até mesmo sua distribuição por unidades da federação e o tipo de armas que possuem, "estão fora dos parâmetros necessários às ações de fiscalização atribuídas ao Exército Brasileiro".

Para o advogado Ivan Marques, membro do Fórum de Segurança Pública, a busca para se tornar CAC com o objetivo de proteção individual mostra como a política atual distorceu as permissões para a categoria.

"A licença para os CACs não é para que defendam seu patrimônio ou sua vida, mas para a prática esportiva, a caça ou coleção. O Estatuto do Desarmamento é muito claro na proibição ao porte de arma, mas o governo Bolsonaro conseguiu driblar a lei com uma série de decretos, criando uma confusão jurídica para que as pessoas andem armadas."

Pelas regras atuais, quem é CAC pode apenas portar uma arma de fogo curta até o local de treinamento. No entanto, quem tem esse registro, não precisa informar ao Exército onde é seu local de treino.

"Antes havia a necessidade da emissão de uma guia de trânsito, em que a pessoa informava o local e o horário de treino. O governo Bolsonaro acabou com isso, o que impede qualquer fiscalização."

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