Após fala de Lula, ministro sinaliza que governo não mudará lei sobre independência do Banco Central

O ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, tentou nesta quinta-feira contornar a repercussão negativa de falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o Banco Central (BC). Pelo segundo dia consecutivo, Lula fez críticas à taxa de juros e questionou o propósito da independência do BC.

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Segundo Padilha, Lula não deve mudar a legislação que tornou a autoridade monetária independente. Roberto Campos Neto, presidente do BC, estará à frente do cargo até o fim de 2024.

"Como disse o presidente Lula, na sua experiência de governo, deu plena autonomia ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O presidente não vai mudar de postura agora, ainda mais com uma lei que estabelece regras nesse sentido" escreveu Padilha nas redes sociais.

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O ministro acrescentou que Lula é "respeitoso". "Logo, não há nenhuma pré-disposição por parte do governo de fazer qualquer mudança na relação com o Banco Central. O governo sabe que a política monetária e o papel de análise da macroeconomia do Banco Central são de extrema importância. E, também por isso, a convivência respeitosa entre as instituições vai continuar sendo a ordem dessa gestão".

Pela manhã, Lula voltou a criticar o BC. Em encontro no Palácio do Planalto com 106 reitores e representantes de institutos de educação, o presidente disse que os agentes econômicos deveriam "aprender" uma nova "lógica" de que investimento não é gasto. Citou as áreas de saúde, educação, e urbanização de favelas para reforçar que o governo dará prioridade a pautas relacionadas a essas áreas.

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— A única coisa que não é tida como gasto por essa gente de mercado é o pagamento de juros da dívida, eles acham que isso é investimento. Qual é a explicação de a gente ter um juro de 13,5% hoje? O BC é independente, a gente poderia não ter nem juro. Não é verdade? A inflação está 6,5%, 7,5%. Por que os juros estão 13,5%? — questionou Lula.

O presidente, então, falou sobre a existência de uma "dívida histórica".

— Qual é a lógica? Qual é a lógica da desconfiança que mercado tem de tudo que a gente fará de investimento. Eu não veja essa gente falar uma vez de dívida social. Nós temos uma dívida social de 500 anos com esse povo.

Na quarta-feira, em entrevista à GloboNews, Lula já havia criticado o BC a autonomia do Banco Central. Ele classificou como “uma bobagem” o sistema em que o chefe da autoridade monetária cumpre mandato – esse é o primeiro governo em que o presidente da república não indicou ninguém para o cargo.

Lula questionou ainda a serventia de uma "independência" se a inflação e taxa de juros estavam elevadas.

Resistência no Congresso

Caso a revisão da legislação seja proposta pelo governo, haverá forte resistência no Congresso. Um dos principais apoiadores na ocasião da aprovação da proposta foi o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Por isso, sempre que perguntado sobre uma mudança de rumo do novo governo relacionado a este assunto, ressalta que o perfil do novo Congresso é de centro-direita e que não haveria clima para tirar a independência do BC.

Entre parlamentares do Centrão, há a desconfiança de que o PT possa querer alterar a lei durante os anos do atual mandato de Lula.

Além de fazer uma ponte com o mercado financeiro, Padilha tem buscado ouvir e atender demandas de parlamentares para evitar ruídos na articulação.