Após festas de fim de ano, casos de Covid-19 crescem em cidades do sul da Bahia

JOÃO PEDRO PITOMBO

SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Era 2 de janeiro quando o taxista Rudival Vieira de Araújo, 49 anos, começou a sentir febre e calafrios, primeiros sintomas da Covid-19. Ele costuma transportar passageiros no trajeto entre o aeroporto de Porto Seguro e a praias de Trancoso e vinha trabalhando incessantemente nas semanas anteriores, quando milhares de turistas desembarcaram na cidade para curtir o Réveillon. "Não sei como peguei da doença, mas deve ter sido trabalhando. Foi um período de muito movimento aqui", diz Rudival, que teve apenas sintomas leves, mas ficou 20 dias em isolamento antes de retornar ao trabalho. Outros colegas também acabaram sendo contaminados no mesmo período. Porto Seguro, assim como outras cidades turísticas do sul da Bahia, registraram em janeiro um crescimento dos casos de Covid-19 acima da média registrada nos meses anteriores. Em Porto Seguro, que chegou a registrou filas de jatinhos para aterrissar e teve mais de 70 festas clandestinas em praias como Trancoso, Caraíva e Arraial D'Ajuda, o número de casos da Covid-19 cresceu 15% em janeiro. Em apenas um mês, o número total de casos saiu de 4.677 casos em 31 de dezembro de 2020 para 5.409 em 31 de janeiro. Levando em conta os meses isoladamente, janeiro foi o terceiro mês com mais casos registrados de Covid-19 na cidade, perdendo apenas para junho e julho do ano passado, primeiro pico da pandemia. Foram 732 novos casos da Covid em janeiro, contra 512 novos casos em dezembro e 306 em novembro. Ou seja, entre dezembro e janeiro, houve um crescimento de 40% na média mensal de casos. O número mensal de mortes pela Covid-19, que vinha caindo desde agosto do ano passado em Porto Seguro, voltou a subir. Foram registradas 11 mortes pela doença em janeiro, fazendo a cidade chegar a 95 óbitos pela doença. Com o avanço das contaminações, a ocupação dos leitos de terapia intensiva para o tratamento da Covid-19 também atingiu um patamar preocupante. Em Porto Seguro, dos 28 leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para pacientes com Covid-19, 24 estavam ocupados nesta quinta-feira (4). Na vizinha Eunápolis, 114 mil habitantes, são apenas 20 leitos de terapia intensiva, dos quais 17 estavam ocupados nesta quinta-feira (4). A cidade é o segundo principal destino turístico da Bahia, perdendo apenas para Salvador. Por causa do grande fluxo de visitantes nas festas de fim de ano, o governador Rui Costa (PT) emitiu um decreto que suspendeu a realização de festas em todo o território baiano no período do Réveillon. Diante da intenção da prefeitura local de autorizar festas, mesmo que com público reduzido, o governo baiano acionou a Justiça e obteve uma decisão liminar proibindo o município de Porto Seguro de autorizar, permitir ou realizar festas de Réveillon, independentemente da quantidade de pessoas presentes. Mesmo com a proibição de eventos em bares e casas de show, grupos se reuniram em festas clandestinas que aconteceram em casas, condomínios e até mesmo nas ruas dos principais distritos de Porto Seguro. Em Trancoso, praia que é sinônimo de turismo de luxo e costuma atrair alguns turistas de alto poder aquisitivo, a Polícia Militar encerrou uma festa em uma casa que reuniu cerca de 200 pessoas na semana do Réveillon. No distrito de Caraíva, houve festas clandestinas nas ruas e praças da cidade, reunindo centenas de pessoas aglomeradas e sem uso de máscara. A vila tem cerca de 1.000 moradores nativos e apenas uma unidade básica de saúde. Procurada, a prefeitura de Porto Seguro informou que o aumento dos casos de Covid-19 "foi devido a imensa procura [de turistas] pela cidade, o que levou a prefeitura a aumentar a fiscalização em todo o município". Além de Porto Seguro, cidades como Itacaré, Camamu e Cairu também vivem uma segunda onda de contaminações após receberem turistas no período das festas de fim de ano Ilhéus também vive um segundo pico da doença, com aumento do número de casos e hospitalizações. A cidade registrou 9.838 casos de Covid até 31 de dezembro e chegou a 11.221 casos em 31 de janeiro, um crescimento de 14%. Nesta sexta-feira (5), dos 50 leitos de UTI para pacientes com Covid-19 disponíveis na cidade, 100% estavam ocupados. "A situação é apavorante", resume o secretário municipal de Saúde, Geraldo Magela. De acordo com Magela, a prefeitura tem registrado aglomerações, principalmente em bares, e intensificou a fiscalização e as ações de conscientização . Parte dos bares já foi autuada e alguns chegaram a ser fechados por não respeitarem os protocolos de distanciamento. "Está uma coisa meio anormal, muita gente nos bares. Parece que com a chegada das primeiras doses da vacina, o pessoal deu uma relaxada e não está respeitando as medidas de restrição", diz o secretário. Além dos moradores da própria cidade, os leitos de Ilhéus atendem a pacientes de outras cidades do Sul, Extremo-Sul e até Sudoeste da Bahia. Sem leitos disponíveis para casos graves, parte dos pacientes com Covid-19 estão sendo transferidos para hospitais em Salvador.