Após flexibilização, número de animais abandonados aumenta, e o de adoções diminui

Carolina Ribeiro
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RIO — No período mais restrititivo da quarentena decorrente da pandemia de Covid-19, o número de adoções de animais por pessoas em busca de companhia disparou. Mas tão logo começou a flexibilização, segundo grupos de protetores, muitos destes pets começaram a ser abandonados em ruas e parques. Embora não confirme a relação entre os dois fatores, a Subsecretaria de Bem-Estar Animal (Subem) diz que tem havido menor procura por animais para adotar nos últimos meses e que 18 bichinhos foram devolvidos ao abrigo, após serem acolhidos na pandemia, sob a alegação de mau comportamento.

A Subem lembra também que no período de dezembro a março costuma haver um aumento no número de pets abandonados porque seus tutores querem viajar ou mesmo tirar férias. Em 80% desses casos, ao abandonar os animais, porém, eles alegam outros motivos, como mudanças de residência, morte de um familiar ou crias indesejadas.

Até o início de dezembro, a subsecretaria recebeu cerca de 3.985 denúncias de abandono e maus-tratos. No fim do ano, o número de solicitações pela central de atendimento da Prefeitura do Rio (1746) chega a crescer, em média 40%.

O coletivo independente Fla.Gato, que atua na proteção, alimentação e adoção de gatinhos da colônia do Parque do Flamengo, na Zona Sul, denunciou em um post nas redes sociais o aumento do abandono de animais após o início da flexibilização do isolamento, quando houve o retorno “à vida normal”. Relações-públicas do grupo, Thaiane Montenegro explica que não é possível contabilizar quantos gatos vivem no local, pois há muitos sumiços (por adoção ou morte dos bichinhos), ao mesmo tempo em que outros aparecem na colônia. No entanto, os voluntários perceberam que, nos últimos meses, houve uma diminuição de adoções enquanto cresce constantemente o número de gatos da colônia. Em todo o parque, há entre 150 e 200 gatinhos, estima.

— Embora não tenha uma contagem dos gatos por conta dessa variação, nós os conhecemos; eles têm nomes,sabemos quando um some ou aparece um novo. Além disso, um gato que acaba de ser abandonado fica mais arisco, é bem nítido — observa, acrescentando que no início da pandemia os pedidos de adoção dispararam. — Temos um processo rigoroso de adoção para evitar que os gatos sejam devolvidos, e fizemos, inclusive, campanhas de conscientização ensinando que animais não são presentes. Por volta de março, chegamos a fazer até 15 adoções por semana, e agora estamos com uma média de quatro. Houve também um aumento de abandono de gatas grávidas: já são seis mamães em lares temporários. E de gatinhos pequenos, até com cordão umbilical — conta.

Ela diz que o grupo já pediu aos órgãos competentes que câmeras de monitoramento sejam instaladas no parque para coibir os abandonos, principalmente na área do bairro da Glória e perto das quadras de esporte, onde ocorrem mais casos, devido à má iluminação. Thaiane ressalta que falta fiscalização atuando contra essa prática.

Os animais abandonados ou que já vivem nas ruas dependem dos cuidados de grupos voluntários ou de organizações de proteção para serem alimentados, medicados e vacinados. Mesmo assim, ficam sujeitos a doenças como a felve, uma leucemia viral felina que prolifera com rapidez, e a gripes. Além disso, também estão sujeitos a atropelamentos e agressões por humanos ou outros bichos.

— Existem vacinas tanto para a felve quanto para a gripe, mas não há campanhas de vacinação gratuitas. A vacinação contra raiva, por exemplo, deveria ser feita diretamente na própria colônia, pois não temos como levar todos os gatos. Medicar um gato é difícil. Precisamos fazer um tratamento adequado, por isso nós os levamos para lares temporários: já são 50 que sustentamos — diz Thaiane.

O Fla.Gato pede que a população ajude com doações de ração ou com a adoção responsável dos gatinhos. Quem não puder ajudar desta forma tem a possibilidade de divulgar as ações e de denunciar às autoridades casos de maus-tratos. Mais informações sobre o grupo pelo site ou nas redes sociais (@fla.gato no Facebook e no Instagram).

Já a Subem diz ainda que realizou cerca de 79 mil cirurgias de esterilizações de cães e gatos e mais de 76 mil atendimentos clínicos ao longo dos últimos quatro anos. Os serviços são oferecidos gratuitamente, em nove unidades de saúde médica veterinária. Para manter as adoções em meio à pandemia, foi lançado o Programa Entrega Pet (WhatsApp: 99399-3968), em que a equipe busca entender, em conversas on-line, o que cada interessado procura no bichinho de estimação, para que o pet se adapte com mais facilidade ao futuro lar.

O processo de adoção acontece por meio de videochamada, para que o adotante conheça o animal e, caso o processo seja concretizado, a equipe leve o bichinho até su residência. De abril a agosto, 252 animais foram adotados através do programa, fora os 18 devolvidos.

— A população pode ajudar nesta causa zelando pelos animais que estão no seu bairro, na sua rua ou em suas casas, castrando seus animais e entendendo que eles são seres que sentem fome, frio, medo e merecem o nosso respeito — diz Fábio Souza, subsecretário de Bem-Estar Animal.

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