Após governo anunciar compra da CoronaVac, Bolsonaro questiona 'vacina da China'

Gustavo Maia
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Foto: Divulgação

Um dia depois de o governo federal incluir a CoronaVac no Programa Nacional de Imunização (PNI) contra a Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro voltou a questionar nesta quinta-feira o que chamou de "vacina da China", referência ao imunizante produzido pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Em discurso durante um evento em Porto Seguro (BA), o presidente insistiu que "ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina" e elencou possíveis riscos para quem for imunizado.

A menção à "vacina da China" — a mesma que Bolsonaro havia declarado em outubro que "não será comprada" — ocorreu depois de ele reclamar de parlamentares que derrubaram, em agosto, o seu veto ao item de um projeto de lei que determinava prazo de 72 horas para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar a importação e distribuição quaisquer materiais, medicamentos, equipamentos e insumos da área de saúde sem registro no país durante a pandemia do coronavírus.

— Agora, parlamentares, é pra vocês. Tem num projeto, uma medida provisória que chegou alterada pra mim, um artigo que dizia que a Anvisa tinha 72 horas para certificar, se não certificasse, certificado estava. Eu vetei. O Congresso derrubou o veto. Nós estamos mexendo com vidas. Cadê a nossa liberdade, que a gente fala tanto em liberdade? — disse o presidente, sendo aplaudido.

Ele então disse que a responsabilidade é de quem não quiser tomar vacina, mesmo se vier a contrair o vírus posteriormente e "a vacina for comprovadamente eficaz lá na frente, o que a gente não sabe ainda". Segundo Bolsonaro, a vacinação não pode ser obrigatória porque o Brasil é uma democracia. Nesse momento, ele citou Venezuela e Cuba para dizer que não vivemos em uma ditadura e declarou que não perseguiu gays, mulheres, nordestinos e negros.

Depois de fazer elogios ao Parlamentos, que tem "ajudado em muita coisa" o governo, ele disse considerar natural que às vezes não se chegue a um acordo. Mas voltou a criticar os que discordaram do seu veto, citando aí a CoronaVac:

— Deu uma pisadinha na bola nessa derrubada de veto, aí vocês deram. Porque dá vontade de pegar lá quem votou pra derrubar o veto e, "vem cá, ô, cara, vai tomar injeção ou não? Vai tomar a vacina da China ou não vai? Você derrubou o veto, pô, dá exemplo".

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Dirigindo-se à médica Raíssa Soares, de Porto Seguro, de quem se aproximou pela defesa comum ao uso da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, Bolsonaro reiterou que a decisão sobre a vacina deve ser de cada um.

— Se o cara não quer ser tratado, que não seja. Eu não quero fazer uma quimioterapia e vou morrer, o problema é meu, pô.

— E nós, do governo federal, já vínhamos dizendo isso: a vacina, uma vez certificada pela Anvisa, vai ser extensiva a todos que queiram tomá-la — complementou.

O presidente então repetiu que não vai tomar e reclamou de "alguns" que falam que ele está dando "um péssimo exemplo".

— Ô, imbecil... [foi aplaudido] O idiota que está dizendo que eu dou um péssimo exemplo: eu já tive o vírus, eu já tenho anticorpos, pra que tomar vacina de novo? — questionou.

Ele citou ainda o contrato da Pfizer, em que constaria o aviso de que a fabricante não se responsabiliza por qualquer efeito colateral. E passou a elencar, ironicamente, possíveis consequências da vacina:

— Se você virar um chi... virar um jacaré, é problema de você, pô. Não vou falar outro bicho, porque vão pensar que eu vou falar besteira aqui, né? Se você virar super homem, se nascer barba em alguma mulher aí ou algum homem começar a falar fino, eles não têm nada a ver com isso. Ou, o que é pior, mexer no sistema imunológico das pessoas.

Na sequência, ele indagou como se poderia obrigar alguém a tomar uma vacina que não completou ainda a terceira fase e permanece na experimental.