Após fala na COP27, irmã de preso político é acusada de conspiração no Egito

SHARM EL-SHEIKH, EGITO (FOLHAPRESS) - A irmã do ativista britânico-egípcio que está em greve de fome há mais de 200 dias -e que também parou de tomar água- está sendo acusada judicialmente de conspirar com agências estrangeiras, fazer incitação contra o Egito e disseminar fake news.

Um advogado egípcio entrou com uma ação contra Sanaa Seif, irmã de Alaa Abd el-Fattah, após a participação dela na COP27, conferência do clima da ONU que ocorre em Sharm el-Sheikh, no Egito.

"Não sabemos onde ele está, não sabemos se ele está vivo. Minha mãe ontem [segunda] esperou por dez horas na porta da prisão para a carta semanal dela. Eles não deram para ela", afirmou Seif na última terça (8). "Eu pedi para autoridades britânicas nos darem alguma prova de que Alaa está vivo. Eu não tive resposta."

Durante a entrevista coletiva de Seif na conferência, dois homens egípcios a questionaram, afirmando que seu irmão não era um prisioneiro político. Um dos homens Amr Darwish, membro do parlamento egípcio, chegou a iniciar uma confusão e foi retirado do prédio por seguranças do evento.

Na noite do mesmo dia, houve mais ânimos exaltados em um painel sobre justiça climática, no estande da Alemanha, que também contava com a presença de Seif e de mais um ativista egípcio que discorreu sobre a situação crítica de direitos humanos no país -há estimativas que indicam dezenas de milhares presos políticos.

Após o evento, uma mulher começou a gritar acusações em direção aos painelistas. Um outro grupo, em defesa da situação da família de Seif, iniciou o cântico: "Free Alaa, free them all" (em tradução livre, libertem Alaa, libertem todos, referindo-se ao irmão de Seif).

Um dos responsáveis pelo estande alemão teve que intervir e pedir que a plateia se acalmasse.

Nesta quinta (10), Seif voltou à COP27 para mais um ato simbólico, em um espaço entre pavilhões da COP27, com diversas pessoas vestidas de branco. A ideia de usar roupas claras, como uma forma discreta de protesto pelos prisioneiros políticos, por justiça climática e direitos humanos, foi divulgada durante o painel no estande alemão.

Vale mencionar que os protestos são, de forma geral, proibidos no Egito, algo que, desde antes da conferência, tem causado preocupação em ativistas. As COPs são locais, usualmente, de grande ação e envolvimento da sociedade civil, inclusive através de protestos pelas cidades onde estão ocorrendo.

A conferência climática é vista como uma oportunidade para a evolução da situação do prisioneiro político Fattah, que começou a greve de fome em protesto às condições pelas quais era tratado, inclusive pelo acesso a autoridades britânicas ser impedido, segundo a família.

A situação de Fattah chegou aos olhos de líderes de Estado e de governo que passam pela COP, entre eles o primeiro-ministro britânico Rishi Sunak.

Nesta quinta, parecia que haveria uma evolução da situação. Um advogado ligado ao caso do prisioneiro político recebeu uma autorização para visitá-lo na prisão. O representante legal, porém, depois acabou impedido de realizar a visita.

Seif disse, na terça, que temia que o irmão estivesse sendo alimentado à força pelo Estado egípcio, a fim de evitar a sua morte durante a COP27, quando o caso está recebendo muita atenção no mundo todo.

"Se esse for o caso, ele mergulhou em um pesadelo ainda pior do que o que ele já estava", afirmou Seif.

Segundo outra irmã de Fattah, sua mãe teria ouvido, na porta da prisão, que o ativista passou por uma intervenção médica.

Uma postagem de poucas horas atrás da promotoria pública egípcia faz um breve relato da história de Fattah e afirma que a última visita recebida pelo prisioneiro político ocorreu em 7 de novembro, o que a família nega. A mensagem também afirma que o ativista está com boa saúde.

O embaixador egípcio no Brasil Wael Aboulmagd foi questionado sobre a situação de saúde de Fattah nesta quinta-feira durante uma entrevista coletiva. Ele afirmou que não sabe o que está acontecendo fora da COP.

"O que acontece fora não é importante para mim", afirmou Aboulmagd.