Após ginecologista acusado de abuso sexual deixar a prisão, delegada que investiga o caso pede para que vítimas não deixem de depor

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RIO — Após a Justiça de Goiás revogar, na noite de segunda-feira, a prisão do ginecologista e obstetra Nicodemos Júnior Estanislau Morais, de 41 anos, a delegada responsável pelas investigações do caso, Isabella Joy, informou ao GLOBO que a decisão pode causar mais medo às vítimas e impedi-las de realizar as denúncias. O médico é acusado de abusar sexualmente de várias pacientes em ao menos quatro estados, mas foi solto após o juiz avaliar que “as acusações contra ele não são graves”, segundo a delegada.

Isabella avalia que é muito importante que as vítimas apareçam para depor, visto que os depoimentos são de extrema importância para incriminar o ginecologista. Até o momento, 53 mulheres denunciaram o médico por algum tipo de abuso sexual e outras estão agendadas para fazer a denúncia ainda nesta semana.

— Vamos continuar nosso trabalho sério e importante de investigação. Temos 30 dias para terminar o inquérito e pedimos sempre que, por mais que seja difícil, as vítimas apareçam na delegacia para que consigamos somar provas. Mas, infelizmente, a tendência é que as vítimas não apareçam por medo de represália — explica a delegada.

Nicodemos havia sido preso no dia 29 de setembro, em um dos consultórios em que fazia atendimentos em Anápolis, a 55 km de Goiânia. Os argumentos da defesa do ginecologista, segundo Isabella Joy, foram que ele tem residência fixa e não vai atrapalhar as investigações, além de não provocar risco para as vítimas e à sociedade. Ao GLOBO, o advogado do médico Carlos Eduardo Gonçalves Martins informou que “as medidas cautelares são suficientes para o médico responder o processo em liberdade''.

Fora da prisão, Nicodemos terá que fazer uso de tornozeleira eletrônica e não poderá exercer a profissão e nem sair de Anápolis.

Alguns secretários e diretores dos hospitais goianos nima Centro Hospitalar e do Instituto da Mama de Anápolis já foram ouvidos pela polícia e alegaram não ter conhecimento das acusações contra o ginecologista. Sem provas contra as alegações das instituições de saúde, a delegacia segue ouvindo funcionários. Os hospitais são acusados de terem recebido denúncias de abuso sexual contra Nicodemos, mas não ter tomado providências a respeito.

Investigação do caso

Segundo a Polícia Civil, Nicodemos Júnior Estanislau Morais se valia, por exemplo, de momentos em que fazia exames como ultrassom endovaginal para violentar as pacientes. Além disso, as vítimas não podiam entrar com acompanhantes no consultório, e os abusos aconteciam também por meio de aplicativos de mensagens, onde o ginecologista mandava sugestões de livros eróticos.

Em nota, o Ministério Público de Goiás informou ao GLOBO, nesta segunda-feira, que após audiência de custódia do acusado, o órgão decidiu pela “manutenção da prisão” do médico. Procurados novamente pela reportagem, nesta manhã, o MP ainda não se pronunciou.

Antes de ser solto, a defesa de Nicodemos alegou que o cliente era “acusado de abuso sexual desde o ínicio da carreira, por interpretação errada das pacientes durante os procedimentos médicos”. O suspeito já havia sido denunciado por violação sexual no Distrito Federal, em 2017, mas o processo não foi concluído.

O acusado possui registro profissional em vários estados do Brasil e, fora da rede pública de saúde, atuava no Hospital Evangélico Goiano e na Maternidade Adalberto Pereira da Silva, em Anápolis. O ginecologista também era um dos médicos mais conhecidos da região, tendo participado, inclusive, de entrevistas para rádios.

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